Você costuma dar frutas ao seu cachorro? 3 delas podem causar intoxicação e problemas graves nos rins

Um pedaço de fruta cai no chão e o cachorro corre para pegar. Em outra situação, ele fica olhando enquanto alguém come e acaba ganhando um pedacinho.

Parece algo completamente inofensivo.

Afinal, estamos falando de frutas, alimentos que normalmente associamos a uma alimentação saudável.

O problema é que o organismo dos cães não reage a todos os alimentos da mesma maneira que o nosso.

Existem frutas que podem provocar desde vômitos e diarreia até alterações neurológicas e lesões importantes nos rins. E algumas delas não possuem aparência alguma de alimento perigoso.

Três merecem atenção especial: uva, incluindo a uva-passa, tamarindo e determinadas variedades de carambola.

Entre elas, a uva provavelmente é a que mais surpreende, porque até hoje não existe uma quantidade única que possa ser considerada segura para todos os cães.

O fato de ser natural não significa que seja seguro para cães

Algumas frutas contêm substâncias que o organismo canino metaboliza de maneira diferente. Dependendo do alimento, quantidade e características do animal, a ingestão pode resultar em uma intoxicação séria.

Cacho de uvas vermelhas
Uvas parecem um alimento inocente, mas estão entre as frutas que mais preocupam quando são ingeridas por cães. Foto: Bruno Scramgnon/Pexels.

1. Uva e uva-passa podem provocar uma intoxicação muito mais séria do que parecem

Talvez esse seja o exemplo mais importante da lista.

Uvas frescas e uvas-passas estão associadas a casos de lesão renal aguda em cães.

O problema ficou conhecido na medicina veterinária depois que animais aparentemente saudáveis começaram a apresentar vômitos e alterações renais após ingerir esses alimentos.

Durante muito tempo, não se sabia exatamente qual componente era responsável pela intoxicação.

Hoje, uma das principais explicações envolve o ácido tartárico, substância encontrada naturalmente nas uvas e cuja concentração pode variar bastante entre frutos e produtos derivados.

Essa variação ajuda a explicar uma das características mais perigosas da intoxicação.

Dois cães podem comer quantidades aparentemente semelhantes e apresentar respostas completamente diferentes.

Um pode desenvolver poucos sintomas.

Outro pode evoluir para uma lesão renal grave.

É justamente por isso que não existe um número simples de uvas que o tutor possa considerar seguro

O Manual Veterinário Merck destaca que o teor de ácido tartárico pode variar entre uvas, passas e outros produtos.

Por isso, a gravidade não pode ser prevista apenas olhando para o tamanho ou para a quantidade que caiu no chão.

De forma geral, ingestões relativamente pequenas já podem representar risco dependendo do peso do animal e da concentração presente no alimento.

Isso significa que a estratégia mais segura é simples:

não oferecer uvas nem passas ao cachorro.

Uva fresca

Pode estar associada a intoxicação e lesão renal em cães.

Uva-passa

Por ser desidratada, concentra componentes da fruta e também está associada a casos graves.

Quantidade

A reação pode variar, portanto não é seguro esperar sintomas para decidir se houve problema.

Os primeiros sinais podem aparecer algumas horas depois

A intoxicação por uva ou passa nem sempre começa com sintomas que parecem relacionados aos rins.

Nas primeiras horas, o tutor pode perceber principalmente alterações gastrointestinais.

Entre os sinais descritos estão:

vômito;

diarreia;

perda de apetite;

apatia;

dor abdominal;

fraqueza;

alterações na ingestão de água e produção de urina.

Nos casos mais graves, a função dos rins pode começar a deteriorar nas horas ou dias seguintes.

O animal pode produzir pouca urina ou até deixar de urinar.

Quando ocorre insuficiência renal anúrica, na qual praticamente não há produção de urina, o quadro se torna extremamente grave.

Uvas vermelhas e escuras vistas de perto
A concentração das substâncias presentes nas uvas pode variar, o que dificulta prever a resposta do animal apenas pela quantidade ingerida. Foto: Suzy Hazelwood/Pexels.

2. Tamarindo também entrou na lista de alimentos ligados a lesões renais

O segundo alimento provavelmente surpreende ainda mais.

O tamarindo também possui ácido tartárico.

Casos veterinários relacionaram sua ingestão por cães a alterações compatíveis com a mesma categoria de intoxicação observada com uvas e passas.

O Manual Veterinário Merck hoje reúne uva, passa e tamarindo dentro do mesmo tópico sobre toxicose associada a ácido tartárico.

Isso é especialmente importante porque tamarindo pode aparecer de várias formas.

Não existe apenas a fruta inteira.

