Seu cachorro corre, treme ou late enquanto dorme e isso assusta você? O que acontece no cérebro dele nessa hora é mais curioso do que parece

Ele está completamente adormecido quando, de repente, uma das patas começa a se mexer. Logo depois vem uma contração no focinho, as orelhas dão pequenos movimentos e talvez apareça até um latido abafado.

Para quem está observando, a cena parece fácil de interpretar: o cachorro deve estar sonhando que está correndo, brincando ou perseguindo alguma coisa.

Mas será que é realmente isso que está acontecendo?

A ciência não consegue perguntar a um cachorro o que ele viu enquanto dormia. Ainda assim, pesquisadores já conseguiram acompanhar a atividade cerebral de cães durante o sono e descobriram algo importante: o cérebro deles passa por diferentes estágios de sono, incluindo uma fase REM com características que lembram vários aspectos do sono humano.

Isso torna bastante plausível que cães tenham experiências semelhantes aos sonhos.

O que não podemos afirmar é o conteúdo delas.

Talvez aquela pata esteja realmente acompanhando uma corrida imaginária pelo parque. Talvez não. A parte que permanece escondida é justamente a mais fascinante.

A ciência consegue observar o cérebro, mas não entrar no sonho

Movimentos das patas, pequenas vocalizações e atividade cerebral durante o sono tornam a hipótese dos sonhos bastante plausível. O que ainda não podemos saber é se o cachorro está sonhando com uma pessoa, uma bola, outro animal ou qualquer experiência específica.

Cachorro dormindo tranquilamente em uma cama
Mesmo quando parece completamente desligado do ambiente, o cérebro do cachorro continua atravessando diferentes fases do sono. Foto: Lisa/Pexels.

Pesquisadores conseguiram acompanhar cães dormindo sem sedação

Estudar o sono de um cachorro não é tão simples quanto parece.

Colocar eletrodos sobre o animal em um laboratório desconhecido poderia deixá-lo ansioso, mudar seu comportamento e produzir um sono muito diferente daquele observado em casa.

Foi justamente esse problema que pesquisadores da Universidade Eötvös Loránd, em Budapeste, tentaram contornar.

Em 2014, uma equipe liderada por Anna Kis publicou uma técnica de polissonografia não invasiva para cães domésticos.

Os animais não precisavam ser anestesiados nem treinados durante meses para permanecer imóveis.

Eletrodos eram colocados externamente enquanto o cão permanecia próximo do tutor em um ambiente tranquilo.

Com isso, os cientistas puderam registrar parâmetros como:

EEG

Atividade elétrica cerebral durante diferentes fases do sono.

Movimentos dos olhos

Importantes para identificar a fase REM.

Tônus muscular

Ajuda a distinguir diferentes estados de sono.

Comportamento

Permite relacionar movimentos visíveis com o que acontece no cérebro.

Os registros mostraram que o sono dos cães possui características eletrofisiológicas que, em vários aspectos, podem ser comparadas às encontradas em seres humanos.

Isso abriu uma nova área de pesquisa.

Em vez de estudar cães apenas quando estavam acordados, passou a ser possível investigar o que o cérebro deles faz enquanto dormem.

O cachorro também passa pela fase REM

REM é a sigla em inglês para rapid eye movement, ou movimento rápido dos olhos.

Nos seres humanos, essa fase está fortemente associada aos sonhos mais vívidos.

Durante o REM, o cérebro permanece bastante ativo enquanto a atividade da maior parte da musculatura corporal é fortemente reduzida.

Nos cães, pesquisadores também conseguem identificar esse estágio.

Entre as características observadas estão:

atividade cerebral característica no EEG;

movimentos rápidos dos olhos;

redução importante do tônus muscular;

respiração que pode ficar menos regular;

pequenas contrações musculares ou vocalizações ocasionais.

É justamente durante momentos assim que o tutor pode perceber uma pata se movimentando, o focinho tremendo ou pequenos sons.

Isso não significa que todo movimento observado durante o sono aconteça obrigatoriamente no REM.

Mas a existência dessa fase nos cães é uma das principais razões pelas quais cientistas consideram muito plausível que eles experimentem alguma forma de sonho.

Filhote de cachorro dormindo em uma cama macia
Movimentos discretos das patas, do focinho ou das orelhas podem aparecer durante o sono normal. Foto: Leticia Curvelo/Pexels.

Por que o corpo não sai correndo enquanto o cérebro está ativo?

Existe um mecanismo especialmente interessante durante o sono REM.

O cérebro reduz fortemente a ativação dos grandes grupos musculares.

É como se parte dos comandos motores fosse colocada sob um freio.

