Uma nova e abrangente pesquisa realizada por cientistas da Austrália acaba de sacudir os alicerces da psiquiatria moderna. O estudo, uma meta-meta-análise publicada recentemente, revela que a atividade física não é apenas um complemento, mas uma intervenção tão poderosa quanto medicamentos e psicoterapia.
Os pesquisadores analisaram dados de 79.551 participantes em mais de mil estudos individuais. O objetivo era claro: medir com precisão cirúrgica como o movimento do corpo altera a mente. E os resultados mostram que o exercício atua em frentes biológicas, psicológicas e sociais simultaneamente.
A ciência por trás do movimento
Para entender por que o suor ajuda a mente, precisamos olhar para o cérebro. Segundo o médico neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), o exercício funciona como um guia para quem sofre de depressão.
A doença costuma destruir a capacidade de organização e iniciativa do paciente. Mas, quando o exercício tem horário e repetição, ele regula o ciclo sono-vigília e favorece a neuroplasticidade. É uma forma de dizer ao cérebro que a pessoa ainda tem controle.
Do ponto de vista químico, remédios e exercícios buscam o mesmo destino, mas pegam caminhos diferentes. Enquanto o fármaco foca em uma via química específica, a atividade física ativa redes metabólicas, hormonais e inflamatórias muito mais amplas.
O treino certo para cada diagnóstico
A pesquisa identificou que não existe uma fórmula mágica, mas sim estratégias específicas. Para quem luta contra a depressão, os exercícios aeróbicos em grupo, como caminhada ou corrida, apresentaram os melhores resultados.
O segredo aqui parece ser o componente social. O sentimento de pertencimento potencializa o efeito antidepressivo. Já para quadros de ansiedade, programas de baixa intensidade e curta duração, de até oito semanas, mostraram-se mais eficazes para reduzir sintomas rapidamente.
O médico ortopedista Diego Munhoz, formado pela USP, destaca que atividades como ciclismo e natação geram uma sensação de melhora rápida. Isso reforça a autoestima e ajuda o paciente a não abandonar o tratamento precocemente.
Grupos que mais sentem o benefício
Embora o benefício seja universal, dois grupos específicos brilharam nos dados. O primeiro são os jovens adultos entre 18 e 30 anos, fase comum para o surgimento de transtornos. O segundo são as mulheres no pós-parto.
Para as novas mães, o exercício foi classificado como uma estratégia de baixo risco e alto benefício. É uma alternativa segura que protege a saúde mental materna sem os efeitos colaterais que alguns medicamentos poderiam trazer nesse período sensível.
Além da biologia, existe o fator do isolamento. Quando estamos sozinhos, os circuitos da dor emocional ficam mais reativos. O exercício em grupo ativa o chamado “cérebro social”, reduzindo a autocrítica e a ruminação negativa que alimentam a depressão.
Por que os médicos ainda prescrevem pouco?
Mesmo com evidências esmagadoras, a atividade física ainda é vista por muitos como um “extra” e não como tratamento base. Os autores do estudo defendem que médicos devem prescrever treinos com a mesma segurança que prescrevem uma receita de farmácia.
Mas é preciso cuidado para não transformar o exercício em uma obrigação rígida ou motivo de culpa. A ideia é que ele seja adaptado à realidade de cada um. Muitas vezes, a melhor saída não é escolher entre o remédio e o treino, mas sim combinar as duas forças.
O que este estudo prova é que o corpo e a mente não são gavetas separadas. Tratar um exige movimentar o outro. O próximo passo é levar essa consciência para dentro dos consultórios de forma definitiva e prática.
