Seu cachorro vive comendo grama e você acha que ele está com dor de estômago? Saiba realmente o que está acontecendo com ele

O passeio está tranquilo até que seu cachorro abaixa a cabeça, começa a farejar o gramado e, de repente, passa a arrancar e mastigar vários fios de grama.

A reação de muitos tutores é quase automática: “ele deve estar com dor de estômago”.

Se alguns minutos depois o animal vomita, a conclusão parece ainda mais óbvia. Ele teria sentido algum desconforto, procurado a grama de propósito e provocado o próprio vômito para se sentir melhor.

Essa explicação é repetida há anos e parece fazer sentido. O problema é que, quando pesquisadores decidiram observar o comportamento de centenas de cães, os números não seguiram exatamente essa história.

Um dos maiores estudos já realizados sobre o assunto reuniu informações de 1.571 cães que consumiam plantas. A grama era disparadamente o vegetal mais procurado.

Mas apenas uma pequena parcela costumava aparentar doença antes de comê-la, e vomitar depois estava longe de ser regra.

Outro experimento registrou centenas de episódios em que cães comeram grama e observou apenas dois episódios de vômito.

Então por que eles fazem isso?

A resposta mais correta até hoje é menos dramática e também mais curiosa: provavelmente não existe um único motivo.

A cena assusta mais do que os números sugerem

Comer grama ocasionalmente pode fazer parte do comportamento normal de muitos cães. O que muda a situação é o contexto em que isso acontece e os outros sinais apresentados pelo animal.

Cachorro farejando a grama durante passeio ao ar livre
Farejar e explorar áreas gramadas faz parte da rotina de muitos cães durante os passeios. Foto: Th2city Santana/Pexels.

Comer grama é muito mais comum do que parece

Uma pesquisa publicada em 2008 na revista científica Applied Animal Behaviour Science tentou responder justamente a essa questão.

O trabalho foi conduzido por Karen Sueda, Benjamin Hart e Kelly Cliff e envolveu diferentes etapas.

Em uma primeira amostra de cães saudáveis que tinham acesso diário a plantas, 79% dos tutores disseram já ter observado o animal comendo grama ou outro vegetal.

Depois, os pesquisadores realizaram uma pesquisa maior pela internet voltada especificamente para pessoas cujos cães apresentavam esse comportamento.

Foram recebidas 3.340 respostas, das quais 1.571 atendiam aos critérios definidos pelo estudo.

Entre esses animais, 68% consumiam plantas diariamente ou semanalmente.

E havia uma preferência bastante evidente.

A grama era o tipo de planta consumido com maior frequência por 79% dos cães.

1.571

Cães incluídos na grande pesquisa.

68%

Comiam plantas diariamente ou semanalmente.

79%

Tinham a grama como vegetal mais consumido.

E aí veio a parte que enfraqueceu uma explicação muito popular

Se os cães estivessem procurando grama principalmente porque estavam passando mal, seria razoável esperar que uma parcela grande demonstrasse algum sinal de doença imediatamente antes do comportamento.

Não foi isso que apareceu.

Na pesquisa, apenas 9% dos tutores relataram que seus cães frequentemente aparentavam estar doentes antes de comer plantas.

Além disso, 92% disseram que o animal raramente apresentava sinais de doença antes ou depois do comportamento.

Ou seja, na enorme maioria das situações relatadas, havia simplesmente um cachorro aparentemente normal mastigando vegetação.

O que foi observadoResultado
Comer plantas diariamente ou semanalmente68% dos cães pesquisados.
Grama como vegetal consumido com maior frequência79%.
Aparentar doença frequentemente antes de comer plantas9%.
Vomitar frequentemente depois22%.

Mas e aquele cachorro que come grama e vomita logo depois?

É justamente essa sequência que provavelmente ajudou a criar uma das explicações mais conhecidas entre tutores.

O cachorro come a grama.

Minutos depois, vomita.

Então parece lógico concluir que ele comeu a grama porque queria vomitar.

Só que duas coisas acontecerem em sequência não prova que a primeira foi realizada com a intenção de provocar a segunda.

Na pesquisa de 2008, somente 22% dos tutores afirmaram que o cão vomitava frequentemente depois de comer plantas.

Em outras palavras, a maior parte dos cães não apresentava vômito frequente após o comportamento.