Nos seres humanos, esse fenômeno é chamado de atonia muscular do REM.

Nos cães também ocorre uma redução acentuada do tônus muscular.

Isso ajuda a explicar por que um cachorro pode apresentar sinais de intensa atividade cerebral sem simplesmente levantar e começar a correr dormindo pela casa.

O bloqueio, porém, não significa imobilidade absoluta.

Pequenas contrações podem escapar.

É aí que surgem alguns movimentos que chamam tanto a atenção dos tutores:

Patas

Pequenos movimentos que lembram passos ou corrida.

Focinho

Contrações rápidas nos lábios ou nariz.

Orelhas

Movimentos breves e intermitentes.

Vocalizações

Pequenos latidos, choramingos ou outros sons curtos.

Se esses movimentos são breves, discretos e o cachorro continua dormindo tranquilamente, eles geralmente são compatíveis com o funcionamento normal do sono.

Então ele está sonhando que corre?

Essa é a pergunta que todo tutor gostaria que a ciência pudesse responder.

A resposta mais correta é: não sabemos.

Podemos medir o cérebro.

Podemos observar os olhos.

Podemos registrar os músculos.

Podemos identificar em qual estágio do sono o animal está.

O que não podemos fazer é acessar diretamente a experiência subjetiva.

Um ser humano acorda e conta:

“Eu estava correndo.”

“Sonhei com minha infância.”

“Estava conversando com alguém.”

O cachorro não consegue fornecer esse relato.

Por isso, dizer que ele estava sonhando exatamente com uma bola, com o parque ou com o tutor é uma interpretação simpática, mas vai além daquilo que os experimentos conseguem demonstrar.

É plausível que cães sonhem. O conteúdo continua secreto.

A semelhança dos estágios de sono e da atividade cerebral sustenta a hipótese de experiências semelhantes aos sonhos. Mas dizer com o que um cachorro sonha continua sendo especulação.

O cérebro não para de processar o dia quando o cachorro fecha os olhos

Talvez essa seja uma das descobertas mais interessantes das pesquisas sobre sono canino.

Em 2017, cientistas utilizaram a mesma técnica de EEG para investigar a relação entre sono e aprendizado.

Os cães participaram de tarefas nas quais aprendiam comandos e depois dormiam enquanto sua atividade cerebral era registrada.

Os pesquisadores encontraram mudanças no espectro do EEG relacionadas ao aprendizado.

Mais interessante ainda: algumas características da atividade cerebral durante o sono estavam relacionadas ao desempenho apresentado pelos cães depois que acordavam.

Isso sugere que dormir pode participar do processamento e da consolidação de informações recentemente aprendidas também nos cães.

Não significa que o cachorro fica conscientemente repetindo a aula durante o sonho.

Mas mostra que o cérebro continua trabalhando sobre experiências recentes mesmo enquanto o animal aparentemente não está fazendo nada.

Mulher dormindo no sofá acompanhada de seu cachorro
Experiências vividas quando o cachorro está acordado podem deixar marcas mensuráveis na organização do sono posterior. Foto: Jep Gambardella/Pexels.

Até o que acontece antes de dormir pode mudar a noite

Outro experimento foi ainda mais curioso.

Pesquisadores expuseram cães adultos a diferentes tipos de experiências sociais antes de deixá-los dormir.

Alguns tiveram interações positivas.

Outros passaram por situações sociais de caráter mais negativo.

Depois disso, os cientistas analisaram a estrutura do sono.

Os resultados mostraram que a experiência emocional anterior estava relacionada a mudanças na organização do sono seguinte.

Isso cria uma conexão interessante entre aquilo que acontece durante o dia e aquilo que o cérebro faz durante a noite.

Não prova que uma experiência desagradável produz um “pesadelo” específico.

Mas mostra que a vida acordada deixa uma assinatura mensurável no sono.

Filhotes parecem se mexer muito enquanto dormem

Quem já observou um filhote dormindo provavelmente percebeu como ele pode parecer inquieto.

Patas tremem, músculos se contraem e pequenos sons aparecem repetidamente.

Isso pode ser especialmente impressionante porque o corpo é pequeno e qualquer movimento parece muito evidente.

Pequenas contrações isoladas não significam automaticamente problema neurológico.

O ponto principal continua sendo observar a intensidade, duração, frequência e principalmente como o cachorro fica depois do episódio.

Um filhote que faz alguns movimentos, continua dormindo e depois acorda perfeitamente normal apresenta uma situação bastante diferente de um animal que exibe movimentos violentos, prolongados ou comportamento anormal após despertar.

Cachorro beagle dormindo profundamente
O contexto do episódio importa mais do que um pequeno movimento isolado durante o sono. Foto: Albina White/Pexels.

