Comprar uma casa em uma cidade histórica da Itália pelo preço simbólico de 1 euro parece o tipo de anúncio que exige uma segunda leitura. Desta vez, a oportunidade está em Naro, município medieval da Sicília localizado na província de Agrigento.
A cidade colocou em funcionamento um novo programa para recuperar imóveis abandonados ou degradados, combater a perda de moradores e estimular a chegada de novos residentes, empreendedores e investidores.
Estrangeiros também podem participar, o que coloca brasileiros entre os potenciais interessados. Mas existe uma diferença fundamental entre comprar a casa por €1 e conseguir deixar aquela propriedade pronta para morar.
O euro é apenas o preço simbólico de aquisição. Reforma, projetos técnicos, impostos, custos de cartório, eventuais adequações estruturais e uma garantia financeira relacionada às obras permanecem por conta do comprador.
A casa custa €1, mas a operação inteira não
O objetivo do programa não é simplesmente transferir imóveis vazios para novos proprietários. Quem compra assume o compromisso de recuperar a propriedade e dar uma nova utilização ao imóvel.

Por que uma cidade venderia uma casa por apenas 1 euro?
A resposta está menos no mercado imobiliário e mais na demografia de pequenos municípios europeus.
Durante décadas, jovens deixaram vilas e cidades do interior em busca de emprego, estudo e melhores oportunidades nos grandes centros. Algumas propriedades ficaram vazias, outras passaram para herdeiros que moram longe e muitas acabaram sem manutenção.
Quando isso ocorre em grande escala, surge uma sequência de problemas: prédios se deterioram, ruas perdem moradores, negócios fecham e o município precisa lidar com imóveis que podem até representar risco estrutural.
Os programas de casas por €1 tentam inverter essa lógica.
Em vez de permitir que uma propriedade permaneça abandonada, o proprietário aceita transferi-la por um valor praticamente simbólico para alguém disposto a investir na recuperação.
Em Naro, o município atua como facilitador e organizador do processo. O Comune não precisa necessariamente se tornar proprietário de cada imóvel. O sistema conecta proprietários interessados em vender com pessoas interessadas em recuperar as construções.
Naro criou até um portal próprio para as casas
Um dos diferenciais do novo programa é a criação de uma plataforma digital específica.
O sistema separa quem deseja colocar uma propriedade no projeto de quem deseja comprar.
Os imóveis admitidos no catálogo recebem um código individual, permitindo que cada candidatura esteja relacionada claramente a uma determinada construção.
As páginas dos imóveis podem trazer fotografias, endereço ou localização e informações básicas sobre o estado da propriedade.
Isso, porém, não substitui uma avaliação técnica.
Antes de assumir uma casa antiga que necessita de grandes intervenções, o interessado precisa verificar estrutura, telhado, instalações, documentação, limitações urbanísticas e possíveis regras de preservação.
Como o processo funciona
Imóvel entra no catálogo após verificação
Interessado escolhe uma propriedade
Candidatura e proposta são enviadas
Documentação e projeto são avaliados
Compra e recuperação seguem as regras do programa
Brasileiros podem participar?
Sim. O programa não é limitado aos moradores de Naro nem apenas a cidadãos italianos.
Podem participar pessoas físicas maiores de idade, incluindo estrangeiros, e também pessoas jurídicas, como empresas, cooperativas, associações e fundações, desde que atendam às exigências estabelecidas para a candidatura.
Isso significa que um brasileiro pode se candidatar mesmo sem possuir cidadania italiana.
Existe, porém, uma diferença muito importante que deve ser compreendida desde o início: ter direito de comprar um imóvel na Itália não significa automaticamente ter direito de morar permanentemente no país.
A questão migratória é separada da aquisição imobiliária.
A propriedade pode virar muito mais do que uma residência
Outro ponto interessante é a flexibilidade na utilização do imóvel recuperado.
Desde que a destinação seja permitida pelas normas urbanísticas e pelas características da propriedade, o projeto admite diferentes possibilidades.
Para quem realmente pretende estabelecer residência na região.
A propriedade pode funcionar como casa de férias, respeitadas as condições do programa.
Há possibilidade de projetos de B&B, guest house ou outras formas de hospedagem permitidas.
Lojas, oficinas artesanais e outras atividades podem ser consideradas.
O imóvel também pode receber determinadas atividades empresariais, culturais ou associativas.

Onde está a parte cara de uma casa de €1?
É aqui que a proposta precisa ser analisada com mais cuidado.
