Pesquisa sobre Alzheimer encontra caminho que pode ajudar a recuperar mais de duas horas de sono, após cientistas descobrirem que células de defesa do cérebro podem estar por trás da perda de descanso

Uma descoberta inesperada pode mudar a maneira como pesquisadores tentam entender os problemas de sono ligados ao Alzheimer. Em um experimento com camundongos que desenvolvem placas semelhantes às observadas na doença, cientistas conseguiram recuperar mais de duas horas de sono por dia ao interferir temporariamente em células de defesa presentes no cérebro.

O resultado chamou atenção porque o tratamento não reduziu a quantidade de placas amiloides. Mesmo assim, o sono melhorou. Isso levou os pesquisadores da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, a investigar uma possibilidade diferente: parte da perda de sono pode ser provocada pela reação do próprio cérebro às placas, e não simplesmente pelas placas em si.

O estudo foi publicado na revista científica Alzheimer’s & Dementia. Apesar dos resultados considerados promissores pela equipe, o trabalho foi realizado em animais. Portanto, ainda não existe demonstração de que o mesmo efeito possa ser obtido em pessoas com Alzheimer.

Células microgliais marcadas por fluorescência em tecido cerebral de camundongo
Microglia observada em tecido cerebral de camundongo. Essas células participam da defesa do cérebro e ficaram no centro da nova pesquisa. Imagem: Wikimedia Commons, CC BY 4.0.

O que são as células que apareceram no centro da descoberta

As células estudadas são chamadas de microglia. Em linguagem simples, elas fazem parte do sistema de defesa do cérebro.

Quando percebem algo errado, essas células podem entrar em ação para ajudar a proteger o tecido cerebral. O problema é que uma resposta de defesa muito intensa também pode provocar inflamação e acabar prejudicando o funcionamento normal do cérebro.

Os pesquisadores usam uma comparação simples para explicar a ideia. Imagine um pequeno incêndio na cozinha. O fogo é o problema inicial. Os sprinklers entram em funcionamento para tentar proteger a casa, mas acabam molhando todos os cômodos.

No Alzheimer, as placas amiloides seriam o pequeno incêndio. A microglia funcionaria como o sistema de emergência que reage ao problema. A nova pesquisa indica que essa reação pode ser uma das responsáveis por manter o cérebro mais acordado quando deveria estar descansando.

O caminho observado pelos pesquisadores
Placas amiloides
Microglia reage
Inflamação aumenta
Sono é prejudicado

Os cientistas compararam o começo e uma fase mais avançada do problema

A equipe trabalhou com dois grupos de camundongos. Um deles tinha uma alteração genética que favorecia o aparecimento das placas amiloides. O outro envelhecia normalmente e servia para comparação.

Os animais foram estudados em dois momentos. Aos seis meses, quando as placas começavam a aparecer, e aos 18 meses, representando uma fase muito mais avançada.

A expectativa parecia lógica: conforme a quantidade de placas aumentasse, os problemas de sono também deveriam ficar progressivamente piores.

Mas não foi isso que aconteceu.

Entre os seis e os 18 meses, a quantidade de placas mais do que dobrou. Mesmo assim, a perda de sono não piorou na mesma proporção.

Mais placas não significaram uma perda cada vez maior de sono
6 meses Placas começando
18 meses Mais que o dobro de placas

Representação visual da diferença descrita no estudo. As barras mostram a mudança relativa e não uma medição clínica exata.

Para a equipe, isso sugere que uma forte reação pode acontecer justamente quando as primeiras placas aparecem. Depois que esse processo afeta o sono, simplesmente acumular mais placas não necessariamente provoca uma queda equivalente no número de horas dormidas.

O experimento que trouxe de volta mais de duas horas de sono

Para descobrir se a microglia realmente estava envolvida no problema, os cientistas utilizaram um medicamento chamado pexidartinib, também identificado como PLX3397, como ferramenta experimental.

O medicamento bloqueia um sinal importante para a sobrevivência dessas células.

Durante 14 dias, os camundongos receberam o tratamento. Ao final do período, aproximadamente 87% das células microgliais haviam sido temporariamente removidas.

E foi então que apareceu o resultado que mais chamou atenção.

DEPOIS DA REDUÇÃO TEMPORÁRIA DA MICROGLIA
+2 horas
de sono por dia nos animais estudados

87% das células microgliais foram temporariamente removidas após duas semanas de tratamento experimental.

Os períodos de sono restaurador também ficaram mais longos. Isso aumentou as oportunidades de os animais passarem para outras fases normais do sono.

