Você toma café todos os dias? Estudo com 2.264 pessoas aos 46 anos encontrou uma diferença no corpo que chamou atenção

Para muita gente, o café entra na rotina quase no automático. Uma xícara ao acordar, outra depois do almoço e, em alguns casos, mais algumas ao longo do dia.

Mas o que acontece quando pesquisadores colocam lado a lado pessoas que praticamente não bebem café e aquelas que chegam a consumir várias xícaras diariamente?

Um estudo publicado em 2026 na European Journal of Nutrition analisou 2.264 finlandeses que tinham exatamente 46 anos e encontrou uma diferença curiosa na composição corporal dos participantes.

E havia um detalhe particularmente interessante: o índice de massa corporal, o conhecido IMC, era semelhante entre os grupos.

Mesmo assim, quando os pesquisadores olharam além do peso e calcularam separadamente gordura corporal, gordura visceral e massa muscular esquelética, começaram a aparecer diferenças relacionadas ao consumo habitual de café.

O estudo ainda encontrou alterações em aminoácidos presentes no sangue e um padrão hormonal diferente entre homens e mulheres.

Antes de transformar o resultado em uma desculpa para encher a cafeteira, porém, existe uma informação fundamental: essa pesquisa encontrou associações, não provou que o café tenha provocado essas diferenças.

A balança podia mostrar algo parecido enquanto o corpo escondia outra diferença

Os grupos apresentaram IMC semelhante, mas os participantes que relatavam maior consumo de café também apresentavam diferenças na quantidade de gordura e massa muscular estimadas pelos pesquisadores.

Xícara de café vista de cima
O consumo habitual de café foi comparado com medidas corporais, metabólicas e hormonais. Foto: kemal can acartürk/Pexels.

Os pesquisadores aproveitaram uma oportunidade difícil de encontrar

Uma das características interessantes dessa pesquisa é a origem dos participantes.

Eles fazem parte da Northern Finland Birth Cohort 1966, um grande projeto que acompanha pessoas nascidas no norte da Finlândia desde a década de 1960.

Para esta análise, os cientistas utilizaram informações coletadas quando os participantes tinham 46 anos.

Isso reduz um problema comum em estudos desse tipo: comparar pessoas de idades muito diferentes.

A amostra final reuniu 2.264 participantes, sendo aproximadamente 47% homens.

Os pesquisadores perguntaram quantas xícaras de café as pessoas costumavam consumir diariamente e dividiram os participantes em quatro grupos para algumas comparações.

70

Não consumidores de café.

296

Consumiam 1 a 2 xícaras por dia.

822

Consumiam 3 a 4 xícaras diariamente.

1.076

Relatavam pelo menos 5 xícaras por dia.

Há um detalhe importante nessa classificação.

O questionário perguntava quantas “xícaras” eram consumidas, mas não estabelecia um volume exato para cada xícara.

Portanto, cinco xícaras na pesquisa não devem ser automaticamente convertidas para determinada quantidade de mililitros ou cafeína.

Além disso, o estudo não coletou informações detalhadas sobre torra, tipo de grão ou quanto leite e açúcar cada pessoa colocava na bebida.

Entre aqueles para os quais havia informação sobre o método de preparo, o café filtrado era disparadamente o mais comum.

Foi quando olharam além do peso que apareceu o resultado mais curioso

Se os pesquisadores tivessem observado apenas o IMC, uma parte importante da história poderia ter passado despercebida.

O índice de massa corporal, a circunferência da cintura e outras medidas antropométricas eram relativamente semelhantes entre as diferentes categorias de consumo.

Mas a avaliação da composição corporal contou outra história.

Quanto maior a categoria de consumo habitual de café, os pesquisadores observaram tendências de:

Menor percentual de gordura corporal

Os grupos que bebiam mais café apresentaram menor proporção de gordura na avaliação realizada.

Menor massa de gordura total

A quantidade absoluta estimada de tecido adiposo também foi menor.

Menor área de gordura visceral

A gordura localizada ao redor de órgãos internos também apresentou diferença entre os grupos.

Maior massa muscular esquelética

Os maiores consumidores apresentaram mais massa muscular estimada na análise corporal.

Isso não significa que o café “transformou gordura em músculo”.

Também não significa que beber várias xícaras diariamente seja uma estratégia comprovada para ganhar massa muscular.

O que o estudo mostrou foi uma associação entre consumo habitual e um perfil corporal mais magro naquela população.