Quando deixa de parecer apenas um movimento normal do sono?

Existe uma diferença importante entre pequenas contrações e episódios de atividade motora intensa durante o sono.

Na medicina veterinária, existem relatos de uma condição conhecida como distúrbio comportamental do sono REM.

Nesse quadro, a supressão normal dos movimentos durante o REM pode falhar.

O animal pode apresentar comportamentos muito mais complexos, incluindo movimentos intensos das patas, cabeça, mandíbula e vocalizações.

Casos documentados com vídeo e EEG mostram que essa condição existe em cães, embora seja incomum.

O problema é que movimentos anormais durante o sono também podem ser confundidos com outras alterações neurológicas.

Entre elas estão algumas crises epilépticas.

É por isso que observar apenas “ele se mexeu dormindo” não é suficiente para diferenciar as situações.

Movimentos compatíveis com sono normalSinais que merecem avaliação
Pequenos movimentos das patas.Movimentos muito violentos ou envolvendo grande parte do corpo.
Contrações breves do focinho.Episódios longos ou progressivamente mais frequentes.
Pequena vocalização ocasional.Vocalização intensa acompanhada de movimentos complexos.
O cachorro permanece relaxado depois.Confusão ou comportamento anormal depois do episódio.
Acorda normalmente quando desperta.Rigidez intensa, salivação excessiva ou perda involuntária de urina ou fezes.

Como diferenciar sonho de convulsão?

Para um tutor sem treinamento, nem sempre é possível fazer essa diferenciação com segurança apenas olhando.

Algumas crises podem acontecer justamente quando o animal está adormecendo ou acordando, o que aumenta ainda mais a confusão.

Durante uma possível convulsão podem aparecer sinais como rigidez marcada, movimentos involuntários fortes de todo o corpo, salivação intensa, urina ou fezes involuntárias.

Depois, alguns cães entram em uma fase chamada pós-ictal.

Nesse período, podem ficar:

Confusos
Desorientados
Inquietos
Com comportamento diferente

Já o cachorro que apresenta pequenas contrações normais do sono tende a continuar dormindo ou despertar sem uma alteração neurológica evidente.

Isso não cria uma regra perfeita para diagnóstico doméstico.

Em casos realmente duvidosos, veterinários podem recorrer a ferramentas como vídeo, exame neurológico e, em situações específicas, registros de EEG ou polissonografia.

Não tente segurar a boca durante uma possível convulsão

Se os movimentos parecem uma crise, mantenha o animal em uma área segura, afaste objetos contra os quais ele possa se machucar e não coloque as mãos perto da boca.

Seu celular pode ajudar muito o veterinário

Quando o episódio termina antes da consulta, o profissional precisa reconstruir o que aconteceu com base na descrição do tutor.

“Ele ficou se mexendo” pode significar dezenas de coisas diferentes.

Por isso, se for possível fazer isso sem colocar ninguém em risco, gravar um vídeo pode ser extremamente útil.

Tente registrar o animal inteiro.

Se possível, anote também:

quanto tempo o episódio durou;

se o cachorro estava dormindo profundamente ou estava despertando;

quais partes do corpo se movimentaram;

se houve salivação, urina ou fezes;

se ele respondeu ao ambiente;

como se comportou nos minutos seguintes.

Esses detalhes podem ajudar o veterinário a decidir quais exames são necessários.

Cachorro sendo examinado por profissionais em uma clínica veterinária
Vídeos dos episódios e informações sobre duração e comportamento posterior podem ajudar na avaliação veterinária. Foto: Mikhail Nilov/Pexels.

Existe uma situação em que não vale esperar para ver se passa

Uma convulsão prolongada é uma emergência.

Se um episódio convulsivo continuar por mais de cinco minutos, o animal precisa de atendimento veterinário imediato.

Não fique tentando acordá-lo, jogar água ou colocar objetos na boca.

Priorize a segurança e procure assistência.

Para episódios curtos, mas que começaram de repente, passaram a acontecer repetidamente ou estão ficando progressivamente mais intensos, também vale conversar com o veterinário.

A gravação pode ajudar a mostrar exatamente aquilo que é difícil descrever.

É melhor acordar o cachorro quando ele começa a se mexer?

Se são apenas pequenos movimentos típicos durante um sono tranquilo, normalmente não existe necessidade de interrompê-lo.

O sono desempenha funções importantes para o organismo.

Além disso, um cachorro acordado repentinamente enquanto está profundamente adormecido pode se assustar.

Se realmente precisar despertá-lo, chamar pelo nome à distância costuma ser mais prudente do que tocar inesperadamente no rosto ou aproximar as mãos da boca.

