Chá faz mesmo bem à saúde? A ciência separa o que fica na xícara do que virou promessa

Verde, preto, branco, oolong ou matcha. O chá está entre as bebidas mais consumidas do mundo e, com o passar dos anos, ganhou uma lista impressionante de promessas: proteger o coração, ajudar a emagrecer, prevenir doenças, melhorar o metabolismo e até promover o famoso “detox”.

Mas quando essas afirmações são colocadas diante dos estudos científicos, nem todas resistem da mesma maneira.

A ciência encontrou sinais interessantes envolvendo principalmente pressão arterial, função dos vasos sanguíneos e alguns compostos presentes nas folhas. Ao mesmo tempo, existem diferenças importantes entre tomar uma xícara de chá, consumir grandes quantidades da bebida e usar extratos concentrados vendidos como suplementos.

E é justamente nessa separação que a história fica mais interessante.

Tudo começa na mesma planta

Chá verde, preto, branco, oolong e matcha vêm da Camellia sinensis. O que muda é principalmente a forma como as folhas são cultivadas e processadas.

Verde, preto e matcha não são simplesmente a mesma bebida

Embora tenham a mesma origem botânica, os diferentes tipos de chá apresentam composições distintas.

O chá verde preserva quantidade relevante de catequinas, grupo que inclui a conhecida EGCG. No chá preto, o processamento favorece a presença de compostos como teaflavinas e tearubiginas.

O matcha apresenta outra característica: como a folha é transformada em pó e consumida junto com a bebida, não se trata apenas de uma infusão convencional.

Essas diferenças ajudam a explicar por que cada variedade costuma ser estudada de maneira diferente. Mas nenhuma delas recebeu da ciência um certificado de “bebida milagrosa”.

Um dos resultados mais interessantes apareceu na pressão arterial

Uma grande meta-análise publicada em 2025 no European Journal of Preventive Cardiology reuniu 145 estudos randomizados envolvendo 5.205 participantes.

O trabalho analisou o efeito dos chamados flavan-3-óis, compostos presentes não apenas no chá, mas também em alimentos como cacau, maçã e uva, além de alguns extratos utilizados nos estudos.

Esse detalhe é importante porque os resultados não podem ser atribuídos exclusivamente à xícara de chá.

No conjunto das pesquisas, o consumo repetido desses compostos apareceu associado a uma redução média de aproximadamente 2,8 mmHg na pressão sistólica e 2,0 mmHg na diastólica.

Também houve melhora em uma medida chamada dilatação mediada pelo fluxo, utilizada para avaliar a capacidade do endotélio de participar do relaxamento dos vasos sanguíneos.

Os efeitos sobre a pressão pareceram mais pronunciados entre pessoas que já começavam os estudos com valores mais elevados.

E quanto chá apareceu nos estudos?

Nos ensaios que avaliaram especificamente a bebida, o consumo médio ficou próximo de 700 ml por dia, algo equivalente aproximadamente a duas ou três xícaras grandes.

Isso não transforma o chá em medicamento para hipertensão. As reduções observadas são modestas e não justificam abandonar tratamentos prescritos.

O próprio contexto da meta-análise também merece ser conhecido. O estudo recebeu apoio de pesquisa não vinculado da Lipton Teas & Infusions, e entre os autores havia vínculos profissionais com Lipton e Unilever.

Isso não invalida automaticamente os resultados, mas é uma informação relevante na interpretação das evidências.

Quase 2 milhões de pessoas trouxeram outra pista

Outro trabalho, publicado em 2024, reuniu 38 conjuntos de dados prospectivos provenientes de 27 estudos, envolvendo quase 1,96 milhão de pessoas.

Na comparação com quem não tomava chá, o consumo em torno de uma xícara e meia a duas xícaras por dia apareceu associado a menor mortalidade geral e cardiovascular.

Por volta de duas xícaras diárias, a diferença relativa na mortalidade por todas as causas ficou próxima de 9%.

Mas existe uma palavra fundamental aqui: associação.

Esse tipo de pesquisa observa grandes grupos ao longo do tempo. Portanto, não consegue provar sozinho que o chá provocou a diferença encontrada.

