Dia Mundial do Cachorro: o que estudos descobriram sobre os efeitos da convivência com cães em bebês e adultos

Celebrado em 26 de agosto, o Dia Mundial do Cachorro é uma oportunidade para lembrar de tudo aquilo que transformou os cães em companheiros tão presentes dentro das famílias. Mas, nos últimos anos, a data também passou a ganhar um significado interessante do ponto de vista científico.

Pesquisadores vêm tentando descobrir se a convivência entre seres humanos e cães pode produzir efeitos que vão além do afeto, da companhia e das brincadeiras.

Os resultados encontrados até agora passam por áreas bastante diferentes. Há estudos acompanhando bebês durante o primeiro ano de vida, análises da microbiota encontrada na poeira das casas, pesquisas sobre infecções respiratórias e trabalhos que medem cortisol, oxitocina e respostas cardiovasculares em adultos durante a interação com cães.

As evidências não permitem dizer que ter um cachorro funciona como tratamento ou garante uma saúde melhor. Mesmo assim, alguns resultados ajudam a explicar por que a relação entre humanos e cães desperta cada vez mais interesse científico.

Dia Mundial do Cachorro em 26 de agosto

A data celebra a convivência com os cães, mas também é uma oportunidade para falar sobre saúde, responsabilidade, bem-estar animal e sobre aquilo que a ciência já conseguiu observar nessa relação construída ao longo de milhares de anos.

Família reunida em casa com criança e cachorro
A convivência com cães faz parte da rotina de muitas famílias e vem sendo estudada desde os primeiros meses de vida das crianças. Foto: PNW Production/Pexels.

O que a ciência começou a observar nos bebês

Uma das linhas de pesquisa mais curiosas relacionadas à convivência com cães acompanha crianças ainda durante o primeiro ano de vida.

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Pediatric Allergy and Immunology analisou 368 crianças finlandesas acompanhadas desde a gestação.

As famílias registraram semanalmente informações entre a nona e a 52ª semana de vida dos bebês, incluindo episódios de febre, otite, uso de antibióticos, períodos sem sintomas e presença de cães na residência.

Mas os pesquisadores fizeram algo além de simplesmente perguntar se havia um cachorro dentro de casa.

Quando as crianças tinham aproximadamente dois meses, amostras da poeira do piso das residências foram coletadas para descobrir quais bactérias e fungos apareciam com maior frequência nos ambientes onde havia cães.

A intenção era investigar um possível elo entre três pontos:

Cães em casa

Mudanças no ambiente doméstico.

Microbiota

Bactérias e fungos presentes na poeira.

Saúde infantil

Febre, otite, infecções e antibióticos.

A casa com cachorro realmente tem uma microbiota diferente?

Os pesquisadores já haviam identificado anteriormente uma espécie de assinatura microbiana relacionada à presença dos animais.

No novo trabalho, foram avaliados 12 gêneros de bactérias e dois gêneros de fungos que apareciam associados às casas com cães.

O resultado trouxe uma descoberta importante: não era simplesmente ter mais microrganismos dentro da residência que parecia fazer diferença.

A diversidade bacteriana total, a quantidade geral de células bacterianas e a proporção de bactérias provenientes de seres humanos não conseguiram explicar significativamente os resultados encontrados.

Alguns grupos específicos, porém, conseguiram explicar estatisticamente parte da associação entre ter cachorro em casa e determinados indicadores de saúde da criança.

Não significa que “mais sujeira faz bem”

A pesquisa aponta para microrganismos específicos associados aos cães. Ela não demonstra que deixar a casa suja ou expor deliberadamente uma criança a bactérias seja benéfico.

Criança pequena fazendo carinho em cachorro dentro de casa
Os primeiros meses e anos de vida são um dos períodos analisados pelos pesquisadores interessados na relação entre animais, ambiente e desenvolvimento infantil. Foto: Kaboompics.com/Pexels.

E de onde surgiu o número de 25%?

Esse é um ponto que merece atenção porque pode ser facilmente interpretado de maneira errada.

O estudo não mostrou que ter um cachorro reduz em 25% a necessidade de antibióticos.

O resultado correto é mais específico.

Três gêneros bacterianos relacionados às casas com cães, quando analisados em conjunto, conseguiram explicar aproximadamente 25% da associação observada entre a presença do cão e o menor uso de antibióticos.

Outros microrganismos explicaram individualmente entre 10% e 23% da associação com pelo menos um dos indicadores analisados.

O gênero Pasteurella, por exemplo, chamou atenção na relação estatística envolvendo as semanas com febre.