Quando existe suspeita de uma crise neurológica, a orientação muda: o objetivo não é “acordar do sonho”, mas manter o ambiente seguro e avaliar o episódio adequadamente.

A idade também muda a maneira como os cães dormem

Os estudos de sono canino mostram que idade e função cognitiva podem estar relacionadas à arquitetura do sono.

Uma pesquisa publicada em 2023 analisou cães idosos usando polissonografia durante cochilos.

Os pesquisadores encontraram diferenças na organização do sono relacionadas à idade e ao desempenho cognitivo.

Cães com sinais mais compatíveis com disfunção cognitiva e pior desempenho em determinadas tarefas passaram menos tempo em alguns estágios de sono, incluindo REM e NREM.

Esse tipo de resultado interessa aos pesquisadores porque cães idosos também podem desenvolver uma síndrome de disfunção cognitiva com algumas características que lembram aspectos das demências humanas.

Isso não significa que um cachorro que se mexe dormindo esteja desenvolvendo demência.

Mostra apenas como o sono pode funcionar como uma janela para compreender o envelhecimento cerebral dos cães.

O que sabemosO que ainda não sabemos
Cães passam por fases REM e NREM.O conteúdo subjetivo de uma possível experiência de sonho.
Pequenas contrações podem ocorrer durante o sono normal.Se determinado movimento corresponde a uma cena específica imaginada pelo cão.
Sono e aprendizado apresentam relações mensuráveis no EEG.Se o cachorro revive conscientemente a tarefa aprendida enquanto dorme.
Experiências sociais anteriores podem alterar a estrutura do sono.Se essas alterações representam sonhos positivos ou pesadelos específicos.

Então os cães sonham mesmo?

Se a pergunta exigir uma certeza absoluta sobre experiência consciente, a ciência ainda não consegue responder.

Mas as evidências tornam a hipótese difícil de descartar.

Cães possuem fases de sono claramente identificáveis.

Entram em REM.

Apresentam movimentos rápidos dos olhos.

Possuem atividade cerebral intensa enquanto a musculatura fica fortemente inibida.

Pequenas vocalizações e contrações podem aparecer.

Além disso, o que aprendem e aquilo que vivem antes de dormir pode deixar marcas mensuráveis na atividade cerebral e na estrutura do sono posterior.

Tudo isso mostra que o cachorro deitado no sofá está muito longe de ter um cérebro simplesmente “desligado”.

Existe atividade, organização e processamento acontecendo durante a noite.

Se aquela pata que se mexe está acompanhando uma corrida imaginária atrás de uma bola, ninguém pode afirmar.

Talvez esse seja justamente o detalhe mais bonito da história.

Podemos observar muita coisa acontecendo dentro daquele cérebro, mas o conteúdo da experiência continua pertencendo somente ao cachorro.

Na próxima vez que as patinhas começarem a correr, observe antes de se assustar

Pequenas contrações, movimentos do focinho e vocalizações curtas podem fazer parte do sono normal. O que merece atenção são mudanças importantes no padrão, episódios violentos ou prolongados e sinais anormais depois que o cachorro desperta. Quanto ao que realmente estava acontecendo dentro daquele sonho, essa parte provavelmente continuará sendo segredo dele.

Fontes e estudos citados

Kis A, Szakadát S, Kovács E, et al. Development of a non-invasive polysomnography technique for dogs (Canis familiaris). Physiology & Behavior. 2014;130:149-156. DOI: 10.1016/j.physbeh.2014.04.004.

Kis A, Szakadát S, Gácsi M, et al. The interrelated effect of sleep and learning in dogs (Canis familiaris); an EEG and behavioural study. Scientific Reports. 2017;7:41873. DOI: 10.1038/srep41873.

Kis A, Gergely A, Galambos Á, et al. Sleep macrostructure is modulated by positive and negative social experience in adult pet dogs. Proceedings of the Royal Society B. 2017;284:20171883. DOI: 10.1098/rspb.2017.1883.

Knipe M, Embersics C, Dickinson P. Electroencephalography of rapid eye movement sleep behavior disorder in a dog with generalized tetanus. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2023;37(1):277-281. DOI: 10.1111/jvim.16585.

Folkard E, Niel L, Gaitero L, James FMK. Tools and techniques for classifying behaviours in canine epilepsy. Frontiers in Veterinary Science. 2023;10:1211515. DOI: 10.3389/fvets.2023.1211515.

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Ana Clara de Oliveira

Ana Clara de Oliveira produz conteúdos sobre animais, cuidados, comportamento, curiosidades e convivência com pets, sempre com foco em informação simples e útil para o dia a dia.