Paraná tem 176 cidades sem nenhuma agência bancária após fechamento de 667 unidades em dez anos

O avanço dos serviços bancários digitais mudou profundamente a presença física dos bancos no Paraná. Entre 2015 e 2025, 667 agências bancárias fecharam as portas no estado e, ao fim do período, 176 dos 399 municípios paranaenses já não possuíam nenhuma agência física em funcionamento.

Os dados fazem parte de um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o Dieese. Ao longo da década, 237 municípios do Paraná perderam pelo menos uma unidade bancária.

Curitiba liderou o número de fechamentos, com 192 agências encerradas. Londrina perdeu 37 unidades, Maringá 27, Cascavel 15 e Foz do Iguaçu 10.

CidadeAgências fechadas entre 2015 e 2025
Curitiba192
Londrina37
Maringá27
Cascavel15
Foz do Iguaçu10

Cerca de 450 mil paranaenses vivem em cidades sem agência

A redução da rede física não atinge apenas grandes centros. Até o final de 2025, aproximadamente 450 mil moradores do Paraná viviam em municípios sem nenhuma agência bancária.

No cenário nacional, o levantamento identificou 2.649 municípios nessa situação, reunindo 19.670.525 habitantes sem uma unidade bancária física na cidade onde vivem.

Os cerca de 450 mil paranaenses representam aproximadamente 2,29% desse contingente nacional.

83% das transações bancárias já são digitais

A migração de clientes para celulares e internet banking ajuda a explicar parte do fechamento das agências.

Segundo dados da Federação Brasileira de Bancos, a Febraban, cerca de 83% das transações bancárias realizadas no Brasil em 2025 ocorreram por canais digitais.

Somente as operações realizadas por celular chegaram a 187,5 bilhões.

Para Alexandra Andrade de Almeida Cardoso, professora dos cursos da área de Gestão do Centro Universitário Integrado, de Campo Mourão, a transformação não pode ser atribuída apenas à tecnologia. Ela também reflete uma mudança no próprio modelo de funcionamento das instituições financeiras.

Com cada vez mais serviços sendo feitos remotamente, estruturas físicas com aluguel, funcionários, segurança, equipamentos e outros custos operacionais passaram a ter menor peso para atividades de rotina.

As grandes cidades, por concentrarem historicamente um número maior de agências, também acabaram registrando uma parcela significativa dos fechamentos.

Agências passaram a concentrar atendimentos mais complexos

A mudança também alterou o tipo de serviço feito presencialmente.

Operações simples, como pagamentos, transferências, consultas e movimentações de rotina, migraram em grande parte para aplicativos e internet banking. Com isso, as agências que permanecem abertas passaram a concentrar principalmente situações mais complexas ou clientes que precisam de orientação direta.

Isso permite que uma mesma unidade atenda um número elevado de clientes sem necessariamente registrar o mesmo volume de operações presenciais de anos atrás.

O problema aparece principalmente entre pessoas que não conseguiram acompanhar essa migração para o ambiente digital.

Idosos e moradores de áreas rurais podem enfrentar mais dificuldades

Entre os grupos mais afetados estão idosos, beneficiários de programas sociais e parte da população rural.

As dificuldades podem envolver acesso precário à internet, pouca familiaridade com aplicativos, receio de golpes e fraudes digitais e necessidade de ajuda para realizar determinadas operações.

Quando não existe uma agência na própria cidade, o problema pode gerar custos adicionais. O cliente pode precisar viajar para outro município, perder horas no deslocamento ou depender da ajuda de terceiros para movimentar sua conta.

Segundo Alexandra Andrade, esse cenário pode criar uma espécie de exclusão financeira digital: a pessoa continua tendo uma conta bancária, mas encontra obstáculos para utilizá-la plenamente.

Para a especialista, o ganho de eficiência proporcionado pela tecnologia é evidente, mas precisa ser acompanhado de alternativas para consumidores que ainda necessitam de atendimento presencial.

Ficar sem agência não significa ficar completamente sem serviços financeiros

A ausência de uma agência tradicional não significa necessariamente que o município esteja totalmente desconectado do sistema financeiro.

Correspondentes bancários regulamentados pelo Banco Central permitem realizar pagamentos, recebimentos e outras operações. Também existem caixas eletrônicos, casas lotéricas e canais digitais.

Outra alternativa que vem crescendo no Paraná são as cooperativas de crédito.

Dados do Sistema Ocepar indicam que essas instituições estão presentes em 376 dos 399 municípios paranaenses.

Presença das cooperativas: elas já alcançam aproximadamente 94% dos municípios do Paraná, segundo os dados apresentados pelo Sistema Ocepar.

Cooperativas ocupam espaço deixado por bancos tradicionais

Para Marcelo Vieira Martins, diretor executivo da cooperativa Unicred União, o cooperativismo passou a exercer papel relevante especialmente em cidades menores.

Segundo ele, em quase 20% dos municípios brasileiros uma cooperativa é o único local onde o consumidor encontra atendimento presencial para serviços como abertura de conta, contratação de crédito ou realização de investimentos.

As próprias cooperativas também utilizam atendimento digital. A Unicred, por exemplo, mantém a Agência Mais, serviço que funciona por WhatsApp, telefone, e-mail e chat.

A proposta, segundo a instituição, é combinar atendimento remoto com contato humano, evitando que o cliente dependa exclusivamente de sistemas automatizados.

Atendimento presencial ainda tem espaço mesmo com avanço dos aplicativos

Apesar da rápida expansão dos canais digitais, especialistas avaliam que a agência física continua relevante para uma parcela dos consumidores.

Questões como confiança, segurança e necessidade de orientação pesam especialmente quando o cliente precisa tomar decisões financeiras mais complexas.

O cenário dos últimos dez anos mostra, porém, que a rede tradicional de agências está ficando menor. Com 667 unidades fechadas no Paraná entre 2015 e 2025 e 176 municípios já sem nenhuma agência bancária, o desafio passa a ser conciliar a eficiência da digitalização com alternativas de atendimento para quem ainda depende do contato presencial.

Avatar photo

João Pedro Rafannelli

João Pedro Rafannelli acompanha os principais acontecimentos do Brasil, com foco em notícias, decisões, fatos relevantes e temas que impactam diretamente o dia a dia da população.