Uma mudança feita pela Anthropic no Claude começou a incomodar parte dos usuários pagos da inteligência artificial. A empresa passou a colocar uma marca invisível em alguns textos processados pelo Claude, e profissionais que usam a ferramenta no trabalho estão cancelando suas assinaturas por medo de que essa marca apareça em conteúdos entregues a clientes.
A novidade não altera o que aparece na tela. Segundo a Anthropic, a marca não muda o sentido, a qualidade nem a leitura do texto. O problema é que ela pode continuar acompanhando o conteúdo quando ele é copiado, colado e até depois de algumas edições.
Desde o anúncio, dezenas de pessoas afirmaram nas redes sociais que decidiram deixar o serviço. Alguns usuários disseram que não querem correr o risco de entregar códigos, documentos ou textos profissionais que possam ser identificados posteriormente como tendo passado pelo Claude.
A Anthropic, porém, afirma que não percebeu até agora um aumento geral nos cancelamentos desde a implantação da novidade.
A marca pode permanecer mesmo quando Claude apenas corrige um texto
Esse é um dos pontos que mais incomodaram alguns usuários.
A marca não significa necessariamente que Claude escreveu aquele conteúdo do zero. Segundo a própria Anthropic, ela pode aparecer também quando a inteligência artificial apenas corrige erros, traduz, resume ou faz pequenas mudanças em um texto escrito originalmente por uma pessoa.
Na prática, alguém pode escrever todo o conteúdo sozinho, colocar o material no Claude apenas para corrigir a ortografia e, mesmo assim, o texto processado poderá carregar a identificação.
Para quem trabalha em empresas, universidades ou projetos que possuem regras específicas sobre o uso de inteligência artificial, isso criou preocupação.
Usuário que pagava pelo Claude Max decidiu abandonar o serviço
Arturo Villarroya, que trabalha com políticas públicas, contou que cancelou sua assinatura do Claude Max depois de ficar desconfortável com a mudança.
O plano utilizado por ele custa a partir de US$ 100 por mês.
Villarroya disse que usava Claude para várias tarefas, principalmente programação de aplicativos e ferramentas, além de pesquisas, busca de informações e correções relacionadas ao trabalho.
A preocupação dele é que a marca continue presente mesmo em situações nas quais a inteligência artificial tenha sido usada apenas para traduzir um texto, corrigir a escrita, verificar referências acadêmicas ou produzir um pequeno resumo.
Na avaliação dele, isso poderia causar problemas em trabalhos profissionais ou acadêmicos nos quais existem regras rígidas sobre o uso de IA.
Depois do cancelamento, ele afirmou que pretende usar outras ferramentas para programação e organização de suas atividades.
Programadores também temem perguntas de clientes sobre códigos entregues
A preocupação não ficou limitada a textos tradicionais.
Vladislav Rajtmajer, desenvolvedor freelancer da República Tcheca, também disse que cancelou o Claude Max e apontou a nova marca como principal motivo.
Ele utiliza inteligência artificial para revisar códigos e fazer traduções. O receio é entregar um programa a um cliente e, posteriormente, aquele código ser identificado como material que passou pelo Claude.
Dependendo do contrato ou das regras adotadas pelo cliente, isso poderia gerar perguntas sobre quem realmente produziu o trabalho ou até trazer problemas relacionados às condições combinadas para o projeto.
Para Rajtmajer, a mudança também serviu como incentivo para testar ferramentas de outras empresas.
Até quem escreve o próprio conteúdo teme carregar a identificação
Richard Echols, consultor de inteligência artificial nos Estados Unidos, também afirmou que cancelou sua assinatura e que a marca teve peso na decisão.
Ele utiliza Claude para preparar documentos para empresas e disse que muitas vezes escreve o conteúdo sozinho antes de enviar o material para a ferramenta apenas para realizar ajustes.
O incômodo está justamente nessa situação. Mesmo quando o usuário produz o conteúdo original e pede somente uma revisão, a marca pode continuar no resultado final.
A Anthropic reforça que a identificação mostra apenas que aquele texto foi processado pelo Claude. Ela não significa necessariamente que a inteligência artificial foi responsável pela criação original.
Nem todos consideram a marca uma ideia ruim
Apesar das críticas, existem pessoas que defendem esse tipo de identificação.
Uma das justificativas é aumentar a transparência em um momento no qual cada vez mais textos, imagens e outros conteúdos encontrados na internet podem ter sido produzidos ou modificados por inteligência artificial.
A marca também poderia ajudar a evitar que sistemas de IA sejam treinados repetidamente com grandes quantidades de conteúdo produzido por outras inteligências artificiais.
Aadit Sheth, cofundador da empresa de comunicação The Narrative Company, defendeu que leitores deveriam poder saber quando aquilo que estão lendo representa diretamente o pensamento de uma pessoa e quando houve participação de uma ferramenta de IA.
Anthropic diz que mudança está ligada às novas regras da União Europeia
Segundo a Anthropic, a adoção dessa identificação está relacionada ao cumprimento das regras da União Europeia para inteligência artificial.
A empresa também informou que pretende disponibilizar gratuitamente uma ferramenta que permitirá verificar se determinado texto possui a marca deixada pelo Claude.
Outras empresas de tecnologia também utilizam formas de identificar conteúdos criados ou modificados por inteligência artificial em determinados produtos.
Para a Anthropic, esse tipo de identificação pode ajudar a separar melhor conteúdos que tiveram participação de uma IA daqueles produzidos sem o uso dessas ferramentas.
Para alguns usuários, o problema é depender demais de uma única plataforma
A discussão sobre a marca acabou levantando outra preocupação: o que acontece quando uma pessoa ou empresa monta todo o seu trabalho em torno de apenas uma ferramenta de inteligência artificial?
Santiago Alessandro Rivera Martínez, engenheiro de software e fundador de uma agência digital, disse que a mudança reforçou seu receio de ficar dependente demais do Claude.
Segundo ele, quando todo um processo de trabalho depende de um serviço fechado, a empresa responsável pode mudar regras, recursos e limitações a qualquer momento.
Foi justamente essa preocupação que também contribuiu para sua decisão de cancelar a assinatura.
Outro engenheiro de software, Stevan Bogosavljević, já havia deixado o Claude Max anteriormente por outros motivos, incluindo sua avaliação sobre a qualidade do serviço e o acesso aos melhores modelos. Para ele, a chegada da marca apenas reforçou a decisão.
Ainda é cedo para saber se os cancelamentos realmente vão pesar para a Anthropic
Apesar da quantidade de reclamações publicadas nas redes sociais, ainda não existem dados suficientes para saber se a mudança provocará uma saída significativa de clientes.
A Anthropic tinha cerca de 300 mil clientes empresariais em setembro de 2025, e esse número provavelmente mudou desde então. A empresa afirma que não identificou até agora uma alta geral nos cancelamentos ligada à novidade.
O episódio, porém, mostra um problema que deve acompanhar cada vez mais o uso profissional da inteligência artificial.
Para algumas pessoas, saber que um conteúdo teve participação de IA representa mais transparência. Para outras, uma marca que pode permanecer até depois de uma simples correção ou tradução cria uma situação desconfortável, principalmente quando o trabalho será entregue a clientes ou usado em ambientes com regras próprias sobre inteligência artificial.
E é justamente essa diferença de visão que transformou uma alteração invisível nos textos do Claude em uma mudança suficientemente importante para fazer alguns usuários encerrarem assinaturas que custavam até centenas de dólares por mês.





