Arroz e feijão aparecem ligados a menos falhas nutricionais, menor custo e menor impacto ambiental em estudo com 46 mil brasileiros

Uma das combinações mais tradicionais da mesa brasileira ganhou respaldo de uma pesquisa de grande alcance. Um estudo com 46.164 pessoas de todas as regiões do Brasil encontrou associação entre maior consumo de arroz e feijão e uma alimentação nutricionalmente mais adequada, mais barata e com menor impacto ambiental.

Entre os brasileiros que consumiam mais da dupla, os pesquisadores encontraram 44,49% menos inadequações nutricionais em comparação com aqueles que consumiam menores quantidades. A dieta também apareceu com custo 38,03% menor, pegada de carbono 17,64% inferior e uso de água 21,05% mais baixo.

O trabalho foi conduzido por Gabriela Lopes da Cruz e Maria Laura da Costa Louzada, da Faculdade de Saúde Pública e do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo, o Nupens-USP, em colaboração com Kelly Garton e Boyd Swinburn, da University of Auckland, na Nova Zelândia.

A pesquisa, intitulada Rice and beans: the nutritious, sustainable and affordable staple of the Brazilian diet, foi publicada em 2026 na revista científica Public Health Nutrition.

Como o estudo foi feito

Os pesquisadores analisaram dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018, do IBGE. A amostra incluiu brasileiros com 10 anos ou mais e foi construída para representar diferentes estados, regiões metropolitanas, capitais e áreas urbanas e rurais do país.

Arroz e feijão representam uma parte importante das calorias consumidas no Brasil

Os dados mostraram que o arroz correspondia, em média, a 10,75% da energia diária consumida pelos participantes, enquanto o feijão representava outros 6,33%.

Somados, os dois alimentos respondiam por aproximadamente um sexto das calorias da dieta brasileira.

A presença da dupla foi identificada em todos os grupos sociodemográficos analisados, embora existissem diferenças importantes. O consumo era maior entre homens, moradores de áreas rurais e participantes com menor renda e escolaridade.

Entre as regiões brasileiras, a participação de arroz e feijão na alimentação foi maior no Centro-Oeste e menor no Sul.

Quanto maior o consumo da dupla, menor foi o número de inadequações na dieta

Os pesquisadores avaliaram a qualidade da alimentação olhando simultaneamente para nutrientes que frequentemente ficam abaixo do recomendado e componentes que podem aparecer em excesso.

Entraram na análise, por exemplo, fibras, proteínas, ferro e potássio, mas também açúcar adicionado, gordura total, gordura saturada e gordura trans.

Quando comparados os extremos de consumo, as dietas com maior presença de arroz e feijão apresentaram uma redução de 44,49% no indicador geral de inadequações nutricionais.

Isso não significa que arroz e feijão, isoladamente, sejam responsáveis por toda a diferença. O estudo é observacional e mostra uma associação entre padrões alimentares. Ainda assim, os resultados indicaram que quem consumia mais da combinação também apresentava uma dieta globalmente diferente.

44,49%
menos inadequações nutricionais
na comparação entre maior e menor consumo combinado de arroz e feijão.
38,03%
menor custo total da dieta
mostrando que o padrão mais favorável também apareceu como mais acessível.
17,64%
menor pegada de carbono
considerando o impacto climático associado aos alimentos consumidos.
21,05%
menor pegada hídrica
relacionada ao volume de água necessário para a produção dos alimentos.

A dieta também ficou mais barata

Um dos resultados mais fortes apareceu quando os pesquisadores calcularam o preço dos alimentos consumidos.

À medida que a presença de arroz e feijão aumentava, o custo total da alimentação diminuía.

Esse ponto é especialmente relevante porque recomendações de alimentação saudável muitas vezes esbarram no preço. No caso da combinação tradicional brasileira, o estudo encontrou justamente o contrário: o padrão nutricionalmente mais favorável também apareceu associado a menor gasto.

Na comparação dos grupos extremos de consumo conjunto, a diferença chegou a aproximadamente 38%.

Menos carbono e menos água para produzir a alimentação

O estudo também avaliou uma dimensão que normalmente não aparece quando se fala de arroz com feijão: o impacto ambiental da dieta.

Os pesquisadores estimaram a pegada de carbono, relacionada à emissão de gases de efeito estufa durante a produção dos alimentos, e a pegada hídrica, que considera o uso de água.

Os participantes com maior consumo combinado de arroz e feijão apresentaram dietas com pegada de carbono 17,64% menor e pegada hídrica 21,05% inferior.

