Um El Niño forte pode provocar uma alta de até 19,9% nos preços dos alimentos in natura e acrescentar aproximadamente 0,83 ponto percentual ao IPCA, segundo estudo que analisou episódios anteriores do fenômeno climático e seus efeitos sobre os preços dos alimentos no Brasil.
Hortaliças, carnes e outros produtos pouco processados aparecem entre os mais sensíveis às alterações provocadas pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico. Dependendo da intensidade do fenômeno, os efeitos podem chegar ao consumidor meses depois do choque climático.
As projeções ganham importância porque a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, aponta atualmente maior probabilidade de formação de um evento forte. Para o fim de 2026, as estimativas indicam cerca de 80% de possibilidade de um El Niño forte.
alta estimada em El Niño forte
alta estimada no cenário forte
impacto total estimado
de El Niño forte no fim do ano
Quanto os alimentos podem subir
O estudo separou os possíveis efeitos de acordo com a intensidade do El Niño.
Em um evento moderado, os alimentos in natura poderiam acumular aumento de 13,4% em 12 meses. Já em um cenário forte, a alta projetada chega a 19,9%.
Quando se considera o conjunto da alimentação consumida dentro de casa, a projeção é menor, mas ainda relevante. A estimativa aponta alta de cerca de 2% em um El Niño moderado e de 6,32% em um evento forte.
Por que hortaliças e alimentos frescos sentem primeiro
Os alimentos in natura costumam responder mais rapidamente às mudanças climáticas porque muitos possuem ciclos de produção curtos.
No caso das hortaliças, excesso ou falta de chuva, calor intenso e alterações bruscas de temperatura podem atingir rapidamente a produção e reduzir a oferta disponível no mercado.
Já alimentos semi-elaborados, como arroz e feijão, tendem a sentir o impacto de maneira mais gradual. Nesses casos, além da safra, entram no cálculo custos relacionados aos insumos utilizados na produção.
Os industrializados tendem a apresentar uma reação mais lenta porque o preço final também depende de processamento, embalagens, logística, energia, transporte e comercialização.
El Niño forte teria impacto maior sobre o IPCA
O levantamento também estimou quanto essas altas poderiam acrescentar à inflação oficial brasileira.
Em um cenário moderado, o efeito total dos alimentos adicionaria aproximadamente 0,41 ponto percentual ao IPCA.
Se o El Niño for forte, o impacto estimado sobe para cerca de 0,83 ponto percentual, com o efeito mais intenso aparecendo aproximadamente seis meses depois do choque climático.
In natura, semi-elaborados e industrializados terão impactos diferentes
No cenário de El Niño forte, os produtos frescos concentram a maior alta. Os semi-elaborados e industrializados também podem ficar mais caros, mas com intensidade menor.
Cenário de El Niño forte
Somente a alta dos produtos in natura acrescentaria aproximadamente 0,53 ponto percentual ao IPCA. Os semi-elaborados acrescentariam cerca de 0,20 ponto, enquanto os industrializados responderiam por outros 0,11 ponto.
Como o estudo chegou às projeções
Os pesquisadores compararam a evolução do Índice Oceânico Niño, conhecido pela sigla ONI, com o comportamento da inflação dos alimentos consumidos em casa durante episódios importantes de El Niño registrados nas últimas décadas.
O ONI acompanha as mudanças de temperatura no Oceano Pacífico e ajuda a medir a intensidade do fenômeno.
Na classificação utilizada no estudo, valores superiores a 0,5°C na média de três meses indicam um evento moderado. Quando a anomalia supera 1°C, o episódio entra na categoria forte.
Chance de El Niño forte é atualmente a maior
Segundo a divulgação da NOAA referente a agosto, os cenários considerados apresentam probabilidades diferentes.
Para o fim do ano, as projeções apontam aproximadamente 80% de probabilidade de ocorrência de um El Niño forte.
As estimativas ainda podem mudar, já que a intensidade real dependerá da evolução das temperaturas do Pacífico nos próximos meses.
Curitiba e outras grandes cidades podem sentir impacto mais rápido
O levantamento também analisou diferenças regionais e indicou que localidades com maior peso do consumo ou da produção de alimentos frescos podem sentir o repasse aos preços mais rapidamente.
Entre as regiões metropolitanas com possibilidade de aumentos mais intensos no curto prazo aparecem:
- Porto Alegre
- Curitiba
- São Paulo
- Rio de Janeiro
- Goiânia
- Brasília
- Fortaleza
- Belém
Salvador e Recife aparecem com impactos iniciais menores, o que indicaria um repasse mais gradual dos efeitos climáticos aos preços nessas regiões.
Quais produtos podem pesar mais no bolso
As hortaliças devem estar entre os primeiros produtos a reagir caso o El Niño se intensifique, justamente por causa da rapidez de seus ciclos de produção e da sensibilidade às mudanças de chuva e temperatura.
Economistas também apontam possibilidade de impactos sobre milho, café, frutas, laranja, cana-de-açúcar, trigo e arroz.
O leite também pode sofrer influência dependendo do comportamento das chuvas no Sul do país.
Na pecuária, o Instituto Nacional de Meteorologia aponta maior vulnerabilidade no Centro-Oeste e no Norte, onde períodos de pouca chuva podem reduzir a disponibilidade de água e prejudicar as pastagens.
Nem todo efeito do El Niño é necessariamente negativo
Embora grande parte das projeções envolva riscos de perdas agrícolas e aumento de preços, determinadas regiões e culturas podem ser beneficiadas.
No Nordeste, por exemplo, condições de menor volume de chuva combinadas ao calor podem favorecer a colheita do feijão em algumas áreas.
No Sul, volumes de chuva acima da média podem beneficiar determinadas culturas de inverno.
O tamanho do impacto final sobre os alimentos dependerá não apenas da intensidade do El Niño, mas também da duração do fenômeno, das condições das safras, dos estoques disponíveis, do custo dos insumos e do cenário econômico durante os próximos meses.