Ver a sequência não prova a intenção

Um cachorro pode comer grama e depois vomitar. Isso realmente acontece. O que os estudos colocam em dúvida é a ideia de que vomitar seja normalmente o objetivo do comportamento.

Cachorro sentado sobre a grama em um parque
O comportamento deve ser interpretado junto com o estado geral do animal, e não isoladamente. Foto: Lucas Porras/Pexels.

Um segundo experimento colocou a ideia do “remédio natural” ainda mais à prova

Em 2010, Samantha McKenzie, Wendy Brown e Ian Price publicaram outro estudo na mesma revista científica.

Desta vez, os pesquisadores observaram cães experimentalmente.

Durante parte do estudo, os animais receberam uma alimentação padrão e apresentaram fezes normais.

Em outro período, foi acrescentado frutooligossacarídeo à dieta para provocar temporariamente fezes mais amolecidas e simular um distúrbio gastrointestinal leve.

Se comer grama fosse normalmente uma maneira de tentar corrigir esse tipo de problema intestinal, seria razoável esperar que os cães procurassem mais vegetação durante o período de desconforto.

Aconteceu o contrário.

Os cães passaram significativamente mais tempo comendo grama quando estavam na dieta normal e apresentavam fezes normais.

Quando estavam no período com fezes amolecidas, o tempo dedicado à grama diminuiu.

Os próprios pesquisadores foram cautelosos: isso não significa que nenhuma forma de desconforto gastrointestinal possa influenciar o comportamento.

Náusea, constipação e outros quadros não foram testados da mesma maneira.

Mas o experimento dificultou bastante a defesa de que os cães comem grama normalmente para tratar um problema digestivo leve.

374 vezes comendo grama e apenas dois episódios de vômito

O dado mais marcante desse experimento talvez seja justamente esse.

Durante o estudo foram registrados 374 episódios de consumo de grama.

Quantos terminaram em vômito?

Apenas dois.

Isso não significa que seu cachorro nunca possa vomitar depois de comer grama.

Significa que, quando o comportamento é observado de maneira sistemática, vomitar não aparece como uma consequência inevitável.

No experimento de 2010

374

Episódios em que os cães comeram grama.

2

Episódios de vômito observados.

Então por que o cachorro come grama?

É aqui que a ciência deixa uma resposta aberta.

Provavelmente não existe uma única causa válida para todos os cães e todas as situações.

Algumas hipóteses são mais plausíveis do que outras.

Comportamento natural

O consumo de vegetais também foi observado em canídeos selvagens e pode ter raízes comportamentais antigas.

Exploração

Cães exploram o ambiente intensamente com o focinho e a boca.

Preferência individual

Alguns parecem escolher determinados tipos ou partes da grama.

Fome ou oportunidade

O momento da alimentação e a disponibilidade de vegetação podem influenciar alguns animais.

Essas explicações não são necessariamente excludentes.

Um mesmo cachorro pode mastigar grama por razões diferentes em momentos diferentes.

Os cães mais jovens faziam isso com mais frequência

A pesquisa de 2008 encontrou outro detalhe interessante.

A idade foi relacionada à frequência do comportamento.

Cães mais jovens tendiam a consumir plantas mais frequentemente e também apresentavam maior probabilidade de experimentar vegetais que não eram grama.

Ao mesmo tempo, os mais jovens tinham menor probabilidade de parecer doentes antes de comer plantas e menor frequência de vômito posterior.

Esse padrão combina com uma possível componente exploratória.

Animais jovens geralmente investigam mais o ambiente, experimentam texturas e colocam diferentes objetos na boca.

Isso não prova que curiosidade explique todos os casos, mas oferece outra pista contra a ideia de que o comportamento seja essencialmente um sintoma digestivo.

Cachorro brincando em área verde durante passeio
Cães mais jovens podem explorar o ambiente com maior intensidade, inclusive utilizando a boca durante essa descoberta. Foto: Valeria Boltneva/Pexels.

É falta de fibra?

Outra explicação muito repetida é que o cachorro procuraria grama porque sua dieta não contém fibras suficientes.

Existem relatos e observações em que alterações alimentares foram acompanhadas de mudanças nesse comportamento.

Mas os dados disponíveis não sustentam a ideia de que falta de fibra seja a explicação geral para todos os cães que comem grama.