Avaliação de gordura corporal feita com adipômetro
Composição corporal vai além do número mostrado pela balança e pode separar gordura e outros componentes do corpo. Foto: Daniel Dan/Pexels.

Como duas pessoas com IMC parecido podem ter corpos diferentes?

Esse é um dos motivos pelos quais o resultado chamou atenção.

O IMC considera basicamente peso e altura.

Ele não consegue distinguir diretamente quanto daquele peso corresponde a gordura e quanto corresponde a músculos e outros tecidos.

Por exemplo, duas pessoas podem apresentar o mesmo IMC e ainda assim ter composições corporais diferentes.

Uma pode carregar uma proporção maior de gordura.

A outra pode ter mais massa muscular.

No estudo finlandês, foi justamente esse tipo de diferença que apareceu quando os pesquisadores olharam além do IMC.

MedidaO que aconteceu entre as categorias de café
IMCPermaneceu semelhante entre os grupos.
Percentual de gordura corporalFoi menor nas categorias de maior consumo.
Massa de gorduraTambém apresentou valores menores.
Gordura visceralApresentou tendência menor nos maiores consumidores.
Massa muscular esqueléticaFoi maior nas categorias de consumo mais elevado.

Mas existe uma limitação importante na maneira como isso foi medido

A composição corporal foi estimada utilizando bioimpedância elétrica.

Esse método envia uma corrente elétrica extremamente pequena pelo corpo e utiliza características da condução para estimar diferentes compartimentos corporais.

É um recurso bastante utilizado, inclusive em pesquisas.

Mas não é uma medição direta da quantidade de gordura ou músculo.

Os próprios autores destacam essa limitação porque resultados de bioimpedância dependem de pressupostos relacionados, entre outros fatores, à quantidade de água corporal e à condutividade dos tecidos.

Portanto, o estudo detectou um padrão consistente entre os grupos, mas isso não transforma cada número estimado em uma medida perfeita da composição corporal.

O resultado é interessante, mas não mostra café construindo músculos

Os pesquisadores observaram as pessoas em um determinado momento da vida. Eles não distribuíram café aleatoriamente durante anos para descobrir se a bebida faria alguém ganhar músculo ou perder gordura.

Por que um estudo desse tipo não consegue provar causa e efeito?

Porque estamos diante de uma análise transversal e observacional.

Os pesquisadores mediram características dos participantes e compararam essas informações com o consumo habitual de café.

Depois, utilizaram modelos estatísticos para levar em consideração diferenças importantes, como:

IMC
Atividade física
Tabagismo
Álcool
Escolaridade

Esse ajuste torna a comparação mais robusta.

Mesmo assim, não consegue eliminar todas as possíveis diferenças entre quem bebe muito café e quem bebe pouco.

Um exemplo aparece no próprio estudo.

Os maiores consumidores de café apresentavam maior proporção de fumantes e diferenças na escolaridade.

Também podem existir características alimentares, genéticas, ocupacionais ou de rotina que não foram totalmente captadas.

Portanto, existem pelo menos duas possibilidades.

O café pode realmente participar de alguns dos mecanismos observados.

Ou parte das diferenças pode estar relacionada a outras características das pessoas que bebem determinadas quantidades da bebida.

É exatamente por isso que os autores pedem estudos longitudinais e intervenções controladas antes de estabelecer causalidade.

Mulher trabalhando no computador enquanto bebe café
Pessoas que bebem quantidades diferentes de café também podem ter rotinas e estilos de vida diferentes, algo que estudos observacionais precisam tentar controlar. Foto: Ling App/Pexels.

O sangue revelou outra diferença entre quem bebia mais café

A pesquisa não parou na composição corporal.

Os cientistas utilizaram análises metabólicas para observar diversas moléculas circulando no sangue.

Uma das relações que apareceu tanto em homens quanto em mulheres envolveu os chamados aminoácidos de cadeia ramificada, ou BCAAs.

Esse grupo inclui leucina, isoleucina e valina.

São aminoácidos importantes para o organismo e não devem ser tratados como substâncias ruins.

O que chama atenção em estudos metabólicos é outra coisa: concentrações circulantes persistentemente elevadas de BCAAs aparecem associadas em diferentes pesquisas à resistência à insulina e ao risco futuro de diabetes tipo 2.

No estudo finlandês, quanto maior o consumo de café, menores tendiam a ser as concentrações circulantes desses aminoácidos.