Mais uma vez, os números se referem ao padrão alimentar completo dessas pessoas, e não simplesmente ao impacto de um prato individual de arroz com feijão.

O estudo encontrou quatro vantagens andando na mesma direção

Mais arroz e feijão apareceram associados simultaneamente a melhor perfil nutricional, menor custo, menor emissão de carbono e menor uso de água.

Por que arroz e feijão funcionam tão bem juntos?

Além dos resultados do novo estudo, a combinação possui uma complementaridade nutricional conhecida há bastante tempo.

O arroz é principalmente fonte de carboidratos e energia. Já o feijão fornece fibras, proteínas vegetais, vitaminas do complexo B e minerais como ferro, potássio e magnésio.

Os aminoácidos presentes em menor quantidade em um dos alimentos são parcialmente compensados pelo outro, melhorando a qualidade da proteína quando a dupla faz parte da mesma alimentação.

As fibras e proteínas do feijão também tornam a digestão da refeição mais lenta e ajudam na sensação de saciedade.

A relação com os ultraprocessados ajuda a explicar parte do resultado

Um detalhe importante é que dietas com maior participação de arroz e feijão tendem a manter maior presença de alimentos in natura ou minimamente processados.

Nas últimas décadas, pesquisadores do próprio Nupens vêm mostrando que alimentos ultraprocessados passaram a ocupar uma fatia crescente da alimentação brasileira, muitas vezes substituindo preparações tradicionais.

Esses produtos costumam apresentar maior densidade energética e podem conter grandes quantidades de açúcares, gorduras e sódio, além de menos fibras em comparação com refeições preparadas a partir de alimentos básicos.

Por isso, parte da vantagem observada no novo estudo não deve ser entendida apenas como “comer mais feijão”, mas como a presença de um padrão alimentar mais próximo da culinária tradicional brasileira.

Gabriela Cruz destaca justamente o valor de estudar a alimentação brasileira

Gabriela Lopes da Cruz, pesquisadora do Nupens-USP e autora principal do estudo, destaca que um dos diferenciais da pesquisa é analisar uma prática alimentar já incorporada à cultura do país.

Enquanto dietas como a mediterrânea foram amplamente pesquisadas durante décadas, ainda existem menos estudos de grande porte avaliando padrões tradicionais de regiões fora da Europa.

O arroz com feijão oferece uma característica particularmente interessante nesse contexto: não se trata de convencer milhões de brasileiros a adotar uma alimentação estrangeira ou completamente diferente.

A combinação já está presente historicamente no almoço e no jantar de grande parte da população.

O arroz continua em nove de cada dez lares brasileiros

Apesar das mudanças no padrão alimentar, a dupla ainda possui enorme presença no país.

Um levantamento da Worldpanel by Numerator, realizado entre outubro de 2024 e setembro de 2025 e encomendado pela Associação Brasileira da Indústria do Arroz, apontou que o arroz esteve presente semanalmente em 91,1% dos lares brasileiros.

No período analisado, o alimento apareceu em aproximadamente 21,7 bilhões de refeições, especialmente no almoço e no jantar.

O feijão continua como um dos acompanhamentos centrais dessa base alimentar, embora o consumo dos dois alimentos tenha perdido espaço nas últimas décadas diante da expansão de produtos ultraprocessados.

O estudo não diz que basta comer arroz e feijão para ter uma dieta perfeita

Os próprios resultados precisam ser colocados no contexto correto.

Trata-se de um estudo transversal, baseado nos dados alimentares da POF. Isso permite identificar associações importantes em uma amostra representativa do Brasil, mas não prova sozinho que aumentar arroz e feijão produzirá exatamente aquelas reduções em qualquer pessoa.

A alimentação completa continua contando. Verduras, legumes, frutas, diferentes fontes de proteína e outros alimentos minimamente processados permanecem importantes para uma dieta equilibrada.

O que a pesquisa mostra é que a velha dupla brasileira parece ocupar um lugar especialmente favorável nesse conjunto.

Em um momento em que alimentação saudável muitas vezes é associada a produtos caros, ingredientes importados e dietas difíceis de manter, os resultados chamam atenção por apontarem justamente para o caminho oposto: uma refeição simples, profundamente brasileira, relativamente barata e que já faz parte da rotina de milhões de pessoas.

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Murilo Tavares

Murilo Tavares dos Santos é redator especializado em curiosidades, cultura, comportamento, ciência e fatos pouco conhecidos. Produz conteúdos leves e informativos, com foco em histórias surpreendentes, explicações simples e temas capazes de despertar a curiosidade do leitor.