O preço simbólico não elimina os gastos normais de uma operação imobiliária e muito menos o custo de recuperar uma construção que ficou anos sem manutenção.
| Despesa | Quem paga | O que considerar |
|---|---|---|
| Preço do imóvel | Comprador | €1 no modelo simbólico do programa |
| Notário | Comprador | Escritura e formalização da transferência |
| Impostos e registros | Comprador | Tributos de registro e cadastrais aplicáveis |
| Projeto técnico | Comprador | Arquiteto, engenheiro, levantamentos e documentação |
| Reforma | Comprador | Pode ser de longe a maior despesa da operação |
| Garantia financeira | Comprador | O programa prevê fidejussão bancária ou securitária relacionada à realização das obras |
O número mais enganoso é justamente o €1
Ele representa o valor simbólico da propriedade, não o investimento necessário para transformá-la em uma casa habitável ou em um negócio em funcionamento.
Quanto pode custar a reforma?
Não existe um valor único, porque cada imóvel pode estar em condições completamente diferentes.
Uma casa que necessita apenas de reforma interna é muito diferente de outra que exige intervenção em telhado, estrutura, fundação, fachada, instalações elétricas e hidráulicas.
Levantamentos citados pela imprensa britânica sobre programas semelhantes na Itália colocam reformas de propriedades desse tipo em uma faixa aproximada de €20 mil a €50 mil em alguns casos.
Corretores também costumam utilizar uma referência próxima de €1.000 por metro quadrado para reformas importantes, mas esse número não funciona como tabela oficial e pode subir bastante dependendo da situação.
Um exemplo apenas para entender a conta
preço simbólico
documentação e impostos
projeto e profissionais
dezenas de milhares de euros em obras, conforme o imóvel
Os custos de reforma são referências gerais de mercado, não orçamento oficial do programa de Naro.
Por que existe uma garantia bancária ou de seguro?
Uma prefeitura que cria um programa desses não quer simplesmente trocar o nome do proprietário de um prédio abandonado.
Se alguém pudesse comprar a casa por €1 e depois deixá-la vazia durante décadas, o problema original continuaria existindo.
Por isso, o programa de Naro prevê uma fidejussão, que pode ser bancária ou securitária, para garantir o compromisso de iniciar e concluir a recuperação nos prazos previstos.
O comprador também precisa preparar um projeto coerente com as normas urbanísticas, de segurança e, quando aplicável, de preservação arquitetônica e paisagística.
Quanto mais antigo for o imóvel, maior pode ser a importância de contratar um profissional local que conheça as regras da região.

Não basta preencher um formulário e receber a chave
A inscrição online é apenas o início.
O interessado deve escolher uma propriedade disponível, identificar seu código, apresentar os dados solicitados e indicar aquilo que pretende fazer com o imóvel.
O formulário completo do portal permite informar pontos como:
- destinação pretendida para a propriedade;
- estimativa de investimento;
- cronograma das obras;
- descrição da proposta de recuperação;
- possível uso de materiais locais ou soluções de construção sustentável;
- melhorias de eficiência energética;
- recuperação de elementos históricos;
- possível geração de trabalho na região;
- disposição para transferir residência ou iniciar atividade no município.
A candidatura não cria automaticamente direito sobre a casa. A documentação e a proposta passam por avaliação.
Vale visitar o imóvel antes?
Mesmo quando não existe obrigação de estar fisicamente na cidade nas primeiras etapas, comprar uma construção antiga sem uma avaliação técnica seria uma decisão de alto risco.
Fotografias podem mostrar fachada, cômodos e localização, mas não revelam necessariamente infiltrações, condição do telhado, estabilidade estrutural, irregularidades cadastrais ou custos de recuperação.
Um imóvel de €1 que precisa de €30 mil em obras pode ser um bom projeto para uma pessoa e um péssimo negócio para outra.
Por isso, antes da assinatura definitiva, a avaliação de um arquiteto, engenheiro ou profissional habilitado na Itália pode ser muito mais importante do que o próprio preço anunciado.

Naro não é uma vila completamente isolada
A cidade fica no interior da província de Agrigento e preserva uma identidade histórica fortemente ligada à arquitetura medieval e barroca.
Naro é conhecida pelo Castelo Chiaramontano, pelas igrejas históricas, pelas ruas antigas e por sua posição elevada sobre a paisagem siciliana.
Segundo informações do próprio município, sua localização permite vistas que alcançam diferentes partes da Sicília e até áreas costeiras.
A cidade fica relativamente próxima de Agrigento, da famosa região arqueológica do Vale dos Templos e das praias do sul da ilha.
Para alguém pensando em turismo, hospedagem ou segunda residência, essa localização pode fazer diferença.
Mussomeli mostra o que esse tipo de programa pode fazer com uma cidade
Naro não é o primeiro município siciliano a apostar nessa estratégia.
Um dos exemplos mais conhecidos é Mussomeli, também localizada no interior da Sicília.
O município enfrentava abandono de propriedades e redução da população, mas passou a atrair compradores estrangeiros com seu próprio programa.
Segundo dados divulgados pela imprensa, cerca de 600 propriedades foram adquiridas por estrangeiros, sendo aproximadamente 180 dentro do modelo de €1.
Hoje, moradores de diversas nacionalidades vivem na região, enquanto cafés, pousadas e outros negócios surgiram acompanhando a chegada de novos proprietários e visitantes.