O estudo de 2026 em números

368 crianças estudadas
12 gêneros bacterianos
2 gêneros de fungos
10% a 23% da associação explicada individualmente por alguns gêneros
25% da associação com antibióticos explicada por três gêneros juntos

Um estudo mais antigo já havia encontrado menos otites e antibióticos

A investigação de 2026 não surgiu do nada.

Em 2012, pesquisadores acompanharam 397 crianças da Finlândia desde a gestação até o primeiro aniversário.

As famílias também preencheram diários semanais sobre sintomas respiratórios e contato com cães e gatos.

Na análise ajustada, crianças com cães em casa apresentaram maior probabilidade de permanecer sem sintomas ou infecções respiratórias durante o acompanhamento.

Também apresentaram menor frequência de otite e menor necessidade de cursos de antibióticos do que aquelas sem contato doméstico com cães.

O que foi analisadoO que apareceu no estudo de 2012
Sintomas e infecções respiratóriasAs crianças com cães passaram mais semanas consideradas saudáveis.
OtiteFoi observada menor frequência entre crianças com contato com cães.
AntibióticosHouve menor necessidade de cursos de antibióticos.

Como se trata de uma coorte observacional, entretanto, o estudo não consegue demonstrar sozinho que o cão tenha sido a causa direta dessas diferenças.

É justamente por isso que trabalhos mais recentes passaram a investigar possíveis mecanismos por trás da associação.

Criança estudando em casa acompanhada por cachorro
A convivência cotidiana é diferente de uma exposição pontual e envolve ambiente doméstico, rotina, contato físico e diversas outras variáveis. Foto: Katya Wolf/Pexels.

Então o cachorro “treina” a imunidade do bebê?

Essa é uma hipótese interessante, mas a resposta científica ainda exige cautela.

O sistema imunológico passa por intensa maturação nos primeiros meses e anos de vida. Durante esse período, o organismo entra em contato com uma enorme variedade de estímulos ambientais.

A presença de animais pode alterar tanto a microbiota encontrada dentro da residência quanto os microrganismos aos quais os moradores ficam expostos.

Estudos também encontraram diferenças no microbioma intestinal de bebês expostos a animais domésticos.

Uma possibilidade discutida pelos pesquisadores é que determinadas exposições microbianas participem da maturação das defesas imunológicas e favoreçam respostas mais equilibradas.

Mas ainda não é possível transformar essa hipótese em uma recomendação do tipo “tenha um cachorro para aumentar a imunidade da criança”.

O que os estudos sugerem

A presença de cães pode modificar o ambiente microbiano e está associada a alguns indicadores de saúde no primeiro ano.

O que não está provado

Que adotar um cachorro evitará doenças, substituirá vacinas ou funcionará como forma de tratamento.

No Dia Mundial do Cachorro, os adultos também entram nessa história

Se nos bebês o interesse está muito relacionado ao desenvolvimento imunológico e à microbiota, nos adultos a ciência costuma olhar para outro conjunto de mecanismos.

O foco passa para estresse, vínculo emocional, sistema nervoso autônomo e respostas hormonais.

Uma revisão sistemática publicada em 2022 reuniu 129 estudos sobre mudanças psicofisiológicas observadas em seres humanos durante ou após interações com cães.

Entre os achados positivos que apareceram com maior frequência estavam:

Cortisol

Reduções foram observadas em parte dos estudos.

Oxitocina

Alguns trabalhos encontraram aumento após interações positivas.

Variabilidade cardíaca

Mudanças em alguns estudos foram compatíveis com maior atividade parassimpática.

Esses padrões são coerentes com mecanismos relacionados a relaxamento, formação de vínculo e redução da ativação fisiológica do estresse.

Os próprios autores, porém, destacaram diferenças importantes entre os métodos e a qualidade das pesquisas. Isso impede concluir que o mesmo efeito acontecerá em qualquer pessoa simplesmente por fazer carinho em um cachorro.

Mulher relaxando em casa acompanhada por cachorro
Pesquisas sobre o vínculo humano-cão analisam respostas ligadas ao relaxamento, ao estresse e à formação de vínculos sociais. Foto: Greta Hoffman/Pexels.

Por que o cortisol aparece tanto nessas pesquisas?

O cortisol participa da resposta do organismo ao estresse e, por isso, aparece com frequência em pesquisas sobre interação com animais.

Se uma determinada experiência produz relaxamento, uma das hipóteses é que isso possa ser acompanhado de redução na atividade do chamado eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, envolvido na resposta fisiológica ao estresse.

Na revisão de 129 trabalhos, reduções de cortisol apareceram entre os achados mais consistentes.

Mas há uma diferença entre detectar uma mudança em laboratório e afirmar que ter um cachorro trata estresse crônico, ansiedade ou depressão.