Os autores consideraram esse achado especialmente interessante porque a relação apareceu nos dois sexos.

Isso significa que café reduz o risco de diabetes porque baixa BCAA?

Não dá para fazer essa conclusão.

O estudo encontrou uma correlação entre café e esses marcadores.

Não demonstrou uma sequência na qual a pessoa bebe café, os BCAAs caem e, por causa disso, o risco de diabetes diminui.

É justamente esse tipo de mecanismo que precisaria ser testado em pesquisas desenhadas especificamente para responder à pergunta.

Entre os homens da amostra, porém, o maior consumo de café também apareceu associado a alguns indicadores mais favoráveis envolvendo glicose e insulina.

Isso oferece uma pista interessante, não uma prova de tratamento ou prevenção.

Grãos de café dentro e ao redor de uma xícara
O café contém centenas de compostos, e a pesquisa não conseguiu determinar qual deles poderia estar relacionado às associações encontradas. Foto: Connor Scott McManus/Pexels.

Nos homens, o café também apareceu relacionado à testosterona

Essa foi outra parte bastante curiosa do trabalho.

Depois de ajustar os modelos para fatores como IMC, atividade física, tabagismo, álcool e escolaridade, os pesquisadores encontraram nos homens um padrão hormonal específico.

A cada maior nível de consumo, houve associação com:

Marcador nos homensAssociação com maior consumo de café
Testosterona totalMaior.
SHBGMaior.
Testosterona livreMenor.
Índice de andrógenos livresMenor.

Pode parecer contraditório ter testosterona total maior e testosterona livre menor ao mesmo tempo.

Mas existe uma explicação possível.

A SHBG, globulina ligadora de hormônios sexuais, é uma proteína que se liga fortemente à testosterona no sangue.

Quando a quantidade de SHBG muda, a relação entre testosterona total e frações livres também pode mudar.

Por isso, olhar apenas para um dos números pode produzir uma interpretação enganosa.

O estudo não mostra que homens deveriam tomar café para aumentar testosterona, nem que café seja tratamento hormonal.

Nas mulheres, o padrão foi diferente

Entre as mulheres, as associações hormonais foram mais limitadas.

O maior consumo apareceu associado a níveis mais altos de SHBG e valores menores de testosterona livre e do índice de andrógenos livres.

Não houve associação significativa com testosterona total ou testosterona biologicamente disponível no modelo completamente ajustado.

Essa diferença entre homens e mulheres foi um dos motivos pelos quais os autores chamaram atenção para um possível perfil metabólico e hormonal específico de cada sexo.

Novamente, trata-se de associação.

O estudo não demonstra que o café esteja controlando diretamente a produção hormonal.

Mais testosterona total não significou simplesmente “mais testosterona disponível”

Nos homens, a pesquisa encontrou simultaneamente testosterona total e SHBG mais altas, enquanto algumas medidas de testosterona livre eram menores. O padrão hormonal é mais complexo do que uma única medição.

O café poderia realmente ter alguma relação com gordura corporal?

Existem mecanismos biologicamente plausíveis que fazem pesquisadores continuarem estudando essa possibilidade.

A cafeína bloqueia receptores de adenosina e pode provocar alterações temporárias no sistema nervoso simpático.

Estudos experimentais mostram efeitos agudos sobre gasto energético, termogênese e oxidação de gordura.

Também existem ensaios de duração menor nos quais determinadas intervenções com café ou cafeína produziram mudanças modestas em medidas relacionadas à gordura corporal.

Mas existe uma distância importante entre mostrar que uma substância aumenta temporariamente o gasto energético e concluir que quem bebe café durante décadas terá automaticamente menos gordura.

O corpo possui mecanismos de adaptação.

A tolerância à cafeína varia.

Alimentação, sono, atividade física e genética continuam participando da composição corporal.

Por isso, os mecanismos oferecem uma hipótese para explicar a associação, não a confirmação de que todo o resultado seja causado pelo café.

Homem e mulher realizando exercícios em academia
Massa muscular depende de diversos fatores, especialmente atividade física e estímulo muscular, e o estudo não mostrou que o café substitua nenhum deles. Foto: Shuvalova Natalia/Pexels.

Então quem bebe cinco ou mais xícaras deveria continuar?

A pesquisa não foi criada para responder essa pergunta.

A categoria de pelo menos cinco xícaras por dia serviu para classificar os hábitos já existentes dos participantes.

