Ladrões driblam alarmes e levam quatro obras renascentistas avaliadas em até €80 milhões de museu, enquanto cidade celebrava feriado e duas peças acabam abandonadas durante uma fuga cercada de mistério

Enquanto milhares de pessoas participavam de uma tradicional celebração pelas ruas, ladrões entraram em um museu e conseguiram levar quatro obras atribuídas a um dos grandes nomes da pintura renascentista. O valor estimado do que desapareceu pode chegar a €80 milhões.

O roubo aconteceu no Museu Regional de Messina, conhecido como MuMe, na Sicília, Itália. As peças são atribuídas ao pintor Antonello da Messina e fazem parte de um patrimônio artístico ligado diretamente à história da cidade.

O caso ficou ainda mais intrigante porque o museu tinha alarmes funcionando e seguranças trabalhando no local. Mesmo assim, os criminosos conseguiram retirar obras de seus lugares e fugir.

Durante a ação, eles chegaram a remover cinco painéis de uma mesma obra, mas aparentemente não conseguiram levar tudo. Duas peças foram encontradas abandonadas atrás de uma parede.

Painel do Políptico de San Gregorio de Antonello da Messina
Painel do Políptico de San Gregorio, obra de 1473 ligada ao roubo ocorrido no Museu Regional de Messina. Foto: Sailko / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Os ladrões foram direto a algumas das obras mais importantes do museu

Entre as peças atingidas pelo roubo está o Políptico de San Gregorio, criado em 1473. Apesar do nome pouco comum, trata-se basicamente de uma grande obra formada por vários painéis pintados que juntos compõem uma mesma criação.

Dos cinco painéis que sobreviveram ao longo dos séculos, os criminosos conseguiram levar três.

Eles chegaram a retirar todos os cinco de sua estrutura, mas dois acabaram deixados para trás enquanto os ladrões fugiam.

Outra peça levada estava protegida dentro de uma caixa reforçada. Era um painel pintado dos dois lados, com representações da Virgem Maria e de Cristo morto em uma cena de Pietà.

O que desapareceu do museu

3 painéis dos cinco que restavam do Políptico de San Gregorio

1 painel pintado dos dois lados, retirado de uma proteção reforçada

4 obras levadas ao todo durante a ação

Valor do material roubado pode chegar a €80 milhões

O especialista em arte Alberto Fiz estimou que as obras levadas podem valer entre €70 milhões e €80 milhões, algo entre aproximadamente US$ 81 milhões e US$ 92 milhões.

É um valor enorme, mas o prejuízo não é apenas financeiro. Para os responsáveis pelo museu, as peças possuem uma ligação muito forte com Messina e com a própria identidade cultural da região.

Estimativa para as obras roubadas
€70 milhões até €80 milhões

Marisa Mercurio, diretora do MuMe, disse que o museu ficou devastado com o que aconteceu. Segundo ela, as obras estão entre as mais importantes e conhecidas de Antonello da Messina.

Para a diretora, o impacto atinge não apenas o museu, mas também a cidade, a comunidade e o mundo da arte.

Detalhe de uma das pinturas do Políptico de San Gregorio
Detalhe do Políptico de San Gregorio, conjunto considerado uma das obras mais importantes de Antonello da Messina. Foto: Sailko / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Alarmes estavam funcionando e havia seguranças no museu

Outro ponto que deverá ser analisado pelos investigadores é justamente como os criminosos conseguiram realizar uma ação desse tamanho.

Segundo a direção do museu, o roubo aconteceu pouco antes das 22 horas de sábado.

Os alarmes estavam funcionando e havia funcionários responsáveis pela segurança no local. Ainda assim, os ladrões conseguiram passar pelo sistema e chegar às obras.

A sequência relatada até agora mostra uma ação rápida, mas que exigiu tempo suficiente para retirar várias peças de suas estruturas.

Pouco antes das 22h
O roubo acontece dentro do museu enquanto a cidade estava movimentada por uma tradicional celebração.

Os cinco painéis são retirados
Os criminosos desmontam as cinco partes que restavam do Políptico de San Gregorio.

Duas peças ficam para trás
Durante a fuga, dois painéis acabam abandonados atrás de uma parede.

Quatro obras desaparecem
Três painéis do conjunto de 1473 e outra obra pintada dos dois lados são levados.

A cidade estava cheia por causa de uma das principais festas do verão italiano

O roubo aconteceu durante o período do Ferragosto, uma das datas mais tradicionais do verão na Itália e ligada à celebração religiosa da Assunção de Maria.

Em Messina, moradores e visitantes participavam de uma grande procissão pela cidade. A celebração terminou com orações e uma bênção na Piazza Duomo aproximadamente no mesmo período em que o furto acontecia no museu.

Com as ruas movimentadas e boa parte da atenção voltada para as comemorações, os investigadores agora tentam entender como os criminosos conseguiram entrar, retirar obras tão grandes e conhecidas e deixar o local.

Roubar as obras pode ter sido muito mais fácil do que conseguir vendê-las

Existe outro problema para quem estiver com as pinturas: elas são extremamente conhecidas.

A especialista em crimes envolvendo obras de arte Lynda Albertson explicou que peças desse nível são reconhecidas rapidamente, o que torna muito difícil colocá-las à venda por caminhos normais.

Um grande colecionador, uma casa de leilões ou uma galeria séria dificilmente compraria uma obra desse porte sem verificar sua origem.

Por isso, pinturas famosas roubadas podem acabar circulando durante anos no mundo do crime, passando de uma pessoa para outra e sendo usadas até como garantia em outros negócios ilegais.

Na prática, os ladrões podem estar agora com dezenas de milhões de euros em arte nas mãos e, ao mesmo tempo, com algo extremamente difícil de transformar em dinheiro.

Antonello da Messina ganhou ainda mais atenção internacional nos últimos meses

O interesse pelas obras do pintor já vinha crescendo. No começo deste ano, o Ministério da Cultura da Itália comprou a pintura religiosa Ecce Homo, também de Antonello da Messina, por US$ 14,9 milhões em uma negociação feita com a Sotheby’s, em Nova York.

Para Enzo Caruso, responsável pela área cultural de Messina, o roubo representa um desastre para a cidade justamente pela ligação entre Antonello e o local onde nasceu e desenvolveu parte de sua história artística.

O caso também acontece poucos dias depois de outro episódio envolvendo obras famosas na Itália. A polícia anunciou a recuperação de três pinturas roubadas de Renoir, Cézanne e Matisse, avaliadas juntas em cerca de €10 milhões. Cinco pessoas foram detidas naquele caso.

Museu fechou as portas enquanto investigadores procuram pistas

Depois do roubo, o MuMe permaneceu fechado no domingo para permitir que investigadores trabalhassem no local e recolhessem possíveis provas.

Agora, além de tentar descobrir quem participou da ação, a investigação precisa encontrar um caminho para recuperar obras que carregam um valor muito maior do que o preço colocado nelas.

Para Messina, os painéis fazem parte da própria história da cidade. E existe uma ironia que pode acabar favorecendo a investigação: quanto mais valiosas e famosas são essas pinturas, mais difícil fica escondê-las ou vendê-las sem chamar atenção.