Para muita gente, o café é simplesmente o combustível das primeiras horas do dia. Para outras pessoas, acompanha o almoço, o trabalho e até pequenas pausas durante a tarde. Agora, um estudo realizado na Finlândia acrescentou uma curiosidade inesperada à bebida: quem consumia mais café apresentava, em média, menos gordura corporal e visceral e maior massa muscular esquelética.
O resultado chama ainda mais atenção porque o índice de massa corporal, o conhecido IMC, era semelhante entre os grupos.
Isso significa que duas pessoas poderiam apresentar números parecidos quando peso e altura eram comparados, enquanto a composição do corpo contava uma história diferente.
Mas existe uma ressalva fundamental. O estudo não demonstrou que beber café faz perder gordura ou ganhar músculos. Ele encontrou uma associação entre o consumo habitual da bebida e determinadas características corporais, metabólicas e hormonais.
O que chamou atenção
As pessoas que estavam nos grupos de maior consumo de café apresentavam menor percentual de gordura, menos gordura visceral e mais massa muscular esquelética, embora o IMC permanecesse semelhante entre os grupos.
Mais de 2.200 pessoas da mesma geração foram avaliadas
A pesquisa foi conduzida por cientistas ligados principalmente à Universidade de Oulu, na Finlândia, e publicada em 2026 no European Journal of Nutrition.
O trabalho utilizou informações da Northern Finland Birth Cohort 1966, uma grande pesquisa que acompanha pessoas nascidas no norte da Finlândia desde a década de 1960.
Para essa análise, foram incluídos 2.264 homens e mulheres avaliados aos 46 anos. Cerca de 47% eram homens.
Os participantes informaram quantas xícaras de café costumavam beber diariamente, enquanto os pesquisadores analisaram composição corporal, marcadores metabólicos e hormônios presentes no sangue.
Também foram considerados fatores capazes de interferir nos resultados, como atividade física, tabagismo, consumo de álcool, escolaridade e IMC.
Quem bebia mais café tinha uma composição corporal diferente
O ponto mais curioso apareceu quando os pesquisadores deixaram de olhar apenas para o peso e passaram a observar como aquele peso estava distribuído.
Os grupos com maior consumo de café apresentavam menor percentual de gordura corporal, menor massa de gordura total e menor área de gordura visceral.
Ao mesmo tempo, apresentavam maior massa muscular esquelética.
O IMC, entretanto, não mostrou uma diferença equivalente.
Essa distinção é importante porque o IMC utiliza apenas peso e altura. Ele não consegue mostrar diretamente quanto do peso corresponde a músculo ou gordura.
Também não mostra onde a gordura está localizada.
A gordura visceral merece atenção especial porque se acumula dentro do abdômen, ao redor dos órgãos, e apresenta características metabólicas diferentes da gordura localizada logo abaixo da pele.
Os pesquisadores mediram a composição corporal por bioimpedância, método útil em grandes estudos populacionais, mas que também possui limitações e não equivale a uma medição direta dos tecidos.
Isso quer dizer que café emagrece?
Não.
Esse é justamente o cuidado mais importante ao interpretar os resultados.
O estudo foi transversal. Em termos simples, os pesquisadores observaram as pessoas em determinado momento e compararam seus hábitos de consumo de café com características encontradas no corpo e no sangue.
Eles não escolheram pessoas aleatoriamente para tomar cinco xícaras de café por dia e depois acompanharam se essas pessoas perderiam gordura ou ganhariam músculos.
Portanto, não é possível afirmar que o café provocou as diferenças.
Mesmo com os ajustes estatísticos, podem existir características não completamente capturadas pelo estudo que diferenciam quem bebe pouco café de quem consome várias xícaras diariamente.
Os pesquisadores também encontraram diferenças no sangue
A composição corporal foi apenas uma parte do estudo.
Os cientistas analisaram uma grande quantidade de marcadores metabólicos e encontraram uma relação interessante com os chamados aminoácidos de cadeia ramificada, conhecidos como BCAAs.