Ela pode estar presente em:

Polpa
Molhos
Doces
Bebidas e preparações

Em um alimento industrializado, ainda existe outro problema.

A receita pode conter açúcar, adoçantes ou outros ingredientes que também não deveriam ser oferecidos ao animal.

Não é apenas a fruta caída da árvore que merece atenção

Polpas, doces e produtos preparados com tamarindo também podem acabar ao alcance do cachorro. Antes de oferecer qualquer alimento humano, vale verificar todos os ingredientes.

Frutos de tamarindo em uma tigela
O tamarindo também contém ácido tartárico e já foi associado a intoxicação renal em cães. Foto: Aditya Bhatia/Pexels.

Por que o ácido tartárico preocupa tanto no organismo dos cães?

Pesquisas recentes ajudaram a esclarecer uma questão que durante anos deixou veterinários intrigados.

O ácido tartárico é um ácido orgânico e os cães parecem possuir uma capacidade diferente de lidar com alguns desses compostos.

A hipótese atual é que o ácido tartárico pode se acumular em células dos túbulos proximais dos rins.

Essas estruturas fazem parte do sistema responsável por filtrar o sangue e ajustar aquilo que será eliminado ou reaproveitado pelo organismo.

Quando ocorre lesão significativa, a capacidade renal de manter o equilíbrio do corpo pode cair rapidamente.

É por isso que uma intoxicação aparentemente iniciada com vômito pode evoluir para um problema muito mais sério.

3. Carambola também exige cuidado, principalmente quando possui grande quantidade de oxalatos

A terceira fruta da lista possui um mecanismo diferente.

A carambola, especialmente variedades mais azedas, pode apresentar quantidades relevantes de oxalato solúvel e ácido oxálico.

Quando quantidades tóxicas de oxalatos solúveis são ingeridas por animais, podem ocorrer alterações gastrointestinais, redução do cálcio no sangue e lesão renal.

Esses compostos podem contribuir para a formação de cristais de oxalato de cálcio.

Os sinais descritos em intoxicações por oxalatos podem incluir:

vômito;

salivação;

fraqueza;

tremores;

alterações no cálcio sanguíneo;

alterações renais e urinárias nos casos importantes.

Aqui existe uma nuance importante.

Nem toda carambola possui exatamente a mesma concentração de oxalatos.

Fontes veterinárias destacam preocupação especial com carambolas azedas, que podem concentrar quantidades maiores dessas substâncias.

Por isso, transformar a discussão em uma suposta “quantidade segura” para oferecer em casa é desnecessário.

Existem outras frutas que podem ser utilizadas como petisco com muito menos incerteza.

Carambolas maduras em uma tigela
A concentração de oxalatos pode variar entre carambolas, com atenção especial às variedades mais azedas. Foto: Any Lane/Pexels.

As três frutas não provocam exatamente a mesma intoxicação

É importante não colocar tudo no mesmo mecanismo.

Uva, passa e tamarindo chamam atenção principalmente pela associação com ácido tartárico e lesão dos túbulos renais.

A carambola envolve principalmente o problema dos oxalatos solúveis.

FrutaPrincipal preocupaçãoPossível consequência
Uva e uva-passaÁcido tartárico.Distúrbios gastrointestinais e lesão renal aguda.
TamarindoTambém contém ácido tartárico.Pode estar associado a lesão renal em cães.
Carambola azedaOxalatos solúveis.Alterações gastrointestinais, metabólicas e renais.

“Meu cachorro comeu e não aconteceu nada” não significa que seja seguro

Esse é um dos argumentos mais comuns quando se fala sobre alimentos tóxicos para animais.

Alguém conta que seu cachorro já comeu uma uva.

Outra pessoa diz que o animal pegou algumas passas e continuou perfeitamente bem.

Isso pode realmente acontecer.

O problema é usar uma experiência anterior sem sintomas como garantia para a próxima exposição.

No caso das uvas, por exemplo, a concentração do componente tóxico pode variar.

O peso do animal, a quantidade ingerida e características individuais também interferem.

Portanto, sobreviver sem consequências aparentes a uma exposição anterior não transforma aquele alimento em seguro.

Não espere aparecer um problema nos rins para agir

Quando existe suspeita de ingestão de uvas, passas ou outro alimento potencialmente tóxico, a orientação veterinária precoce é mais útil do que aguardar o cachorro apresentar sintomas.

O cachorro comeu uva ou outra dessas frutas. O que fazer?

O primeiro passo é impedir que ele continue comendo.

Depois, tente identificar:

qual alimento foi ingerido;

aproximadamente quanto ele comeu;

há quanto tempo aconteceu;

qual é aproximadamente o peso do cachorro;

se já existe algum sintoma.