O primeiro pode ser estudado objetivamente. O segundo exigiria evidência clínica muito mais forte.

Carinho ajuda, mas não é medicamento

Uma interação agradável com o animal pode estar associada a respostas fisiológicas de relaxamento. Isso não transforma cães em tratamento para transtornos psiquiátricos ou doenças relacionadas ao estresse.

A oxitocina ajuda a explicar por que o vínculo pode ser tão forte

Outro hormônio bastante investigado é a oxitocina.

Ela participa de mecanismos de vínculo, comportamento social e diferentes respostas associadas à interação afetiva.

Algumas pesquisas encontraram aumento de oxitocina durante interações positivas entre pessoas e cães.

Isso ajuda a construir uma possível explicação biológica para a sensação de proximidade que muitos tutores desenvolvem com seus animais.

Mesmo assim, chamar a oxitocina apenas de “hormônio do amor” simplifica demais seu funcionamento. Seus efeitos dependem do contexto e de várias outras condições.

A relação também pode funcionar por caminhos muito mais simples

Nem todo possível benefício precisa acontecer por meio de hormônios.

Ter um cachorro pode modificar profundamente a rotina.

O animal precisa sair para passear, brincar, receber atenção, alimentação e cuidados. Para muitos tutores, isso cria horários e responsabilidades que antes não existiam.

As caminhadas também podem aumentar a quantidade de movimento realizada durante o dia e colocar a pessoa em contato com áreas externas.

Além disso, cães frequentemente funcionam como um facilitador social. É comum que pessoas conversem durante passeios, em praças ou enquanto os animais interagem.

Homem caminhando em parque acompanhado por cachorro
Passeios fazem parte da rotina de muitos tutores e podem acrescentar atividade física, tempo ao ar livre e oportunidades de interação social. Foto: MART PRODUCTION/Pexels.

Três caminhos ajudam a entender os possíveis efeitos

1. Fisiológico

Contato físico e interação podem influenciar mecanismos relacionados a cortisol, oxitocina, frequência cardíaca e sistema nervoso autônomo.

2. Psicológico

Um vínculo estável com o cão pode oferecer conforto, previsibilidade e sensação de companhia para determinadas pessoas.

3. Social

Passeios, cuidados e atividades com o animal podem ampliar a rotina social e oferecer senso de propósito e responsabilidade.

E os 74% de tutores que disseram perceber melhora na saúde mental?

O levantamento citado no material original foi realizado em 2016 pelo Human Animal Bond Research Institute, em parceria com o Cohen Research Group.

Segundo a pesquisa, 74% dos donos de animais entrevistados afirmaram perceber melhora em sua saúde mental por causa da convivência com seus pets.

É um resultado relevante para entender a percepção dos tutores, mas não deve ser confundido com um ensaio clínico.

Responder que o animal melhora o bem-estar não demonstra que ele tenha tratado depressão, ansiedade ou outra condição de saúde mental.

Ainda assim, ajuda a mostrar como a companhia animal ocupa um espaço emocional importante na vida de muitas pessoas.

O vínculo não acontece automaticamente

Ter um cachorro em casa, sozinho, não garante nenhum desses possíveis benefícios.

A relação depende da maneira como tutor e animal convivem.

Um cão exige tempo, atenção, treinamento, alimentação, espaço, cuidados veterinários e dinheiro.

Quando a adoção ou compra acontece por impulso, o que deveria representar companhia pode acabar se transformando em uma fonte adicional de preocupação.

Por isso, o Dia Mundial do Cachorro também serve para lembrar que vínculo e responsabilidade caminham juntos.

A ciência encontrouIsso não significa
Associação entre cães e alguns indicadores de saúde no primeiro ano de vida.Que um cachorro impedirá o bebê de adoecer.
Microrganismos específicos podem explicar parte dessa associação.Que sujeira ou exposição deliberada a bactérias seja recomendada.
Mudanças em cortisol, oxitocina e parâmetros cardíacos em alguns estudos.Que cães tratem doenças ou transtornos emocionais.
Muitos tutores relatam bem-estar com seus animais.Que todas as pessoas terão a mesma experiência.

Dia Mundial do Cachorro também é dia de pensar na saúde deles

Falar sobre aquilo que os cães podem representar para a saúde humana não pode colocar o animal apenas como fonte de benefícios.

A relação precisa funcionar nos dois sentidos.

Cães precisam de acompanhamento veterinário, vacinação adequada, alimentação compatível com suas necessidades, exercícios, descanso, estímulos mentais e contato social.

Também precisam de uma rotina que respeite idade, tamanho, raça, condição física e personalidade.

Uma caminhada pode ser excelente para determinado cachorro e excessiva para outro. Um animal idoso não tem necessariamente as mesmas necessidades de um filhote.