Ela não representa uma recomendação de consumo.

Os pesquisadores não pegaram pessoas que bebiam pouco café e pediram que aumentassem para cinco xícaras.

Também não estabeleceram qual quantidade produziria um suposto benefício.

Mais importante ainda: como o tamanho da xícara não foi padronizado, não é possível transformar essas categorias diretamente em uma dose determinada de cafeína.

Portanto, interpretar “o grupo de cinco xícaras apresentou determinada característica” como “cinco xícaras são a dose ideal” seria ir muito além dos dados.

Colocar açúcar, leite ou creme muda a história?

O estudo não coletou informações detalhadas suficientes para responder essa questão.

E isso é relevante.

O hábito chamado simplesmente de “tomar café” pode representar coisas bastante diferentes.

Uma pessoa bebe café filtrado sem açúcar.

Outra prepara uma bebida com leite.

Outra acrescenta açúcar várias vezes ao dia.

Outra utiliza bebidas prontas com xaropes e outros ingredientes.

Como esses detalhes não foram analisados de forma completa, não é adequado assumir que todas essas formas de consumo teriam necessariamente a mesma relação com os resultados.

O estudo consegue responder

Quem relatava beber mais café apresentava diferenças em composição corporal e alguns marcadores sanguíneos.

O estudo não consegue responder

Se começar a tomar café fará alguém perder gordura.

Se aumentar o consumo fará alguém ganhar músculo.

Qual quantidade de café seria ideal.

Qual composto da bebida explicaria as associações observadas.

Também existe um motivo para não transformar a descoberta em uma dieta do café

Quando uma pesquisa encontra um resultado curioso envolvendo um alimento popular, é muito fácil transformar associação em receita.

“Café dá músculo.”

“Café queima gordura.”

“Cinco xícaras emagrecem.”

Nenhuma dessas frases foi demonstrada pelo estudo.

A pesquisa analisou pessoas que já possuíam hábitos diferentes e observou padrões estatísticos.

Isso é cientificamente valioso porque gera hipóteses e ajuda a indicar quais mecanismos merecem ser investigados.

Mas o próximo passo é justamente descobrir se essas relações permanecem quando os pesquisadores conseguem acompanhar mudanças ao longo dos anos ou modificar o consumo de maneira controlada.

Mulher bebendo café enquanto olha pela janela
A pesquisa analisou hábitos que os participantes já possuíam e não determinou que eles aumentassem ou reduzissem o consumo de café. Foto: Mike Jones/Pexels.

O resultado mais interessante talvez esteja justamente no que a balança não mostrou

Os participantes tinham a mesma idade e apresentavam IMCs relativamente semelhantes entre as categorias de consumo.

Se a análise tivesse parado ali, seria fácil dizer que praticamente nada importante diferenciava os grupos em relação ao corpo.

Quando os pesquisadores separaram gordura corporal e massa muscular, porém, o cenário mudou.

Os maiores consumidores apresentavam menos gordura total, menos gordura visceral e mais massa muscular esquelética estimada.

No sangue, também surgiram diferenças nos aminoácidos de cadeia ramificada.

E os hormônios sexuais apresentaram padrões diferentes em homens e mulheres.

Tudo isso torna o café um candidato interessante para novas pesquisas sobre metabolismo.

Mas a conclusão mais importante talvez seja justamente aquela que exige mais cautela.

O estudo encontrou pessoas que bebiam mais café e tinham um perfil corporal diferente. Ainda não sabemos quanto dessa diferença veio realmente da bebida.

2.264 pessoas, a mesma idade e uma diferença que não aparecia simplesmente olhando o peso

Os maiores consumidores de café apresentaram um perfil corporal com menos gordura e mais massa muscular estimada, apesar de IMCs semelhantes. Também surgiram diferenças metabólicas e hormonais. O achado é interessante justamente porque abre uma nova pergunta, mas ainda não permite dizer que aumentar o café produzirá o mesmo resultado em outra pessoa.

Fonte científica

Verroest L, et al. Associations of habitual coffee intake with testosterone and cardiometabolic markers: the Northern Finland birth cohort 1966 study. European Journal of Nutrition. 2026;65:215. DOI: 10.1007/s00394-026-04038-z.

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Camila Fernanda Ribeiro da Luz

Camila Fernanda Ribeiro da Luz escreve sobre curiosidades, entretenimento, tendências e assuntos do cotidiano que despertam interesse e movimentam as conversas do dia a dia.