No grande estudo de 2008, os pesquisadores não encontraram uma relação clara entre tipo de dieta e frequência de consumo de plantas capaz de explicar o comportamento de forma simples.

Por isso, não é adequado acrescentar suplementos ou mudar completamente a alimentação apenas porque o cachorro mastigou alguns fios durante o passeio.

Se houver suspeita de problema nutricional, a alimentação deve ser avaliada no conjunto.

O comportamento normal tem uma aparência bem diferente daquele que merece atenção

Imagine dois cães.

O primeiro está animado durante o passeio, cheira o gramado, mastiga alguns fios, continua andando, chega em casa, come normalmente e segue o dia como sempre.

O segundo nunca demonstrou grande interesse por vegetação, mas de repente começa a procurar grama desesperadamente. Come grandes quantidades, saliva, recusa alimento e vomita repetidamente.

Os dois comeram grama.

Mas o contexto é completamente diferente.

Tende a ser menos preocupanteMerece mais atenção
Come pequena quantidade ocasionalmente.Come grandes quantidades de maneira insistente ou compulsiva.
Continua ativo e disposto.Fica abatido ou demonstra dor.
Mantém alimentação habitual.Perde o apetite.
Não apresenta outros sinais.Apresenta salivação, diarreia ou outros sintomas digestivos.
Pode vomitar ocasionalmente e depois ficar normal.Apresenta vômitos repetidos ou não consegue manter água/alimento.

A mudança é mais importante do que um único fio de grama

Se um comportamento que sempre foi ocasional se torna repentinamente intenso e aparece junto com outros sinais de mal-estar, essa informação merece ser relatada ao veterinário.

Vomitar uma vez é diferente de vomitar repetidamente

Alguns cães podem vomitar ocasionalmente depois de comer vegetação e continuar completamente normais.

Outra situação é o animal apresentar episódios sucessivos de vômito, não querer comer ou beber, mostrar dor abdominal ou ficar muito abatido.

Nesse cenário, o mais importante deixa de ser descobrir se a grama provocou o vômito.

O problema passa a ser entender por que o cachorro está apresentando sinais gastrointestinais.

Comer grama pode ser apenas mais uma informação dentro desse quadro.

Existe ainda um perigo que não tem relação com o estômago

Mesmo que o comportamento seja normal, isso não significa que qualquer gramado seja seguro para o animal mastigar.

O risco pode estar justamente no local.

Gramados podem ter recebido herbicidas, inseticidas, fertilizantes ou outros produtos químicos.

Áreas frequentadas por muitos animais também podem apresentar contaminação por fezes e agentes infecciosos.

Outro problema é que o cachorro nem sempre selecionará apenas espécies vegetais inofensivas.

Jardins podem conter plantas potencialmente tóxicas.

Onde é melhor não deixar o cão mastigar vegetação

Gramados recém-tratados com produtos químicos;

canteiros e jardins com plantas desconhecidas;

áreas com fezes de muitos animais;

bordas de ruas e locais potencialmente contaminados;

qualquer vegetação cuja segurança você não conhece.

Também é importante diferenciar grama de uma planta desconhecida

Quando alguém diz que o cachorro “come plantas”, pode estar falando de coisas completamente diferentes.

Mastigar alguns fios de uma gramínea conhecida em uma área segura não é a mesma coisa que ingerir folhas de uma planta ornamental.

Existem espécies capazes de provocar irritação gastrointestinal e outras que podem causar intoxicações mais graves.

Por isso, quando o animal ingerir uma planta desconhecida, vale identificar o vegetal.

Se houver suspeita de toxicidade ou surgirem sintomas depois da ingestão, a avaliação veterinária se torna especialmente importante.

Veterinário examinando um cachorro em uma clínica
Quando o comportamento muda repentinamente ou aparece acompanhado de outros sintomas, a avaliação do conjunto é mais importante do que a grama isoladamente. Foto: Tima Miroshnichenko/Pexels.

Tem que impedir o cachorro toda vez que ele abaixa a cabeça?

Não existe motivo para transformar cada tentativa de mastigar um fio de grama em uma emergência.

Se o animal está saudável, o comportamento é ocasional e o local é seguro, os estudos disponíveis indicam que comer plantas pode fazer parte do repertório normal da espécie.

A questão muda quando existe risco ambiental.

