Um possível Super El Niño entre o fim de 2026 e o início de 2027 pode aumentar a pressão sobre os preços dos alimentos no Brasil e em outros países. O alerta consta de uma análise divulgada pelo JP Morgan, que aponta risco de impacto adicional sobre a inflação caso o fenômeno climático seja acompanhado por alta do petróleo, diesel e fertilizantes.
Segundo o banco, um El Niño forte poderia acrescentar sozinho cerca de 0,7 ponto percentual à inflação dos alimentos. Em um cenário mais adverso, com energia e insumos agrícolas também mais caros, o efeito poderia chegar a 1,3 a 1,5 ponto percentual.
O Brasil aparece entre os mercados emergentes considerados mais vulneráveis, ao lado de Índia, Indonésia e Colômbia.
Probabilidade de episódio muito forte chegou a 81%
O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos estimou, em julho, uma probabilidade de 81% de ocorrência de um episódio muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
A estimativa apontou ainda 97% de chance de o fenômeno persistir até o início de 2027.
O El Niño ocorre quando há aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial e pode alterar padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.
Quando o fenômeno ganha intensidade, essas mudanças podem atingir importantes áreas agrícolas e afetar produtividade, calendário de plantio e colheita e custos de produção.
Café, cacau, açúcar e arroz estão entre os produtos mais expostos
Entre as commodities agrícolas apontadas como mais vulneráveis estão café, cacau, açúcar e arroz.
O risco não significa necessariamente que todos esses produtos terão forte alta de preços. A preocupação está na possibilidade de condições climáticas adversas atingirem regiões produtoras importantes simultaneamente ou reduzirem a oferta esperada.
Uma produção menor pode elevar preços no mercado internacional e, posteriormente, atingir consumidores por meio do encarecimento de alimentos e matérias-primas utilizadas pela indústria.
Fertilizantes e diesel podem aumentar ainda mais a pressão
O clima não é o único fator acompanhado pelo mercado.
Os fertilizantes aparecem como outra fonte de risco devido às tensões no Oriente Médio e aos problemas que podem atingir o transporte pelo Estreito de Ormuz, rota relevante para o comércio internacional de energia e insumos agrícolas.
Uma eventual alta dos fertilizantes aumenta diretamente o custo de produção das lavouras. O diesel também pesa no preparo do solo, colheita, funcionamento de máquinas e transporte da produção.
Segundo a análise, esses aumentos não chegam imediatamente ao consumidor. Normalmente existe uma defasagem até que os custos maiores sejam incorporados às diferentes etapas da cadeia e apareçam nos preços finais.
Impacto pode ser bem maior se os fatores ocorrerem ao mesmo tempo
O cenário mais preocupante, portanto, não depende apenas da intensidade do El Niño. A combinação entre clima adverso e custos elevados de energia e insumos agrícolas é apontada como o principal fator capaz de ampliar a inflação.
Brasil está entre os mercados mais vulneráveis
O JP Morgan inclui o Brasil entre os países emergentes com maior exposição aos efeitos do fenômeno.
Uma das razões é o peso relevante dos alimentos no orçamento das famílias. Quando esses produtos ficam mais caros, o impacto é sentido de forma mais direta no custo de vida.
Além disso, a produção agrícola brasileira é altamente dependente das condições de chuva e temperatura, o que aumenta a sensibilidade do país a mudanças climáticas mais intensas.
Índia, Indonésia e Colômbia também aparecem na relação de mercados mais expostos apresentada pela instituição financeira.
Banco Central calcula efeito adicional sobre a inflação brasileira
Um estudo do Banco Central divulgado em junho também analisou os possíveis efeitos do El Niño sobre os preços no Brasil.
A estimativa citada aponta que o fenômeno poderia acrescentar cerca de 0,3 ponto percentual à inflação de 2026 e mais 0,4 ponto percentual em 2027.
Essas projeções são estimativas e podem mudar conforme a intensidade real do fenômeno, o comportamento das safras, os preços internacionais, a cotação do dólar e os custos de energia e fertilizantes.
Risco maior é de preços altos, não de falta generalizada de alimentos
Apesar do alerta, a análise não prevê um cenário de desabastecimento generalizado.
Os estoques internacionais de grãos e arroz ainda funcionam como uma reserva capaz de compensar parte de uma eventual redução da produção.
Isso significa que o principal risco apontado neste momento está relacionado ao encarecimento dos alimentos, e não necessariamente à falta dos produtos nas prateleiras.
Estoques maiores podem amortecer perdas de safra e evitar oscilações mais bruscas, mas não eliminam totalmente a possibilidade de aumentos de preços.
FAO também acompanha risco de nova pressão nos preços
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, também alertou neste mês para fatores que podem voltar a pressionar o custo global dos alimentos.
Entre eles estão conflitos internacionais, oferta de fertilizantes e riscos climáticos.
A combinação desses fatores com um El Niño de grande intensidade poderia prolongar a pressão inflacionária sobre os alimentos ao longo de 2027.
Por enquanto, as projeções representam cenários de risco. O impacto efetivo dependerá da intensidade e duração do fenômeno, das regiões agrícolas atingidas e do comportamento dos preços de energia e insumos nos próximos meses.




