Aos 77 anos, mulher enfrenta 15 km sob drones para fugir de cidade destruída pela guerra

Nina Ivanova
Nina Ivanova /Reprodução

Quando Nina Ivanova decidiu sair de Lyman, no leste da Ucrânia, já não existia uma opção realmente segura. Aos 77 anos, ela calculava que suas chances eram praticamente as mesmas permanecendo escondida na cidade ou tentando atravessar quilômetros de estradas expostas a drones e bombardeios.

As forças russas estavam a pouco mais de um quilômetro. Ataques com bombas planadoras, artilharia e drones haviam transformado partes da cidade em ruínas. O marido de Nina estava morto, sua casa havia sido destruída e ela vivia havia meses em um porão com as duas filhas.

Equipes civis e militares de evacuação já não conseguiam entrar em Lyman. O risco era grande demais. Para quem ainda permanecia ali, a fuga significava uma coisa difícil de imaginar para uma mulher de 77 anos: percorrer cerca de 15 quilômetros a pé sob um céu constantemente vigiado por drones.

A decisão

Ficar significava continuar esperando o próximo ataque. Sair significava caminhar por uma rota onde outros moradores já haviam morrido tentando escapar.

Lyman já tinha sobrevivido a uma ocupação, mas nunca deixou de estar na linha de fogo

Nina e o marido, Borys, haviam construído praticamente toda a vida em Lyman. Criaram os filhos em uma casa na Rua Michurina, numa cidade que antes da guerra tinha cerca de 20 mil habitantes e exercia uma função importante como entroncamento ferroviário no Donbas.

Quando a Rússia iniciou a invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, conquistar o Donbas tornou-se um dos principais objetivos militares de Moscou. A localização de Lyman colocou a cidade diretamente no caminho dos combates.

As tropas russas avançaram pelas florestas e campos ao redor e ocuparam Lyman em maio daquele ano. Cerca de cinco meses depois, forças ucranianas retomaram a cidade.

A recuperação, porém, não trouxe tranquilidade. Lyman continuou ao alcance dos ataques russos, e a pressão militar voltou a aumentar progressivamente.

No final de 2025, os bombardeios se intensificaram novamente. As entregas regulares de ajuda humanitária acabaram sendo interrompidas, deixando quem ainda permanecia na cidade cada vez mais isolado.

Em dezembro, a casa da família começou a desaparecer

No dia 17 de dezembro, um ataque atingiu diretamente a casa de Nina. O telhado desabou e as janelas foram destruídas.

Dois dias depois, outro impacto atingiu a residência e devastou a sala.

A família escapou porque já havia procurado abrigo no porão de um prédio de cinco andares, onde dividia espaço com outros moradores.

O inverno transformou o abrigo subterrâneo em uma batalha diária contra o frio. Em temperaturas abaixo de zero, eles dormiam usando casacos e gorros, cobertos por três cobertores.

A comida vinha principalmente dos estoques de ajuda humanitária acumulados antes que as entregas fossem interrompidas. Para cozinhar, improvisavam uma estrutura com tijolos e fogo dentro do abrigo.

17 de dezembro
A casa da família é atingida. O telhado desaba e as janelas são destruídas.

19 de dezembro
Um segundo ataque atinge a residência e destrói a sala.

12 de janeiro
Borys Ivanov, marido de Nina, morre depois de anos acamado.

Março
Outros moradores do abrigo começam a morrer durante ataques.

O marido morreu e foi enterrado no quintal

Borys tinha 79 anos e estava acamado havia oito anos. Em 12 de janeiro, ele morreu.

Não havia condições para um funeral normal. Nina e as filhas enterraram o homem no quintal.

A perda aconteceu enquanto a cidade continuava sendo atacada e a situação dentro do abrigo piorava.

No dia 14 de março, um dos homens que vivia no mesmo porão morreu em um bombardeio. No dia seguinte, outro homem foi morto enquanto cavava a sepultura para a primeira vítima.

Depois dessas mortes, restaram apenas sete pessoas naquele esconderijo subterrâneo: Nina, suas filhas Olha, de 54 anos, e Tetyana, de 53, a amiga Tetyana Shmarko e uma família formada por três pessoas.

Entre elas estava um homem de 31 anos que já carregava dois fragmentos de estilhaços nas costas, consequência de um ataque anterior.

Durante meses, eles ouviram que precisavam fugir

Os ataques russos continuaram aumentando durante março, abril e maio.

Os alimentos diminuíam. Outros moradores começaram a abandonar Lyman caminhando. Até o prefeito insistia para que aqueles que ainda estavam nos porões tentassem sair.