O detalhe mais importante é que as placas amiloides continuaram no cérebro. A melhora aconteceu mesmo sem eliminar aquilo que durante muito tempo foi considerado o principal responsável pelo problema.

Nem todo sono foi afetado da mesma maneira

O estudo também ajudou os pesquisadores a separar aquilo que acontece durante o envelhecimento normal das alterações vistas no modelo de Alzheimer.

Durante o envelhecimento comum, a redução apareceu principalmente no sono REM, fase muito conhecida por estar relacionada aos sonhos e que também participa dos processos de memória.

Já nos animais com placas amiloides, uma parte especialmente afetada foi o sono NREM restaurador.

Essa fase é importante para vários processos de recuperação do organismo e para o funcionamento normal do cérebro.

Registro de atividade elétrica cerebral durante uma fase do sono
Exemplo de registro de EEG durante o sono. Os pesquisadores usaram medições da atividade elétrica cerebral para diferenciar períodos de sono e vigília. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público.

A atividade elétrica do cérebro também revelou pistas

Para acompanhar os animais, a equipe não observou apenas quanto tempo eles dormiam.

Os cientistas analisaram a atividade elétrica do cérebro para identificar quando havia sono profundo, sono REM ou vigília.

Também separaram os sinais elétricos em diferentes componentes para entender se o cérebro permanecia excessivamente ativo até durante períodos em que deveria estar descansando.

A comparação usada pelos pesquisadores é semelhante a observar um carro parado enquanto o motor continua acelerado demais.

Essa análise permitiu encontrar padrões que diferenciavam o envelhecimento normal das alterações associadas às placas.

A descoberta ainda não significa um novo tratamento para pessoas com Alzheimer

Esse é o ponto mais importante para colocar o resultado em perspectiva.

Os pesquisadores não recuperaram duas horas de sono em pacientes com Alzheimer. O experimento foi realizado em camundongos utilizados como modelo da doença.

Também não existe indicação de que pessoas devam usar pexidartinib para tentar melhorar o sono relacionado ao Alzheimer. No estudo, o medicamento foi utilizado para ajudar os cientistas a descobrir o papel da microglia.

O objetivo agora é encontrar formas mais seguras e menos agressivas de acalmar essas células sem precisar removê-las do cérebro.

Em vez de retirar as células, pesquisadores querem aprender a acalmá-las

A equipe já está investigando uma etapa seguinte.

A ideia é tentar modificar a maneira como a microglia utiliza energia e reage às alterações no cérebro, evitando aquela resposta exagerada que pode contribuir para manter o cérebro acordado.

Entre os medicamentos que estão sendo estudados em novas experiências estão a metformina, conhecida principalmente por seu uso no diabetes, e o estiripentol, utilizado em determinados casos de epilepsia.

Isso não significa que esses medicamentos já tenham sido comprovados contra os problemas de sono do Alzheimer. Eles estão sendo investigados como possíveis ferramentas para entender e controlar o funcionamento dessas células.

Um exame relativamente simples também pode ganhar uma nova função no futuro

Outro caminho aberto pelo estudo envolve o eletroencefalograma, conhecido como EEG.

Como os pesquisadores encontraram diferenças na atividade elétrica cerebral, eles acreditam que esses sinais possam futuramente ajudar a acompanhar alterações relacionadas à doença.

Uma das possibilidades estudadas é o uso de equipamentos portáteis capazes de registrar a atividade cerebral durante o sono dentro da própria casa.

Se pesquisas futuras confirmarem essa possibilidade em pessoas, o EEG poderia se tornar uma ferramenta mais acessível para acompanhar indivíduos com risco de Alzheimer antes da necessidade de exames mais caros ou complexos.

As duas horas recuperadas mudaram a pergunta que os cientistas estão fazendo

Durante muito tempo, uma explicação possível para a perda de sono relacionada ao Alzheimer era que as placas ou os próprios neurônios danificados atrapalhavam diretamente o descanso.

O novo trabalho não elimina essas possibilidades, mas acrescenta um personagem importante à história.

A microglia parece participar ativamente da perda de sono provocada pelas placas no modelo estudado. Quando grande parte dessas células foi temporariamente retirada, os animais voltaram a dormir mais, mesmo com as placas ainda presentes.

Agora, a grande pergunta é saber se será possível controlar essa resposta sem eliminar células importantes para a defesa do cérebro e, principalmente, se algo parecido também poderá funcionar com segurança em seres humanos.

Até que estudos em pessoas respondam a essas questões, o resultado deve ser visto como uma descoberta experimental importante e não como um novo tratamento disponível para Alzheimer.