O comportamento também merece atenção. Mudanças repentinas, agressividade, medo excessivo ou alterações de apetite podem indicar que algo não está bem.

Quem tem criança em casa precisa manter alguns cuidados

Os resultados sobre microbiota não eliminam regras básicas de higiene e segurança.

Adultos devem supervisionar a interação entre crianças pequenas e cães, inclusive quando o animal pertence à própria família e nunca apresentou comportamento agressivo.

Também é importante manter mãos, ambientes, recipientes de alimentação e locais utilizados pelo animal adequadamente higienizados.

Contato com fezes deve ser evitado, e o acompanhamento veterinário ajuda a reduzir riscos tanto para o animal quanto para as pessoas que convivem com ele.

Microbiota não é sinônimo de falta de higiene

A pesquisa sobre microrganismos domésticos não muda a importância de vacinação, cuidados veterinários, limpeza adequada e supervisão durante o contato entre cães e crianças.

5 maneiras simples de aproveitar o Dia Mundial do Cachorro

A data não precisa significar comprar presentes. Algumas das melhores formas de celebrar estão diretamente relacionadas ao bem-estar do próprio animal.

1. Faça um passeio diferente

Se a saúde e a rotina do animal permitirem, escolha um lugar seguro onde ele possa explorar novos cheiros e ambientes.

2. Separe um tempo exclusivamente para brincar

Brincadeiras estimulam o animal e também reforçam a interação com o tutor.

3. Confira os cuidados de saúde

Veja se vacinação, acompanhamento veterinário e medidas preventivas estão atualizados.

4. Observe o comportamento

Aproveite para perceber se alguma mudança de rotina, apetite, mobilidade ou disposição merece atenção.

5. Ajude outros cães

Quem puder pode apoiar abrigos, protetores independentes ou iniciativas responsáveis de adoção.

Cachorro feliz olhando para a câmera
O Dia Mundial do Cachorro também chama atenção para cuidado, responsabilidade e qualidade de vida dos próprios animais. Foto: Mia X/Pexels.

O que torna essa relação tão interessante para a ciência?

Cães convivem de maneira extremamente próxima com seres humanos.

Eles compartilham casas, rotinas, ambientes externos e, muitas vezes, décadas da vida de uma família.

Isso cria uma relação muito diferente daquela existente entre uma pessoa e um animal encontrado ocasionalmente.

O cachorro pode alterar a microbiota da casa, a rotina de atividade física, oportunidades de interação social e até respostas fisiológicas produzidas durante momentos de contato.

É justamente essa combinação de fatores que torna tão difícil atribuir um possível benefício a um único mecanismo.

A ciência ainda está tentando separar o que vem do contato físico, do ambiente, da atividade, da companhia e do vínculo emocional.

A data celebra companhia, mas também uma relação muito mais complexa

No Dia Mundial do Cachorro, os estudos oferecem uma maneira diferente de observar uma convivência que muita gente já conhece intuitivamente.

Em bebês, pesquisas encontraram associações entre contato com cães, microbiota doméstica e menor ocorrência de alguns problemas respiratórios e uso de antibióticos.

Em adultos, revisões científicas identificaram mudanças em marcadores relacionados a estresse e vínculo durante determinadas interações.

Nenhum desses resultados transforma o cachorro em medicamento ou garante benefícios para todas as pessoas.

Mas eles mostram que dividir a vida com um cão pode envolver muito mais do que simplesmente ter um animal de estimação dentro de casa.

Em 26 de agosto, o Dia Mundial do Cachorro celebra justamente uma relação capaz de modificar a rotina, o ambiente e a vida emocional de quem está dos dois lados da coleira.

Fontes e estudos citados

  • Mäki JM, Kirjavainen PV, Täubel M e colaboradores. The role of dog keeping in the home microbiota and its impact on children’s health. Pediatric Allergy and Immunology, 2026. DOI 10.1111/pai.70408.
  • Bergroth E, Remes S, Pekkanen J e colaboradores. Respiratory Tract Illnesses During the First Year of Life: Effect of Dog and Cat Contacts. Pediatrics, 2012. DOI 10.1542/peds.2011-2825.
  • Teo JT, Johnstone SJ, Römer SS, Thomas SJ. Psychophysiological mechanisms underlying the potential health benefits of human-dog interactions: A systematic literature review. International Journal of Psychophysiology, 2022. DOI 10.1016/j.ijpsycho.2022.07.007.
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Ana Clara de Oliveira

Ana Clara de Oliveira produz conteúdos sobre animais, cuidados, comportamento, curiosidades e convivência com pets, sempre com foco em informação simples e útil para o dia a dia.