A cerveja dificilmente aparece numa conversa sobre alimentação saudável sem provocar discussão. A bebida contém álcool, cujo consumo está relacionado a diferentes problemas de saúde, mas também carrega compostos provenientes do malte e do lúpulo que já foram investigados por pesquisadores.
Alguns estudos encontraram associações curiosas envolvendo HDL, pedras nos rins e densidade mineral óssea. Isso, porém, está longe de significar que beber cerveja seja uma estratégia médica para proteger o coração, os rins ou os ossos.
A diferença entre essas duas ideias é fundamental. Uma pesquisa pode identificar uma associação estatística ou uma alteração em determinado marcador sem provar que o consumo da bebida melhora a saúde como um todo.
O resumo antes de abrir outra lata
Existem estudos que encontraram resultados favoráveis associados ao consumo moderado de cerveja. Mas o álcool é uma substância carcinogênica e pode causar dependência, doenças hepáticas, acidentes e outros problemas. Portanto, ninguém deve começar a beber buscando benefícios para a saúde.
O estudo que encontrou mudança no chamado “bom colesterol”
Uma das pesquisas frequentemente citadas quando se fala em cerveja e colesterol foi conduzida na Espanha por Javier Romeo, Marcela González-Gross, Julia Wärnberg, Ligia E. Díaz e Ascensión Marcos.
Os pesquisadores estavam ligados ao Grupo de Imunonutrição do Departamento de Metabolismo e Nutrição do Instituto del Frío, pertencente ao Consejo Superior de Investigaciones Científicas, o CSIC, em Madri.
O trabalho foi publicado na revista científica Nutrition, Metabolism and Cardiovascular Diseases e avaliou 57 adultos saudáveis.
Primeiro, os participantes permaneceram 30 dias sem consumir álcool. Em seguida, passaram por outro período de 30 dias com consumo moderado diário de cerveja.
Entre as mulheres, os pesquisadores observaram aumento significativo do HDL, lipoproteína popularmente conhecida como “bom colesterol”. Nos homens, o HDL havia diminuído durante o período de abstinência.
Os autores concluíram que o consumo moderado durante aquele período esteve associado a algumas alterações favoráveis no perfil lipídico.
Uma pesquisa com 27 mil finlandeses encontrou menos pedras nos rins entre consumidores de cerveja
Outro resultado bastante citado vem de uma pesquisa muito maior realizada na Finlândia.
O estudo foi liderado por Tero Hirvonen, ao lado de Pirjo Pietinen, Mikko Virtanen, Demetrius Albanes e Jarmo Virtamo. A equipe estava ligada ao Departamento de Nutrição do National Public Health Institute, em Helsinque, com participação do National Cancer Institute dos Estados Unidos.
O trabalho foi publicado em 1999 no American Journal of Epidemiology e utilizou dados de 27.001 homens finlandeses fumantes, com idades entre 50 e 69 anos, participantes do Alpha-Tocopherol, Beta-Carotene Lung Cancer Prevention Study.
Nenhum deles apresentava histórico de cálculo renal no início da análise. Ao longo de aproximadamente cinco anos, 329 homens desenvolveram pedras nos rins.
Depois de ajustar os resultados para outros fatores, os pesquisadores encontraram uma associação inversa entre cerveja e cálculos renais. Naquele grupo específico, cada garrafa consumida por dia foi associada estatisticamente a uma redução de aproximadamente 40% no risco.
O número chama atenção, mas precisa ser interpretado corretamente.
Associação não é a mesma coisa que causa
Os pesquisadores observaram o que acontecia com os participantes. Eles não distribuíram cerveja aleatoriamente para provar que a bebida prevenia pedras nos rins. Além disso, todos eram homens fumantes de meia-idade ou idosos, o que limita a aplicação do resultado para outras populações.
Uma possível explicação considerada em pesquisas sobre bebidas e cálculos renais envolve o maior volume de líquido e o aumento da produção de urina. Isso não significa que o álcool seja necessário para obter esse efeito, já que hidratação adequada pode ser alcançada sem bebida alcoólica.
A história dos ossos envolve um mineral presente na cerveja
Outro campo que gerou resultados curiosos foi o da saúde óssea.
Em 2009, uma equipe liderada por Katherine Tucker, do Jean Mayer USDA Human Nutrition Research Center on Aging da Tufts University, em Boston, publicou uma análise na revista The American Journal of Clinical Nutrition.
Também participaram cientistas de instituições como Harvard Medical School, Boston University e centros de pesquisa do Reino Unido. O trabalho utilizou dados do Framingham Offspring Study.
A análise incluiu 1.182 homens, 1.289 mulheres após a menopausa e 248 mulheres antes da menopausa. Os pesquisadores compararam o consumo de cerveja, vinho e destilados com medições de densidade mineral dos ossos do quadril e da coluna.