Leucina, isoleucina e valina fazem parte desse grupo. Eles são aminoácidos essenciais e desempenham funções importantes no organismo.
Entretanto, concentrações persistentemente elevadas desses aminoácidos circulando no sangue têm sido associadas em outros estudos a alterações metabólicas, incluindo resistência à insulina.
Na pesquisa finlandesa, um consumo maior de café apareceu associado a concentrações mais baixas de alguns desses aminoácidos.
O padrão foi observado nos dois sexos, embora várias associações metabólicas tenham sido mais evidentes entre os homens.
Nos homens, insulina também chamou atenção
Entre os participantes do sexo masculino, quem consumia mais café apresentou um padrão considerado mais favorável em algumas medidas relacionadas à glicose e à insulina.
O maior consumo apareceu relacionado a menores concentrações de insulina em jejum e durante testes de tolerância à glicose, além de indicadores compatíveis com maior sensibilidade à insulina.
Nas mulheres, as associações foram menos extensas.
Novamente, isso não significa que aumentar o café funcione como tratamento para resistência à insulina ou diabetes. O desenho da pesquisa não permite chegar a essa conclusão.
Café e testosterona apresentaram uma relação mais complicada
Os hormônios sexuais trouxeram outra surpresa.
Nos homens, o maior consumo de café foi associado a níveis mais altos de testosterona total, testosterona biodisponível e SHBG, proteína que transporta hormônios sexuais no sangue.
Mas isso não significa simplesmente que “café aumenta testosterona”.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores encontraram associações com menores níveis de testosterona livre e menor índice de andrógenos livres.
Depois dos ajustes por IMC, atividade física, tabagismo, álcool e escolaridade, parte desse padrão permaneceu.
Nas mulheres, os resultados foram diferentes. O consumo de café apareceu associado principalmente a níveis mais altos de SHBG e valores menores de testosterona livre e do índice de andrógenos livres.
Mais café não significa automaticamente mais testosterona
Testosterona total, testosterona livre, fração biodisponível e SHBG representam aspectos diferentes do sistema hormonal. Por isso, transformar os resultados em uma frase simples sobre “aumento da testosterona” seria enganoso.
O grupo que mais bebia café consumia pelo menos 5 xícaras por dia
Para descrever os participantes, os pesquisadores dividiram o consumo em grupos.
Havia pessoas que não bebiam café, consumidores de 1 a 2 xícaras por dia, participantes que relatavam 3 a 4 xícaras e um grupo de consumo elevado, com 5 ou mais xícaras diariamente.
Isso não deve ser interpretado como uma recomendação para beber cinco cafés por dia.
A própria pesquisa não permite determinar uma quantidade ideal de café para modificar composição corporal ou metabolismo.
Além disso, o questionário utilizado não estabeleceu um tamanho padronizado para cada xícara, outro detalhe que precisa ser lembrado ao interpretar os números.
Ainda falta a experiência capaz de responder a pergunta principal
O estudo oferece uma fotografia interessante de uma grande população da mesma idade.
Quem relatava maior consumo habitual de café tendia a apresentar menos gordura total, menos gordura visceral e mais massa muscular esquelética, mesmo com IMC semelhante.
Também apareceram diferenças em aminoácidos, metabolismo da glicose e hormônios sexuais.
Mas a pergunta mais interessante continua sem resposta: foi realmente o café que produziu essas diferenças?
Para chegar mais perto dessa resposta serão necessários estudos longitudinais e, principalmente, ensaios de intervenção nos quais pesquisadores controlem a quantidade de café consumida e acompanhem o que acontece ao organismo ao longo do tempo.
Até lá, os resultados não justificam aumentar deliberadamente o consumo de café para emagrecer ou ganhar massa muscular.
O estudo mostra uma associação bastante curiosa. A prova de que o café é o responsável por ela ainda precisa ser encontrada.




