Depois de uma semana acordando cedo e dormindo menos do que gostaria, passar algumas horas extras na cama no sábado ou no domingo pode parecer apenas uma tentativa de recuperar o cansaço. Mas uma grande pesquisa encontrou uma associação interessante: pessoas privadas de sono durante a semana que conseguiram compensar melhor essa perda nos fins de semana apresentaram menor risco de doenças cardiovasculares.
O estudo utilizou dados de 90.903 participantes do UK Biobank e foi apresentado em 2024 durante o Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, o ESC Congress.
Os pesquisadores Zechen Liu e Yanjun Song, ligados ao State Key Laboratory of Cardiovascular Disease, ao Fuwai Hospital e ao National Center for Cardiovascular Disease, em Pequim, na China, participaram do trabalho.
O principal resultado
Entre os participantes que dormiam menos de sete horas regularmente, aqueles com maior quantidade de sono compensatório nos dias de folga apresentaram risco cerca de 20% menor de desenvolver doenças cardíacas em comparação com os que menos recuperavam o sono.
Como o estudo chegou a esse resultado?
Os pesquisadores dividiram os participantes em quatro grupos conforme a diferença entre o tempo de sono nos dias úteis e nos fins de semana.
Os dados de sono foram obtidos por acelerômetros usados no pulso. Cerca de 19.816 participantes foram classificados como privados de sono, porque relataram dormir menos de sete horas por noite.
Depois, os pesquisadores acompanharam registros hospitalares e causas de morte durante uma mediana de quase 14 anos, procurando diagnósticos como doença cardíaca isquêmica, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial e acidente vascular cerebral.
No conjunto completo, quem mais recuperava o sono nos fins de semana apresentou risco 19% menor de desenvolver doença cardíaca. Entre aqueles que sofriam privação de sono de forma regular, a diferença chegou a aproximadamente 20%.
Isso mostra uma associação, mas não prova que dormir até mais tarde seja responsável sozinho pela redução do risco.
Então vale perder sono durante a semana e recuperar tudo no domingo?
Não é isso que os pesquisadores recomendam.
O ideal continua sendo dormir o suficiente de forma regular. Recuperar parte do sono perdido pode ser útil quando uma semana excepcionalmente puxada atrapalha a rotina, mas viver permanentemente acumulando uma dívida de sono para tentar pagá-la no fim de semana pode trazer outros problemas.
Isso acontece porque o organismo trabalha com ritmos circadianos, que ajudam a definir horários de sono, vigília, liberação hormonal e outras funções.
Ir para a cama e acordar em horários completamente diferentes todos os dias pode atrapalhar essa organização.
Outro estudo encontrou relação entre horários irregulares e pressão alta
Em 2023, pesquisadores da Flinders University, em Adelaide, na Austrália, publicaram na revista científica Hypertension um grande estudo sobre irregularidade do sono.
A equipe, liderada por Hannah Scott e Bastien Lechat, analisou dados de 12.287 adultos e mais de 2 milhões de noites de sono.
Os participantes utilizaram dispositivos que monitoravam duração e horários do sono durante aproximadamente nove meses, além de fornecer medições da pressão arterial.
Os pesquisadores observaram que maior irregularidade na duração e no horário do sono estava associada a uma maior ocorrência de hipertensão.
Uma variação de aproximadamente 34 minutos no horário de adormecer apareceu associada a uma probabilidade 32% maior de hipertensão.
O detalhe importante: não basta olhar apenas para quantas horas você dorme. Regularidade também parece ter importância para a saúde cardiovascular.
A ciência tentou resolver essa aparente contradição
Em 2023, a National Sleep Foundation reuniu um painel internacional de especialistas para avaliar justamente a regularidade dos horários de sono e a compensação nos dias de folga.
O trabalho, publicado na revista Sleep Health, teve entre seus autores Tracey Sletten, da Monash University, e Matthew Weaver, da Harvard Medical School e do Brigham and Women’s Hospital.
O grupo revisou 63 estudos científicos antes de chegar a um consenso.
A conclusão foi que manter horários relativamente regulares para dormir e acordar é importante para saúde e desempenho. Ao mesmo tempo, quando uma pessoa realmente não conseguiu dormir o suficiente durante a semana, uma ou duas horas adicionais nos dias de folga podem ser benéficas.
Mas nem todos os estudos encontraram proteção para o coração
Existe uma razão para não tratar os 20% como uma regra definitiva.
Outra análise do UK Biobank, publicada em 2024 na revista científica Sleep, avaliou mais de 70 mil adultos com medições de sono feitas por dispositivos e não encontrou uma associação significativa entre sono compensatório no fim de semana e menor incidência de doenças cardiovasculares.
Essa diferença entre estudos mostra que a relação ainda está sendo investigada e pode depender da forma como o sono é medido, da população estudada e de outros fatores de saúde e estilo de vida.
O melhor cenário ainda é não acumular uma grande dívida de sono
Dormir um pouco mais no sábado depois de uma semana excepcionalmente cansativa provavelmente é bem diferente de viver durante anos com quatro ou cinco horas de sono e tentar compensar tudo em dois dias.
Para a maioria dos adultos, recomendações de sono costumam ficar em torno de sete a nove horas por noite, embora a necessidade individual varie.
Manter horários relativamente próximos para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana, ajuda a preservar o ritmo circadiano.
Mas, se uma noite curta ou uma semana complicada acontecer, a evidência disponível sugere que recuperar uma parte desse sono pode ser melhor do que simplesmente continuar acumulando cansaço.
O ponto principal é que dormir mais no fim de semana pode ajudar a reduzir parte da dívida de sono, mas não substitui uma rotina de sono adequada durante a semana.