Isso não significa que o mesmo resultado esteja garantido em Naro, mas ajuda a entender por que pequenas cidades italianas continuam aderindo ao modelo.
Comprar a casa não dá automaticamente residência italiana
Esse é um dos pontos mais importantes para brasileiros interessados no programa.
Um cidadão brasileiro pode comprar uma propriedade e continuar sendo apenas proprietário de um imóvel na Itália.
Isso, por si só, não cria cidadania, visto de longa permanência ou autorização para viver indefinidamente no país.
Brasileiros que entram na área Schengen para turismo podem permanecer por até 90 dias dentro de um período de 180 dias, observadas as regras migratórias aplicáveis.
Para permanecer na Itália por um período superior, normalmente será necessário enquadrar-se em alguma categoria de visto nacional e posteriormente cumprir os procedimentos relacionados à autorização de residência.
Casa própria e direito de residência são coisas diferentes
Você pode ser proprietário de uma casa na Itália sem ter autorização para morar permanentemente no país. A situação migratória precisa ser resolvida separadamente.
E quem tem ascendência italiana?
As regras de reconhecimento da cidadania italiana por descendência passaram por uma mudança importante em 2025.
O Decreto-Lei nº 36/2025, posteriormente convertido na Lei nº 74/2025, introduziu limitações relevantes para pessoas que nasceram fora da Itália e também possuem outra cidadania.
Entre as situações atualmente previstas, o reconhecimento pode depender da existência de pai, mãe, avô ou avó que possua ou possuísse exclusivamente a cidadania italiana, ou de determinadas condições de residência na Itália cumpridas pelo genitor italiano.
Isso tornou inadequada a antiga ideia de que qualquer pessoa com um antepassado italiano distante necessariamente teria hoje o mesmo caminho para o reconhecimento.
Quem possui ascendência italiana precisa analisar sua árvore familiar e as datas do caso de acordo com a legislação atual.
Aposentados e pessoas com renda própria têm outra possibilidade
A Itália possui o chamado visto de residência eletiva, destinado a pessoas que possuem recursos financeiros próprios suficientes para viver no país sem depender de trabalho.
A modalidade é frequentemente utilizada por aposentados e pessoas com rendimentos provenientes de patrimônio, investimentos, aluguéis ou outras fontes estáveis.
Um detalhe é fundamental: esse visto não é destinado a alguém que pretende depender de trabalho ativo para se sustentar na Itália.
Além de demonstrar recursos econômicos significativos, o solicitante precisa comprovar moradia adequada no país.
Consulados italianos utilizam referências financeiras que podem ficar na faixa de aproximadamente €31 mil a €32 mil por ano para um requerente individual, mas os critérios e documentos devem sempre ser conferidos no consulado responsável pelo endereço do interessado.
Existe também o visto para nômades digitais
Para determinados profissionais que trabalham remotamente, existe ainda a categoria italiana destinada a nômades digitais e trabalhadores remotos altamente qualificados.
Não basta simplesmente ter um emprego que possa ser realizado pelo notebook.
Entre os requisitos estão qualificação profissional compatível, experiência anterior na atividade, renda mínima comprovada, seguro de saúde e acomodação adequada na Itália.
A documentação oficial também exige, em regra, pelo menos seis meses de experiência profissional anterior na atividade que será realizada remotamente.
Os critérios financeiros podem ser atualizados e são calculados com base nas regras italianas aplicáveis, por isso o valor deve ser conferido no momento da solicitação.
Antes de se candidatar, faça estas contas
Peça uma avaliação técnica e não tente calcular o orçamento apenas observando fotografias.
Construções antigas podem revelar problemas somente depois que as obras começam.
A destinação muda o projeto, as licenças necessárias e o investimento.
Comprar uma casa não permite automaticamente estabelecer residência permanente.
O programa existe justamente para recuperar os imóveis, por isso o compromisso com as obras faz parte da operação.
Compare o custo final estimado com imóveis já habitáveis na mesma região. O preço simbólico sozinho não deve decidir a compra.
A oportunidade existe, mas o verdadeiro negócio está na reforma
O programa de Naro é real e está aberto também para interessados estrangeiros.
A possibilidade de adquirir uma propriedade por €1 chama atenção, mas o modelo funciona justamente porque o novo proprietário assume uma responsabilidade muito maior do que entregar uma moeda na prefeitura.
O comprador precisa transformar uma construção abandonada em algo novamente utilizável.
Para algumas pessoas, investir dezenas de milhares de euros para recuperar uma casa histórica na Sicília pode fazer sentido, principalmente quando o objetivo é morar, passar temporadas ou desenvolver uma atividade turística.
Para outras, comprar um imóvel já reformado poderá acabar sendo mais simples e até financeiramente mais previsível.
O euro abre a porta. É o que vem depois dele que determina se a casa siciliana é realmente uma oportunidade.



