Um levantamento sobre a vacinação contra o sarampo no Brasil revela diferenças preocupantes entre os municípios em 2026. Em algumas cidades, menos de 10% das crianças que deveriam receber a vacina foram imunizadas no primeiro semestre. Quando considerada a segunda dose, há município com cobertura de apenas 1%.
Os dados, referentes ao período de janeiro a junho, foram levantados pela plataforma ImpulsoGov a partir das informações do painel de coberturas vacinais do Ministério da Saúde.
A análise considera a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola. A primeira dose é recomendada aos 12 meses de idade. A segunda deve ser aplicada aos 15 meses e também pode ser feita por meio da vacina tetraviral, que acrescenta proteção contra a varicela.
O Programa Nacional de Imunizações estabelece como referência uma cobertura de 95% da população-alvo. Em diversos municípios brasileiros, entretanto, os percentuais registrados no primeiro semestre ficaram muito distantes desse patamar.
Serra Azul aparece com apenas 7% na primeira dose
O menor percentual para a primeira dose foi identificado em Serra Azul, no estado de São Paulo. O município, com 13.108 habitantes, registrou cobertura de apenas 7% entre as crianças de 12 meses consideradas público-alvo.
Segundo o levantamento, foram registradas apenas três aplicações da vacina, enquanto a estimativa era de que pelo menos 45 crianças deveriam ter sido imunizadas naquele período.
Capela de Santana e Portão, ambas no Rio Grande do Sul, aparecem logo depois, com cobertura de 10%. Artur Nogueira, em São Paulo, registrou 12%, e Balneário Barra do Sul, em Santa Catarina, 14%.
Menores coberturas da primeira dose
Percentual da população-alvo imunizada entre janeiro e junho de 2026
As 20 cidades com menor cobertura na primeira dose
| Pos. | Município | Cobertura |
|---|---|---|
| 1 | Serra Azul (SP) | 7% |
| 2 | Capela de Santana (RS) | 10% |
| 3 | Portão (RS) | 10% |
| 4 | Artur Nogueira (SP) | 12% |
| 5 | Balneário Barra do Sul (SC) | 14% |
| 6 | Central do Maranhão (MA) | 17% |
| 7 | Amparo do Serra (MG) | 18% |
| 8 | Campestre da Serra (RS) | 20% |
| 9 | Santa Tereza de Goiás (GO) | 22% |
| 10 | André da Rocha (RS) | 22% |
| 11 | Portelândia (GO) | 24% |
| 12 | Pratápolis (MG) | 24% |
| 13 | Rio Doce (MG) | 25% |
| 14 | Toropi (RS) | 25% |
| 15 | Cerro Grande (RS) | 27% |
| 16 | Miguel Leão (PI) | 27% |
| 17 | Aurilândia (GO) | 27% |
| 18 | Biquinhas (MG) | 29% |
| 19 | Palmópolis (MG) | 29% |
| 20 | Alto Alegre (SP) | 29% |
Ribeirão Preto tem a menor cobertura entre cidades com mais de 100 mil habitantes
O levantamento também separou os municípios com população superior a 100 mil habitantes. Nesse recorte, Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, aparece na pior posição para a primeira dose.
A cidade registrou cobertura de 37%. Foram contabilizadas 1.377 doses diante de uma população-alvo estimada em 3.711 crianças.
Mesmo sendo um percentual muito superior aos 7% de Serra Azul, Ribeirão Preto permanece 58 pontos percentuais abaixo da meta de 95% estabelecida pelo PNI.
Sertãozinho aparece em seguida, com 46%. Simões Filho, na Bahia, registra 53%, enquanto Santo André, em São Paulo, apresenta 54%.