Essas informações podem ajudar o veterinário a decidir qual conduta é necessária.

Não tente provocar vômito usando sal, óleo, leite ou receitas caseiras.

Induzir vômito não é seguro em todas as situações e a técnica adequada depende do alimento, do tempo transcorrido e do estado do animal.

Essa decisão deve ser orientada por um profissional.

O fato de o cachorro parecer normal nas primeiras horas pode enganar

Quando pensamos em intoxicação, imaginamos um animal passando mal imediatamente.

Nem sempre acontece dessa maneira.

Alguns sinais podem começar com alterações digestivas aparentemente simples e as alterações renais aparecerem posteriormente.

Por isso, esperar o cachorro parar de urinar para procurar ajuda seria chegar muito tarde a um problema que poderia ter sido abordado antes.

No caso de uvas e passas, alterações renais importantes podem surgir dentro de aproximadamente um a três dias após a exposição.

Isso torna o histórico contado pelo tutor extremamente importante.

Se o veterinário souber que houve ingestão de um alimento de risco, poderá avaliar o animal de forma completamente diferente.

Produtos com uva-passa podem passar despercebidos

Nem sempre o cachorro encontra um potinho cheio de passas.

O alimento pode estar escondido dentro de outras preparações.

É comum encontrar uva-passa em:

Panetones
Bolos
Pães
Barras de cereais
Mix de frutas secas
Sobremesas

E ainda existe a possibilidade de esses alimentos conterem chocolate, macadâmia ou adoçantes como xilitol, criando mais de um risco ao mesmo tempo.

Nem toda fruta precisa ser eliminada da vida do cachorro

A mensagem não é que cães não possam comer fruta alguma.

Existem frutas normalmente utilizadas em pequenas quantidades como petiscos, desde que preparadas corretamente e adequadas à saúde e à alimentação daquele animal.

Mas existe uma diferença importante entre perguntar “meu cachorro pode comer um pequeno pedaço de determinada fruta?” e simplesmente dividir aquilo que está no prato.

Algumas frutas possuem sementes, caroços ou partes que também podem apresentar outros riscos.

E cães com condições específicas, dietas veterinárias ou necessidades nutricionais próprias podem não ser bons candidatos nem mesmo para alguns alimentos considerados geralmente seguros.

Quando a intenção é oferecer petiscos naturais regularmente, vale discutir isso com o veterinário responsável pela alimentação do animal.

O perigo pode estar justamente na fruta que ninguém imaginaria esconder

Chocolate normalmente é guardado porque muita gente já sabe que pode ser perigoso para cães.

Produtos de limpeza são colocados longe do alcance.

Medicamentos ficam em armários.

Mas um cacho de uvas pode ficar tranquilamente sobre a mesa.

Uma tigela com frutas pode estar exatamente na altura de um cachorro grande.

Uma criança pode oferecer uma uva como se estivesse dividindo qualquer outro alimento.

E passas podem cair no chão durante o preparo de uma receita sem que ninguém perceba.

É justamente essa aparência de alimento saudável e inofensivo que torna a prevenção tão importante.

Se existe uma fruta desta lista que merece ser memorizada, é a uva

Uvas e passas estão associadas a casos de lesão renal aguda em cães e não existe vantagem alguma em oferecê-las como petisco. Tamarindo também merece cautela pela presença de ácido tartárico, enquanto carambolas com maior quantidade de oxalatos representam outro tipo de risco. Quando houver ingestão acidental, informar rapidamente o veterinário é mais seguro do que esperar para ver se o cachorro apresentará sintomas.

Fontes consultadas

Merck Veterinary Manual. Grape, Raisin, and Tamarind (Vitis spp, Tamarindus spp) Toxicosis in Dogs. Revisão veterinária sobre intoxicação associada a uvas, passas, tamarindo, ácido tartárico e lesão renal em cães.

Wegenast CA, Meadows ID, Anderson RE, et al. Acute kidney injury in dogs following ingestion of cream of tartar and tamarinds and the connection to tartaric acid as the proposed toxic principle in grapes and raisins. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care. 2022;32(6):812-816.

Coyne SR, Landry GM. Estudo experimental sobre a toxicidade do ácido tartárico em células renais caninas. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care. 2023.

Pet Poison Helpline. Star Fruit Toxicity to Pets. Referência veterinária sobre oxalatos solúveis presentes em carambolas e possíveis efeitos gastrointestinais, metabólicos e renais.

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Ana Clara de Oliveira

Ana Clara de Oliveira produz conteúdos sobre animais, cuidados, comportamento, curiosidades e convivência com pets, sempre com foco em informação simples e útil para o dia a dia.