CVC perde 90% do valor de mercado em sete anos, ações desabam mais de 97% e gigante do turismo enfrenta crise profunda

Imagem: Reprodução/CVC

A CVC, uma das maiores empresas de turismo do Brasil, perdeu cerca de 90% de seu valor de mercado em sete anos. Avaliada em aproximadamente R$ 10 bilhões em 2019, a companhia vale hoje menos de R$ 1 bilhão.

A queda também aparece de forma ainda mais forte nas ações. Os papéis da empresa, que chegaram a ser negociados perto de R$ 60, passaram a girar em torno de R$ 1,40, uma desvalorização superior a 97%.

A crise não tem uma única causa. A CVC enfrenta uma combinação de mudanças no comportamento dos consumidores, problemas contábeis revelados a partir de 2020, endividamento elevado, juros altos e custos maiores no setor aéreo.

R$ 10 bi valor de mercado aproximado em 2019
< R$ 1 bi valor de mercado em 2026
-97% desvalorização aproximada das ações

Mudança para compras online atingiu modelo tradicional da CVC

Uma das transformações mais importantes ocorreu no comportamento do consumidor. A compra de passagens, hospedagens e pacotes turísticos migrou rapidamente para aplicativos e plataformas digitais, reduzindo a dependência das lojas físicas.

Esse movimento afetou diretamente o modelo tradicional da CVC, que durante décadas teve forte presença em shopping centers e pontos comerciais.

A professora de Turismo Urbano da USP Mariana Aldrigui, porém, avalia que seria simplista atribuir a perda de competitividade apenas à existência das lojas físicas.

Segundo ela, o desafio passa também pela forma como os produtos são apresentados e pela capacidade de dialogar com uma geração que consome cada vez mais pelo celular e pelas mídias digitais.

Problemas contábeis agravaram crise a partir de 2020

A companhia também carrega problemas que começaram a ganhar maior dimensão em 2020, quando foram reveladas distorções contábeis de aproximadamente R$ 362,4 milhões.

Depois disso, a CVC precisou enfrentar os efeitos da pandemia sobre o turismo e recorreu a empréstimos para manter parte das operações.

Com a elevação da taxa de juros no Brasil, esse endividamento passou a pesar ainda mais nos resultados financeiros.

Empresa tenta reagir com modelo que mistura digital e loja física

Nos últimos anos, a CVC passou a adotar uma estratégia chamada de figital, combinando os canais digitais com o atendimento presencial.

Nesse modelo, o consumidor pode ser atraído pela internet e depois direcionado para uma loja física, onde conclui a compra com o auxílio de um agente de viagens.

Segundo a empresa, atualmente entre 50% e 60% do movimento das lojas já tem origem em canais digitais.

A estratégia procura aproveitar a força da marca no atendimento presencial sem ignorar a mudança de comportamento de quem prefere iniciar a pesquisa e a compra pela internet.

Franquias menores ganham espaço

A mudança também alterou o perfil das unidades abertas pela companhia.

Em vez de concentrar a expansão apenas em lojas maiores dentro de shopping centers, a CVC passou a estimular formatos menores e franquias em cidades do interior.

Em 2025, a empresa abriu 160 unidades no Brasil, sendo mais da metade delas fora das capitais.

O movimento mostra que, apesar da crise financeira e da forte perda de valor na Bolsa, a empresa continua apostando na expansão de sua rede, mas com um modelo diferente daquele utilizado no passado.

Prejuízo cresce 56% no segundo trimestre

Os resultados divulgados em 12 de agosto mostram que a recuperação ainda enfrenta obstáculos.

No segundo trimestre de 2026, a receita líquida da companhia foi de R$ 332,7 milhões, uma queda de 4,5% em relação ao mesmo período de 2025.

Já o prejuízo líquido chegou a R$ 72,5 milhões, aumento de 56,2% na comparação anual.

Indicador no 2º trimestre de 2026Resultado
Receita líquidaR$ 332,7 milhões
Variação da receita-4,5%
Prejuízo líquidoR$ 72,5 milhões
Aumento do prejuízo56,2%

CVC gerou caixa, mas ainda não conseguiu voltar ao lucro

Apesar do prejuízo, a companhia apresentou um sinal positivo na operação.

No trimestre, a CVC gerou R$ 35,5 milhões em caixa com suas atividades operacionais.

O economista Victor Kietzmann, que acompanha a companhia pela Smallcaps, avalia que houve melhora operacional, mas ela ainda não foi suficiente para compensar problemas acumulados e fatores externos.

Entre eles está justamente o alto custo da dívida em um ambiente de juros elevados.

Dívida de R$ 400 milhões também pesa nos resultados

A companhia possui cerca de R$ 400 milhões em dívidas na forma de debêntures, títulos cuja remuneração está vinculada ao CDI mais uma taxa adicional.

Desse total, aproximadamente R$ 80 milhões já foram pagos.

O problema é que, com os juros elevados, o custo financeiro dessas obrigações aumenta e reduz o espaço para que uma melhora operacional se transforme efetivamente em lucro.

R$ 400 mi dívidas em debêntures
R$ 80 mi já quitados

Movimentação da Apex também pressiona ações

Outro fator recente citado por analistas é a movimentação da Apex Partners, gestora de fundos que está sob apuração por suspeitas de fraude.

A gestora adquiriu aproximadamente 15% das ações da CVC em abril, mas reduziu posteriormente sua participação para cerca de 7,97%.

Na avaliação de Victor Kietzmann, parte da queda recente das ações pode estar relacionada à pressão de venda desses papéis no mercado.

Segundo ele, porém, esse efeito específico tende a ser passageiro e não explica sozinho a perda estrutural de valor acumulada pela companhia ao longo dos últimos anos.

Juros altos dificultam recuperação

Especialistas reconhecem esforços da atual administração para reorganizar a empresa, mas destacam que a recuperação depende também do cenário econômico.

Os juros elevados aumentam o custo das dívidas da própria CVC e, ao mesmo tempo, reduzem o espaço financeiro das famílias para consumir viagens parceladas ou contratar crédito.

O aumento do custo do transporte aéreo também pressiona os preços dos pacotes, afetando a demanda e as margens do setor.

Empresa tenta se adaptar enquanto mercado muda

A situação atual da CVC reúne dois movimentos ao mesmo tempo.

De um lado, a companhia perdeu quase todo o valor de mercado que possuía em 2019 e ainda registra prejuízos, dívida elevada e pressão financeira.

De outro, tenta transformar o modelo de negócio, ampliar a integração entre internet e lojas físicas e apostar em franquias menores para recuperar competitividade.

A CVC foi procurada pela reportagem original para comentar o cenário, mas não apresentou resposta.

O desafio agora é transformar a melhora operacional e a adaptação ao ambiente digital em resultados capazes de reduzir as perdas e recuperar a confiança do mercado depois de uma desvalorização superior a 90% em apenas sete anos.

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João Pedro Rafannelli

João Pedro Rafannelli acompanha os principais acontecimentos do Brasil, com foco em notícias, decisões, fatos relevantes e temas que impactam diretamente o dia a dia da população.