Nina e as filhas permaneciam.

O medo da estrada parecia tão grande quanto o medo dos bombardeios. Sair significava abandonar o único abrigo que ainda tinham e entrar numa área onde drones podiam detectar pessoas caminhando.

Foi também nesse período que Nina viu uma cena que permaneceu na memória. Um corpo estava sendo devorado por cães dentro da cidade.

No dia 23 de maio, depois de meses vivendo naquele cenário, a família chegou ao limite. Nina concluiu que simplesmente não conseguia mais permanecer sentada no porão esperando pelo que aconteceria em seguida.

A primeira tentativa de fuga terminou com todos voltando para o porão

Nina, as duas filhas e Tetyana Shmarko fizeram uma primeira tentativa de sair a pé.

O plano era atravessar uma área de floresta. Quando chegaram ao local, descobriram que a rota estava praticamente bloqueada por crateras de explosões e árvores derrubadas.

Durante cerca de três horas, tentaram encontrar uma passagem.

O relógio corria contra elas. Pela experiência acumulada durante meses de guerra, sabiam que os bombardeios da manhã começariam em breve.

Sem conseguir avançar, tomaram uma decisão dolorosa: retornar para Lyman.

Chegaram novamente ao abrigo completamente exaustas e desanimadas. Telefonaram ao prefeito e disseram que haviam aceitado o próprio destino.

Ele insistiu para que não desistissem. A orientação foi descansar alguns dias, diminuir o peso das bolsas e tentar novamente.

Para conseguir caminhar, começaram a abandonar até roupas íntimas

As mochilas estavam pesadas demais na primeira tentativa.

Na preparação para uma nova fuga, começaram a retirar tudo aquilo que não fosse indispensável. Agasalhos extras ficaram para trás. Das dez peças de roupa íntima e pares de meias que haviam separado, reduziram para cinco.

A lógica era simples. Cada objeto poderia se transformar em peso demais depois de quilômetros caminhando sob tensão.

Na noite anterior à segunda tentativa, Nina praticamente não dormiu. Também não conseguiu comer. Passou grande parte das horas rezando e esperando o momento de sair.

Às 3h40 da madrugada, ela e as filhas finalmente deixaram o abrigo.

O horário foi escolhido porque naquele período costuma haver menos drones no céu.

Sete pessoas, duas bicicletas e dois gatos partiram antes do amanhecer

Além de Nina, Olha e Tetyana, seguiram viagem Tetyana Shmarko e os três integrantes da outra família que vivia no porão.

O grupo levava mochilas e dois gatos. Para transportar parte da bagagem e os animais, usaram duas bicicletas.

Todos estavam com tênis confortáveis. Não se preocuparam muito com várias camadas de roupas. A caminhada e a tensão seriam suficientes para mantê-los aquecidos.

Desta vez, seguiram por uma rota diferente indicada pelo prefeito. Era um caminho circular e mais longo, mas considerado possível.

Logo nos primeiros quilômetros, a dimensão da destruição apareceu diante deles.

Passaram por prédios arruinados e pela ferrovia, cujos trilhos haviam sido destruídos. Depois atravessaram uma floresta queimada.

Na estrada, encontraram carcaças de veículos militares e civis. Em alguns trechos havia crateras e pedaços de uniformes espalhados.

Parar significava permanecer exposto. Por isso, continuavam andando até quando queriam beber água.

Drones estavam no céu e os bombardeios costumavam começar depois das 7h

O grupo tentava avançar o mais rápido possível.

Não havia sensação de segurança nem mesmo sob trechos da estrada cobertos por redes antidrones. Os veículos destruídos espalhados logo abaixo dessas estruturas mostravam que a proteção tinha limites.

Os moradores conheciam pessoas de Lyman que haviam sido mortas tentando percorrer aquele mesmo caminho.

A situação era ainda mais difícil para a família que caminhava atrás das Ivanovas. O homem de 31 anos, ferido anteriormente por estilhaços, tinha dificuldade para acompanhar o ritmo.

Nina também começou a chegar ao limite físico.

Mais tarde, ela contou que em determinado momento já não conseguia caminhar em linha reta. Tropeçava, balançava e parecia estar embriagada de tanto cansaço.

Mesmo assim, continuou.

Depois de quatro horas e vinte minutos, apareceu o rio

Após 4 horas e 20 minutos de caminhada, o grupo finalmente conseguiu avistar o rio Siverskyi Donets.

Para Tetyana, uma das filhas de Nina, aquele lugar tinha uma memória completamente diferente. Quando criança, ela costumava pescar ali.

Ela correu na frente para procurar o ponto de travessia.