Se você não sabe se aquele gramado recebeu produtos químicos, se há plantas desconhecidas ou se o animal tenta engolir grandes quantidades rapidamente, impedir a ingestão é uma atitude prudente.

Também não é necessário incentivar o comportamento apenas porque ele pode ser normal.

Normal não significa obrigatório.

O cachorro está tentando “limpar o intestino”?

Essa hipótese aparece em discussões sobre o comportamento de canídeos selvagens.

O consumo de vegetação já foi observado em lobos e outros canídeos e existem propostas evolutivas para explicar por que o comportamento poderia ter sido preservado.

Uma hipótese histórica sugere até que material vegetal poderia auxiliar mecanicamente na eliminação de parasitas intestinais em animais selvagens.

Mas isso está muito longe de provar que um cachorro doméstico moderno procura grama conscientemente para realizar uma espécie de “limpeza intestinal”.

Os pesquisadores do trabalho de 2008 consideraram plausível que exista uma predisposição comportamental herdada dos ancestrais canídeos.

O mecanismo exato, entretanto, continua sem uma resposta definitiva.

O maior erro talvez seja tentar traduzir tudo como se o cachorro fosse humano

Quando uma pessoa toma um medicamento, existe uma intenção clara.

Ela sente um sintoma, entende o problema e procura algo para tentar resolvê-lo.

É tentador aplicar essa mesma lógica ao cão.

“Ele sentiu enjoo, então procurou a grama para vomitar.”

Mas o comportamento animal não precisa seguir uma narrativa tão consciente.

Cães farejam, lambem, mastigam e experimentam elementos do ambiente o tempo inteiro.

E comportamentos podem persistir porque são agradáveis, exploratórios, herdados ou simplesmente reforçados pela experiência.

Nem tudo precisa carregar uma mensagem médica escondida.

Antes de se preocupar, observe o conjunto

Ele está ativo como sempre?

Está comendo e bebendo normalmente?

O comportamento é antigo ou começou de repente?

Come alguns fios ou tenta devorar grandes quantidades?

Existe vômito, diarreia, salivação ou dor?

A vegetação estava em uma área segura?

Então o que seu cachorro realmente está dizendo quando come grama?

Talvez, na maioria das vezes, ele não esteja tentando dizer nada.

Essa é justamente a parte que contraria a interpretação mais conhecida.

O grande estudo com cães que consumiam plantas mostrou que apenas uma pequena porcentagem apresentava frequentemente sinais de doença antes do comportamento.

O vômito também não era a consequência habitual.

E, quando pesquisadores provocaram um distúrbio gastrointestinal leve experimentalmente, os cães não passaram a procurar mais grama.

Por isso, ver um cachorro saudável mastigando alguns fios durante um passeio não significa automaticamente que exista dor de estômago escondida.

Em muitos casos, pode simplesmente ser parte daquilo que cães fazem.

O que realmente merece atenção é a mudança.

Um animal que sempre beliscou grama ocasionalmente é diferente daquele que começa subitamente a devorá-la, apresenta vômitos repetidos, perde o apetite, saliva muito ou demonstra dor.

No fim, existe uma pergunta muito melhor do que apenas “por que ele está comendo grama?”.

O que mais está acontecendo com meu cachorro enquanto ele faz isso?

A grama sozinha conta muito pouco

Um cachorro disposto, com apetite normal, que mastiga alguns fios ocasionalmente apresenta uma situação muito diferente de um animal que muda de comportamento e passa a comer vegetação insistentemente junto com outros sinais de mal-estar. É o conjunto, e não apenas o gramado, que ajuda a entender quando algo merece atenção.

Fontes e estudos citados

Sueda KLC, Hart BL, Cliff KD. Characterisation of plant eating in dogs. Applied Animal Behaviour Science. 2008;111(1-2):120-132. DOI: 10.1016/j.applanim.2007.05.018.

McKenzie SJ, Brown WY, Price IR. Reduction in grass eating behaviours in the domestic dog, Canis familiaris, in response to a mild gastrointestinal disturbance. Applied Animal Behaviour Science. 2010;123(1-2):51-55. DOI: 10.1016/j.applanim.2009.12.003.

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Ana Clara de Oliveira

Ana Clara de Oliveira produz conteúdos sobre animais, cuidados, comportamento, curiosidades e convivência com pets, sempre com foco em informação simples e útil para o dia a dia.