Grandes cidades mais distantes da meta
Primeira dose da tríplice viral
Ranking das grandes cidades na primeira dose
| Pos. | Município | Cobertura |
|---|---|---|
| 1 | Ribeirão Preto (SP) | 37% |
| 2 | Sertãozinho (SP) | 46% |
| 3 | Simões Filho (BA) | 53% |
| 4 | Santo André (SP) | 54% |
| 5 | Belford Roxo (RJ) | 58% |
| 6 | Trindade (GO) | 62% |
| 7 | Breves (PA) | 63% |
| 8 | Santarém (PA) | 67% |
| 9 | São José de Ribamar (MA) | 68% |
| 10 | Itaituba (PA) | 69% |
| 11 | Paulista (PE) | 69% |
| 12 | Novo Gama (GO) | 69% |
| 13 | Olinda (PE) | 70% |
| 14 | Franca (SP) | 70% |
| 15 | Feira de Santana (BA) | 70% |
| 16 | Timon (MA) | 70% |
| 17 | Santa Rita (PB) | 70% |
| 18 | Sapucaia do Sul (RS) | 70% |
| 19 | Caxias (MA) | 71% |
| 20 | Lauro de Freitas (BA) | 72% |
Segunda dose preocupa ainda mais e chega a apenas 1%
Os percentuais ficam ainda menores quando o levantamento analisa a segunda dose da vacina tríplice viral.
Em Capela de Santana, no Rio Grande do Sul, a cobertura cai dos já baixos 10% registrados na primeira dose para somente 1% na segunda. O município registrou uma aplicação, diante de uma estimativa de pelo menos 72 crianças a serem vacinadas.
Coronel José Dias, no Piauí, Santa Cruz do Arari, no Pará, e Serra Azul, em São Paulo, aparecem em seguida, todos com apenas 4% de cobertura.
Juliana Ramalho, gerente de Saúde Pública e Relações Governamentais da ImpulsoGov, aponta o abandono ou atraso do esquema vacinal como uma das principais preocupações reveladas pelos números.
Depois do primeiro ano de vida, as crianças geralmente passam a frequentar menos os serviços de saúde, o que pode contribuir para que famílias esqueçam ou adiem doses previstas no calendário.
Primeira e segunda dose mostram queda em várias cidades
Cobertura da 1ª e da 2ª dose
Comparação em cidades que aparecem nos dois levantamentos
As 20 menores coberturas da segunda dose
| Pos. | Município | Cobertura |
|---|---|---|
| 1 | Capela de Santana (RS) | 1% |
| 2 | Coronel José Dias (PI) | 4% |
| 3 | Santa Cruz do Arari (PA) | 4% |
| 4 | Serra Azul (SP) | 4% |
| 5 | Artur Nogueira (SP) | 7% |
| 6 | Portão (RS) | 8% |
| 7 | Miguel Leão (PI) | 9% |
| 8 | Cerro Branco (RS) | 9% |
| 9 | Turibá (SP) | 11% |
| 10 | André da Rocha (RS) | 11% |
| 11 | Balneário Barra do Sul (SC) | 13% |
| 12 | Central do Maranhão (MA) | 13% |
| 13 | Lourdes (SP) | 14% |
| 14 | Alto Bela Vista (SC) | 14% |
| 15 | Amparo do Serra (MG) | 15% |
| 16 | Matopólis (MG) | 15% |
| 17 | Flora Rica (SP) | 17% |
| 18 | Tufilândia (MA) | 17% |
| 19 | Milton Brandão (PI) | 17% |
| 20 | Sud Mennucci (SP) | 18% |
Entre cidades grandes, Ribeirão Preto também lidera pior resultado da segunda dose
Ribeirão Preto volta a ocupar a primeira posição quando são consideradas apenas cidades com mais de 100 mil habitantes e a segunda dose da vacina.
A cobertura registrada foi de 31%, seguida por Franca, também em São Paulo, com 38%. Breves, no Pará, e Belford Roxo, no Rio de Janeiro, apresentam 39%.
| Pos. | Município | Cobertura |
|---|---|---|
| 1 | Ribeirão Preto (SP) | 31% |
| 2 | Franca (SP) | 38% |
| 3 | Breves (PA) | 39% |
| 4 | Belford Roxo (RJ) | 39% |
| 5 | Sertãozinho (SP) | 40% |
| 6 | Santarém (PA) | 42% |
| 7 | Timon (MA) | 42% |
| 8 | Santo André (SP) | 44% |
| 9 | São José de Ribamar (MA) | 44% |
| 10 | Simões Filho (BA) | 45% |
| 11 | Paulista (PE) | 45% |
| 12 | Olinda (PE) | 46% |
| 13 | São Leopoldo (RS) | 47% |
| 14 | Itaituba (PA) | 47% |
| 15 | São João de Meriti (RJ) | 48% |
| 16 | Japeri (RJ) | 48% |
| 17 | Planaltina (GO) | 48% |
| 18 | Trindade (GO) | 49% |
| 19 | Magé (RJ) | 49% |
| 20 | Santa Rita (PB) | 49% |
Cobertura não significa percentual de todos os moradores vacinados
Os números exigem uma interpretação cuidadosa. A cobertura apresentada no levantamento não representa o percentual da população total de cada município que recebeu a vacina.