Então soldados ucranianos surgiram entre os arbustos próximos à margem. O prefeito havia avisado que as mulheres estavam tentando chegar até ali, e os militares já esperavam pelo grupo.

Deram água às mulheres e ordenaram que permanecessem escondidas na vegetação enquanto preparavam a travessia.

A única passagem era um pequeno barco puxado por cordas

As mochilas e os gatos foram colocados primeiro em uma pequena embarcação de madeira.

O barco não atravessava o rio com um motor convencional. Era puxado por cordas instaladas entre as margens, um sistema que já havia sido utilizado durante a guerra para movimentar soldados e suprimentos.

Depois chegou a vez das mulheres.

Elas atravessariam duas por vez, usando coletes à prova de balas.

Quando Nina viu o pequeno barco marcado por estilhaços, o medo quase venceu.

Mais tarde, contou às filhas que, se soubesse de antemão como seria aquela travessia, talvez nunca tivesse saído de Lyman. Naquele momento, pensou que teria preferido permanecer perto do marido enterrado no quintal.

Os soldados tentaram tranquilizá-la com brincadeiras enquanto a embarcação seguia pela água escura.

Do outro lado ainda havia lama, floresta e veículos militares

Chegar à margem oposta não significava o fim do esforço.

Nina e as demais mulheres precisaram subir uma encosta íngreme e enlameada.

Quando finalmente chegaram ao alto, estavam cobertas de barro.

Outros soldados as esperavam com veículos do tipo quadriciclo. As instruções foram curtas: segurar firme.

Os veículos aceleraram por dentro da floresta até alcançar uma estrada, onde carros militares aguardavam para levá-las até um ponto de evacuação em Sloviansk.

Por volta das 10 horas da manhã, a jornada iniciada antes das quatro chegava finalmente a um lugar seguro.

A travessia em números

15 km percorridos a pé.

4h20 até alcançar o rio.

77 anos tinha Nina durante a caminhada.

3h40 foi o horário escolhido para sair de Lyman.

Por volta das 10h o grupo chegou ao centro de evacuação.

O primeiro banho quente em meses

No centro de evacuação, as mulheres puderam tomar banho.

Foi a primeira vez em meses que sentiram água quente sobre a pele.

Tetyana ainda estava com os cabelos molhados quando conseguiu falar com uma tia pelo telefone.

Depois de meses vivendo em um porão praticamente sem sinal de celular, havia muita coisa para contar de uma só vez.

Ela explicou que a família havia caminhado cerca de 15 quilômetros para sair da cidade. Depois veio uma informação que os parentes ainda não sabiam: Borys havia morrido e sido enterrado no quintal.

Durante sete meses sonharam com pão e sorvete, mas quando receberam comida não conseguiram comer

Trabalhadores humanitários ofereceram almoço às mulheres.

Durante meses vivendo no abrigo, elas haviam imaginado como seria voltar a comer produtos simples comprados em uma loja. Pão fresco e sorvete estavam entre essas pequenas vontades.

Mas naquele dia, finalmente em segurança, o corpo não acompanhava a fome acumulada.

Elas praticamente não conseguiam comer.

O choque da fuga ainda dominava tudo.

Nina insistia que estava bem depois de caminhar tantos quilômetros. Os tornozelos inchados, apertados dentro de um par de sandálias doadas, mostravam outra realidade.

Mesmo assim, a dor nos pés parecia pequena diante do que havia ficado para trás.

Para Nina, não havia uma escolha segura, apenas duas formas diferentes de arriscar a vida

Aos 77 anos, Nina deixou para trás a cidade onde passou décadas, a casa destruída em dois ataques e o quintal onde havia enterrado o marido.

Ela não saiu porque acreditava que a estrada fosse segura. Saiu porque continuar no porão já parecia tão perigoso quanto tentar escapar.

Na avaliação dela, a chance era praticamente de 50% para cada lado. Poderia morrer permanecendo em Lyman ou ser atingida durante a caminhada.

Depois de 15 quilômetros, drones no céu, uma floresta destruída, estradas crateradas, uma travessia de barco e uma subida pela lama, Nina conseguiu chegar a Sloviansk com as duas filhas.

Quando finalmente tentou explicar o que significava ter conseguido sair, resumiu a experiência de uma maneira que dispensava qualquer descrição longa: elas haviam escapado do inferno.

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Murilo Tavares

Murilo Tavares dos Santos é redator especializado em curiosidades, cultura, comportamento, ciência e fatos pouco conhecidos. Produz conteúdos leves e informativos, com foco em histórias surpreendentes, explicações simples e temas capazes de despertar a curiosidade do leitor.