O excesso de maquiagem acende um alerta entre cientistas, e a preocupação aumenta com o uso de cosméticos cada vez mais cedo

Maquiagem, protetor solar, perfume, hidratante, produtos para o cabelo, cuidados com a pele e outros cosméticos fazem parte da rotina de milhões de pessoas. O que vem chamando a atenção de pesquisadores não é necessariamente o uso de um produto isolado, mas a quantidade de substâncias diferentes às quais algumas pessoas podem ficar expostas todos os dias.

Dados apresentados em uma investigação da associação Cosmetics Europe indicam que mulheres espanholas e latinas utilizam, em média, nove produtos cosméticos diferentes por dia e 15 ao longo da semana. Entre jovens de 18 a 24 anos, esse número semanal chega a 16.

Ao mesmo tempo, o interesse por maquiagem e skincare começa cada vez mais cedo. A Sephora informou que o número de clientes com idades entre 9 e 12 anos dobrou nos últimos cinco anos.

É justamente essa combinação entre uso frequente, variedade de produtos e início precoce da exposição que está despertando preocupação entre pesquisadores que estudam substâncias capazes de interferir no sistema endócrino.

O alerta não significa que toda maquiagem seja perigosa

A preocupação dos pesquisadores está principalmente na exposição repetida a determinados compostos presentes em alguns cosméticos e produtos de cuidados pessoais, especialmente quando vários itens são utilizados simultaneamente e desde idades muito jovens.

Cosméticos apareceram no topo das notificações de produtos perigosos na Europa

Um dado citado no conteúdo ajuda a explicar por que o assunto ganhou atenção.

No relatório mais recente do Safety Gate, sistema europeu de alerta rápido para produtos não alimentares perigosos, os cosméticos representaram 36% das notificações de produtos que apresentavam riscos à saúde.

Isso não significa que 36% de todos os cosméticos vendidos sejam perigosos. O número se refere à participação dessa categoria entre os produtos que chegaram a ser notificados pelo sistema.

O mercado de beleza utiliza uma enorme diversidade de ingredientes. Entre aqueles estudados por possíveis efeitos sobre o organismo aparecem grupos como bisfenóis, ftalatos, benzofenonas e determinados parabenos.

Mariana Fernández Cabrera, professora da Universidade de Granada e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Biossanitária de Granada, chama atenção principalmente para o crescimento na quantidade e na variedade de substâncias químicas aplicadas diariamente sobre a pele.

Segundo ela, a questão merece atenção especial entre adolescentes e crianças, que passaram a incorporar rotinas de skincare e maquiagem cada vez mais cedo.

Diversos produtos de maquiagem expostos sobre uma bancada
O alerta científico está relacionado principalmente à exposição repetida a diferentes compostos presentes em produtos cosméticos. Foto: AS Photography / Wikimedia Commons, CC0.

O problema não está apenas no que é passado sobre a pele

Cosméticos podem entrar em contato com o organismo de maneiras diferentes.

No caso de produtos aplicados sobre a pele, Fernández Cabrera destaca que determinados compostos podem atravessar a barreira cutânea e alcançar a circulação, dependendo de características como a substância, concentração, formulação e condições da própria pele.

Existe ainda uma segunda via de exposição que chama atenção dos pesquisadores: a inalação de substâncias voláteis presentes em perfumes e fragrâncias.

Nicolás Olea, professor emérito de Radiologia e Medicina Física da Universidade de Granada, cita os ftalatos entre as moléculas utilizadas em determinadas formulações de fragrâncias.

Segundo ele, compostos voláteis de pequeno tamanho podem ser inalados, alcançar a mucosa nasal e entrar no organismo.

A exposição pode vir de vários produtos ao mesmo tempo

Perfume, hidratante, protetor solar, maquiagem, esmalte, produtos para cabelo e outros itens podem fazer parte da mesma rotina. Por isso, pesquisadores não observam apenas um cosmético isoladamente, mas também a exposição combinada ao longo do dia.

O estudo que colocou meninas de 4 a 8 anos no centro da discussão

Uma das pesquisas citadas analisou justamente a possível relação entre exposição a determinados disruptores endócrinos e desenvolvimento puberal precoce.

O trabalho, publicado na revista científica European Journal of Pediatrics, analisou amostras de urina de 310 meninas espanholas com idades entre 4 e 8 anos.

Entre elas, 182 apresentavam puberdade precoce, definida no estudo como início antes dos 8 anos, enquanto outras 128 não apresentavam essa condição.

Os pesquisadores encontraram concentrações mais elevadas de determinados disruptores endócrinos no grupo de meninas com desenvolvimento precoce.