Pessoas que tomam chá podem apresentar outras características relacionadas à saúde, como alimentação diferente, menor consumo de cigarro, maior atividade física ou condições sociais distintas.

Por isso, o resultado é interessante, mas não permite dizer que beber determinada quantidade de chá fará alguém viver mais.

Mais chá não significa necessariamente mais benefício

Os estudos também não indicam uma relação simples em que cada xícara adicional aumenta progressivamente a proteção.

Não existe uma dose universal de chá capaz de garantir um determinado efeito.

A quantidade de compostos presentes na bebida pode mudar conforme a variedade da folha, o cultivo, o processamento, a temperatura da água e até o tempo de infusão.

E existe outro detalhe que frequentemente passa despercebido: aquilo que é acrescentado à bebida.

Uma xícara de chá sem açúcar praticamente não adiciona calorias. Mas versões cheias de açúcar, xaropes, cremes e outros ingredientes podem se transformar em bebidas completamente diferentes do ponto de vista nutricional.

A cafeína também entra na conta

Chá contém cafeína, embora a quantidade possa variar bastante entre os tipos e preparações.

Para adultos saudáveis, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos considera que uma ingestão total de até 400 mg de cafeína por dia, considerando todas as fontes, geralmente não representa preocupação de segurança.

Durante a gravidez, a referência prudencial citada cai para 200 mg por dia.

Isso não significa que todas as pessoas tolerem essas quantidades igualmente.

Quem apresenta insônia, ansiedade, palpitações ou refluxo pode perceber efeitos desagradáveis com doses bem menores.

O horário da xícara pode importar para quem tem deficiência de ferro

Os polifenóis presentes no chá podem interferir na absorção do ferro não heme, encontrado principalmente em alimentos de origem vegetal.

Para pessoas com deficiência de ferro ou anemia, pode ser recomendável evitar o consumo da bebida junto às principais refeições, conforme a orientação do profissional que acompanha o caso.

Para quem não apresenta esse problema, não significa que o chá precise ser eliminado da alimentação.

Existe ainda um risco que não depende da cor do chá

Há um cuidado relacionado à temperatura.

A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, a IARC, considera como muito quentes as bebidas consumidas acima de aproximadamente 65 °C e classifica o consumo de bebidas em temperaturas muito elevadas como provavelmente carcinogênico para o esôfago.

O problema, portanto, não é específico do chá. Está ligado principalmente ao contato repetido de líquidos muito quentes com o tecido do esôfago.

Esperar alguns minutos antes de beber pode ser uma atitude simples para reduzir essa exposição.

Uma cápsula de extrato não equivale a uma xícara

Outro ponto importante aparece quando a bebida tradicional é transformada em suplemento.

O National Center for Complementary and Integrative Health, dos Estados Unidos, chama atenção para raros relatos de lesões no fígado associados principalmente a extratos concentrados de chá verde.

Isso ajuda a mostrar por que não se deve tratar uma infusão e um suplemento concentrado como se fossem a mesma coisa.

A quantidade e a forma como os compostos chegam ao organismo podem ser completamente diferentes.

E o famoso “detox”?

Aqui as promessas se distanciam bastante das evidências.

Não há necessidade de beber chá para “limpar toxinas” acumuladas no organismo. Fígado, rins, pulmões e outros sistemas já participam continuamente da eliminação e transformação de substâncias.

Isso não significa que o chá seja inútil. Significa apenas que seu possível valor está muito mais próximo de pequenos efeitos fisiológicos e de seu lugar dentro de uma alimentação saudável do que das promessas extraordinárias frequentemente associadas à bebida.

Para a maioria dos adultos saudáveis que tolera cafeína, duas ou três xícaras sem excesso de açúcar podem perfeitamente fazer parte da rotina.

O que os estudos sugerem até agora é menos espetacular do que a propaganda, mas talvez mais interessante: a xícara pode oferecer compostos bioativos e alguns efeitos modestos, enquanto a maior parte das promessas milagrosas continua precisando de muito mais evidência.

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Murilo Tavares

Murilo Tavares dos Santos é redator especializado em curiosidades, cultura, comportamento, ciência e fatos pouco conhecidos. Produz conteúdos leves e informativos, com foco em histórias surpreendentes, explicações simples e temas capazes de despertar a curiosidade do leitor.