Homens que declararam consumir uma ou duas porções de cerveja por dia apresentaram densidade mineral óssea do quadril maior que os não consumidores.
O detalhe mais interessante apareceu quando os pesquisadores ajustaram os resultados para o consumo de silício.
A associação entre cerveja e maior densidade óssea deixou de ser estatisticamente significativa, levantando a hipótese de que parte do resultado poderia estar relacionada ao silício presente na bebida e não necessariamente ao álcool.
Por que o silício entrou nessa história?
Esse elemento participa de processos relacionados ao tecido conjuntivo e à formação óssea. A cerveja pode fornecer quantidades relativamente elevadas de silício biodisponível por causa dos cereais utilizados na fabricação.
A própria Katherine Tucker fez uma ressalva importante ao comentar os resultados. Como o estudo era observacional, não permitia determinar definitivamente qual componente das bebidas estaria produzindo os efeitos encontrados.
O mesmo estudo também mostrou o outro lado da relação. Homens que consumiam mais de duas doses diárias de destilados apresentaram densidade mineral menor em regiões do quadril e da coluna quando comparados aos consumidores de uma ou duas doses.
Lúpulo, polifenóis e outros componentes também são estudados
A cerveja não é composta apenas de álcool e água. Dependendo do processo de fabricação, ela pode conter polifenóis provenientes do malte e do lúpulo, além de pequenas quantidades de minerais e vitaminas.
Esses compostos vêm sendo estudados por seus efeitos antioxidantes e metabólicos. Há inclusive pesquisas com cerveja sem álcool, justamente para tentar separar possíveis efeitos dos componentes vegetais daqueles provocados pelo etanol.
Essa distinção é importante. Se determinado benefício estiver relacionado ao malte, ao lúpulo, ao silício ou aos polifenóis, não é necessário concluir que o álcool seja a parte benéfica da bebida.
Então a cerveja faz bem para o coração?
Essa conclusão seria exagerada.
Durante décadas, estudos observacionais encontraram menor incidência de alguns problemas cardiovasculares entre pessoas que consumiam pequenas quantidades de álcool. Também foram observadas alterações no HDL e em outros marcadores.
Mas pesquisas mais recentes têm chamado atenção para fatores que podem distorcer essas comparações. Pessoas classificadas como abstêmias em alguns estudos, por exemplo, podem incluir indivíduos que pararam de beber justamente por problemas de saúde.
Há também diferenças de alimentação, renda, atividade física, tabagismo e acesso aos cuidados médicos entre os grupos analisados.
Por isso, encontrar HDL mais alto em consumidores moderados não significa demonstrar que começar a beber cerveja reduzirá o risco cardiovascular.
O álcool continua carregando riscos mesmo em pequenas quantidades
A Organização Mundial da Saúde e a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer classificam o álcool como uma substância carcinogênica para seres humanos.
O consumo está relacionado a diferentes tipos de câncer, além de doenças do fígado, dependência, hipertensão, acidentes e outros problemas.
Em relação ao câncer, não foi estabelecido um nível de consumo completamente livre de risco.
A mensagem não é “beba cerveja para ter saúde”
Os estudos ajudam a entender como diferentes componentes da bebida interagem com o organismo. Eles não transformam a cerveja em suplemento alimentar nem justificam começar a consumir álcool.
E quem já bebe?
Os resultados científicos ajudam principalmente a mostrar que o efeito de uma bebida alcoólica é mais complexo do que simplesmente classificá-la como boa ou ruim com base em um único marcador.
Uma pessoa pode apresentar aumento do HDL e, ao mesmo tempo, estar aumentando outro tipo de risco associado ao álcool.
Da mesma forma, um estudo pode encontrar associação entre cerveja e maior densidade óssea sem provar que o consumo previna fraturas.
Ou ainda encontrar menos cálculos renais em consumidores sem demonstrar que a cerveja seja o melhor método para prevenir o problema.
É justamente por isso que as pesquisas precisam ser vistas em conjunto.
A ciência encontrou sinais interessantes, mas não uma desculpa para beber
Os estudos espanhóis sobre HDL, a grande pesquisa finlandesa sobre cálculos renais e o trabalho da Tufts University sobre densidade óssea mostram que existem associações interessantes entre cerveja e determinados indicadores de saúde.
Mas nenhum deles prova que uma pessoa deva começar a consumir cerveja para aumentar o HDL, proteger os ossos ou evitar pedras nos rins.
Para quem não bebe, não existe motivo de saúde para começar. E para quem consome álcool, reduzir quantidade e frequência diminui a exposição aos riscos conhecidos.
Na prática, a parte mais interessante dessas pesquisas talvez não esteja no álcool, mas justamente nos outros elementos presentes na cerveja, como silício e compostos do malte e do lúpulo, que podem continuar sendo estudados sem transformar uma bebida alcoólica em remédio.