O cálculo considera apenas a população-alvo estimada. Para a primeira dose, são as crianças com 12 meses. Para a segunda, as crianças com 15 meses.
Além disso, os registros são atribuídos ao município onde a criança mora, mesmo quando a vacinação ocorre em outra cidade.
Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, ressalta que dados administrativos de vacinação podem sofrer interferências relacionadas à notificação das doses, transmissão das informações ao sistema nacional e diferenças entre sistemas utilizados por municípios e pelo Ministério da Saúde.
Por isso, percentuais muito baixos não devem ser interpretados isoladamente como uma fotografia perfeita da situação real de cada cidade. Falhas ou atrasos no registro também podem influenciar os números.
Meta de 95% busca impedir que o vírus encontre bolsões vulneráveis
Especialistas destacam que, além de aumentar a média nacional, é necessário que a vacinação tenha distribuição homogênea pelo território.
Isso significa alcançar percentuais elevados em praticamente todas as cidades e aplicar as doses nas idades recomendadas.
Uma criança que recebe as doses com meses de atraso passa um período maior sem a proteção esperada. Por isso, completar o calendário apenas posteriormente não elimina o intervalo em que ela permaneceu suscetível.
O problema ganha importância especial no caso do sarampo porque o vírus é extremamente transmissível.
Segundo os especialistas citados no levantamento, uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para até 90% das pessoas próximas que não tenham imunidade.
O que é o sarampo e como ocorre a transmissão
O sarampo é uma infecção viral altamente contagiosa transmitida principalmente por secreções respiratórias e partículas liberadas no ar por uma pessoa infectada ao respirar, falar, tossir ou espirrar.
Entre os sinais mais conhecidos estão febre, tosse, coriza, irritação nos olhos e manchas avermelhadas na pele. A doença pode provocar complicações, especialmente em crianças pequenas e pessoas mais vulneráveis.
Como o vírus se espalha com facilidade, locais com grupos de crianças não vacinadas ou com esquema incompleto podem favorecer novas cadeias de transmissão.
Primeira dose aos 12 meses e segunda aos 15 meses
12 meses: primeira dose da tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola.
15 meses: segunda dose, que pode ser aplicada também por meio da tetraviral, com proteção adicional contra varicela.
A orientação destacada pelos especialistas é não apenas completar as doses, mas fazê-las no momento previsto no calendário de vacinação.
Brasil havia recuperado certificado de país livre do sarampo
O Brasil recebeu novamente, em 2024, a certificação de país livre da circulação endêmica do sarampo. Isso não significa, porém, que casos importados ou cadeias pontuais de transmissão não possam ocorrer.
Até o período considerado na reportagem, haviam sido contabilizados 24 casos da doença no país.
Para os especialistas, justamente porque o número ainda é relativamente pequeno, manter a vacinação elevada é fundamental para impedir que casos isolados encontrem grandes grupos de pessoas suscetíveis.
O risco também não fica limitado aos municípios com cobertura baixa. Pessoas circulam entre cidades e estados, permitindo que uma infecção introduzida em uma região alcance outras localidades.
Mesmo municípios pequenos podem apresentar condições para circulação do vírus quando existe um grupo suficientemente grande de crianças sem proteção.
Bolsões de baixa vacinação são o principal alerta dos dados
O levantamento mostra que o desafio brasileiro não está apenas em atingir uma boa média nacional de vacinação. A preocupação está também na existência de bolsões localizados com coberturas muito inferiores aos 95% considerados necessários pelo programa de imunização.
Em alguns municípios, os percentuais registrados para a primeira dose ficam abaixo de 10%. Na segunda dose, a situação é ainda mais crítica, chegando a apenas 1% em um dos municípios analisados.
Apesar das limitações existentes nos sistemas administrativos de registro, especialistas defendem que os números funcionam como sinal para que gestores revisem dados, identifiquem crianças com doses atrasadas e reforcem estratégias de vacinação.
A combinação de um vírus altamente transmissível com grupos de pessoas sem imunidade é justamente o cenário que pode permitir que o sarampo volte a encontrar espaço para circular.




