A CVC, uma das maiores empresas de turismo do Brasil, perdeu cerca de 90% de seu valor de mercado em sete anos. Avaliada em aproximadamente R$ 10 bilhões em 2019, a companhia vale hoje menos de R$ 1 bilhão.
A queda também aparece de forma ainda mais forte nas ações. Os papéis da empresa, que chegaram a ser negociados perto de R$ 60, passaram a girar em torno de R$ 1,40, uma desvalorização superior a 97%.
A crise não tem uma única causa. A CVC enfrenta uma combinação de mudanças no comportamento dos consumidores, problemas contábeis revelados a partir de 2020, endividamento elevado, juros altos e custos maiores no setor aéreo.
Mudança para compras online atingiu modelo tradicional da CVC
Uma das transformações mais importantes ocorreu no comportamento do consumidor. A compra de passagens, hospedagens e pacotes turísticos migrou rapidamente para aplicativos e plataformas digitais, reduzindo a dependência das lojas físicas.
Esse movimento afetou diretamente o modelo tradicional da CVC, que durante décadas teve forte presença em shopping centers e pontos comerciais.
A professora de Turismo Urbano da USP Mariana Aldrigui, porém, avalia que seria simplista atribuir a perda de competitividade apenas à existência das lojas físicas.
Segundo ela, o desafio passa também pela forma como os produtos são apresentados e pela capacidade de dialogar com uma geração que consome cada vez mais pelo celular e pelas mídias digitais.
Problemas contábeis agravaram crise a partir de 2020
A companhia também carrega problemas que começaram a ganhar maior dimensão em 2020, quando foram reveladas distorções contábeis de aproximadamente R$ 362,4 milhões.
Depois disso, a CVC precisou enfrentar os efeitos da pandemia sobre o turismo e recorreu a empréstimos para manter parte das operações.
Com a elevação da taxa de juros no Brasil, esse endividamento passou a pesar ainda mais nos resultados financeiros.
Empresa tenta reagir com modelo que mistura digital e loja física
Nos últimos anos, a CVC passou a adotar uma estratégia chamada de figital, combinando os canais digitais com o atendimento presencial.
Nesse modelo, o consumidor pode ser atraído pela internet e depois direcionado para uma loja física, onde conclui a compra com o auxílio de um agente de viagens.
Segundo a empresa, atualmente entre 50% e 60% do movimento das lojas já tem origem em canais digitais.
A estratégia procura aproveitar a força da marca no atendimento presencial sem ignorar a mudança de comportamento de quem prefere iniciar a pesquisa e a compra pela internet.
Franquias menores ganham espaço
A mudança também alterou o perfil das unidades abertas pela companhia.
Em vez de concentrar a expansão apenas em lojas maiores dentro de shopping centers, a CVC passou a estimular formatos menores e franquias em cidades do interior.
Em 2025, a empresa abriu 160 unidades no Brasil, sendo mais da metade delas fora das capitais.
O movimento mostra que, apesar da crise financeira e da forte perda de valor na Bolsa, a empresa continua apostando na expansão de sua rede, mas com um modelo diferente daquele utilizado no passado.
Prejuízo cresce 56% no segundo trimestre
Os resultados divulgados em 12 de agosto mostram que a recuperação ainda enfrenta obstáculos.
No segundo trimestre de 2026, a receita líquida da companhia foi de R$ 332,7 milhões, uma queda de 4,5% em relação ao mesmo período de 2025.
Já o prejuízo líquido chegou a R$ 72,5 milhões, aumento de 56,2% na comparação anual.
CVC gerou caixa, mas ainda não conseguiu voltar ao lucro
Apesar do prejuízo, a companhia apresentou um sinal positivo na operação.
No trimestre, a CVC gerou R$ 35,5 milhões em caixa com suas atividades operacionais.
O economista Victor Kietzmann, que acompanha a companhia pela Smallcaps, avalia que houve melhora operacional, mas ela ainda não foi suficiente para compensar problemas acumulados e fatores externos.
Entre eles está justamente o alto custo da dívida em um ambiente de juros elevados.
Dívida de R$ 400 milhões também pesa nos resultados
A companhia possui cerca de R$ 400 milhões em dívidas na forma de debêntures, títulos cuja remuneração está vinculada ao CDI mais uma taxa adicional.
Desse total, aproximadamente R$ 80 milhões já foram pagos.
O problema é que, com os juros elevados, o custo financeiro dessas obrigações aumenta e reduz o espaço para que uma melhora operacional se transforme efetivamente em lucro.
Movimentação da Apex também pressiona ações
Outro fator recente citado por analistas é a movimentação da Apex Partners, gestora de fundos que está sob apuração por suspeitas de fraude.
A gestora adquiriu aproximadamente 15% das ações da CVC em abril, mas reduziu posteriormente sua participação para cerca de 7,97%.
Na avaliação de Victor Kietzmann, parte da queda recente das ações pode estar relacionada à pressão de venda desses papéis no mercado.
Segundo ele, porém, esse efeito específico tende a ser passageiro e não explica sozinho a perda estrutural de valor acumulada pela companhia ao longo dos últimos anos.
Juros altos dificultam recuperação
Especialistas reconhecem esforços da atual administração para reorganizar a empresa, mas destacam que a recuperação depende também do cenário econômico.
Os juros elevados aumentam o custo das dívidas da própria CVC e, ao mesmo tempo, reduzem o espaço financeiro das famílias para consumir viagens parceladas ou contratar crédito.
O aumento do custo do transporte aéreo também pressiona os preços dos pacotes, afetando a demanda e as margens do setor.
Empresa tenta se adaptar enquanto mercado muda
A situação atual da CVC reúne dois movimentos ao mesmo tempo.
De um lado, a companhia perdeu quase todo o valor de mercado que possuía em 2019 e ainda registra prejuízos, dívida elevada e pressão financeira.
De outro, tenta transformar o modelo de negócio, ampliar a integração entre internet e lojas físicas e apostar em franquias menores para recuperar competitividade.
A CVC foi procurada pela reportagem original para comentar o cenário, mas não apresentou resposta.
O desafio agora é transformar a melhora operacional e a adaptação ao ambiente digital em resultados capazes de reduzir as perdas e recuperar a confiança do mercado depois de uma desvalorização superior a 90% em apenas sete anos.