Entre as substâncias mencionadas estavam o bisfenol A, conhecido como BPA, encontrado em diferentes materiais plásticos, e a benzofenona-3, ingrediente utilizado em determinados cosméticos e protetores solares.

Esse resultado mostra uma associação encontrada entre os grupos analisados. Ele não demonstra, por si só, que usar maquiagem ou protetor solar tenha causado a puberdade precoce.

Os pesquisadores também perguntaram às famílias quais produtos as meninas utilizavam

A análise não ficou limitada às amostras de urina.

As famílias responderam a questionários sobre os hábitos das crianças e o uso de diferentes produtos de cuidados pessoais.

Segundo Alicia Olivas, pesquisadora envolvida no estudo, as meninas do grupo que apresentava puberdade precoce também demonstravam maior utilização de produtos como:

Produtos de skincare e maquiagem

Rotinas de cuidados com a pele e itens de beleza utilizados diariamente ou várias vezes durante a semana.

Máscaras e condicionadores

Produtos voltados principalmente aos cuidados com o cabelo.

Esmaltes e batons

Produtos cosméticos que começam a aparecer nas rotinas de crianças cada vez mais jovens.

Protetores solares, perfumes e loções corporais

Itens de uso bastante diferente, mas que também aumentam o número total de produtos aplicados ou utilizados no cotidiano.

As diferenças de utilização apareceram tanto para produtos empregados diariamente quanto para aqueles usados diversas vezes durante a semana.

Prateleiras com vários produtos cosméticos e de cuidados com a pele
Uma rotina de cuidados pode envolver vários produtos diferentes no mesmo dia. Foto: ArionStar / Wikimedia Commons, CC0.

O que são os chamados disruptores endócrinos

O sistema endócrino utiliza hormônios para coordenar uma enorme variedade de funções do organismo.

Os chamados disruptores endócrinos são substâncias capazes de interferir de diferentes maneiras nesse sistema hormonal.

É justamente por isso que a exposição durante fases de desenvolvimento desperta tanto interesse entre pesquisadores.

Em crianças, o organismo ainda está passando por importantes processos de crescimento e maturação. Fernández Cabrera destaca que os mecanismos utilizados pelo corpo para metabolizar e eliminar determinadas substâncias também não funcionam exatamente da mesma maneira que em adultos.

Isso ajuda a explicar por que pesquisas envolvendo exposição precoce são tratadas com atenção especial.

Os primeiros sinais de desenvolvimento também vêm sendo observados mais cedo

Alicia Olivas chama atenção para outra mudança observada ao longo das últimas décadas: o aparecimento mais precoce dos primeiros sinais de desenvolvimento reprodutivo feminino.

Um dos principais marcadores é o surgimento do botão mamário.

Quando esse processo ocorre antes dos 8 anos, pode levar à investigação de puberdade precoce.

O estudo citado pelo conteúdo original buscou justamente compreender se determinados padrões de exposição ambiental e de uso de produtos poderiam estar associados a essas diferenças.

Associação não significa causa

Encontrar maior concentração de determinadas substâncias e maior utilização de produtos em um grupo não permite concluir que um cosmético específico provocou o desenvolvimento precoce. Outros fatores também podem estar envolvidos e precisam ser considerados.

Por que a puberdade precoce preocupa os pesquisadores

A discussão vai além da idade em que aparecem as primeiras mudanças corporais.

O conteúdo cita sociedades médicas como a Endocrine Society, dos Estados Unidos, e a Sociedade Europeia de Endocrinologia Pediátrica ao abordar associações entre puberdade precoce e maior vulnerabilidade a alguns problemas de saúde posteriormente.

Entre as condições mencionadas estão obesidade, diabetes, alterações da tireoide e determinados cânceres relacionados ao sistema reprodutivo e às mamas.

Fernández Cabrera explica que uma menina que inicia mais cedo sua exposição aos próprios hormônios sexuais passa por um período mais prolongado de atividade hormonal ao longo da vida.

A preocupação dos pesquisadores é entender como esse processo pode interagir com substâncias externas capazes de se comportar de maneira semelhante a hormônios ou interferir na sinalização endócrina.

O crescimento do skincare infantil adiciona uma nova camada ao problema

A maquiagem deixou de ser o único ponto da discussão.

Nos últimos anos, rotinas de skincare com várias etapas passaram a circular intensamente em vídeos curtos, redes sociais e conteúdos produzidos por influenciadores.

Isso significa que uma criança interessada em beleza pode não utilizar apenas um batom ou um esmalte ocasionalmente.

A rotina pode envolver diferentes cremes, séruns, máscaras, perfumes, protetores, produtos labiais e itens de maquiagem.

O dado da Sephora mostrando crescimento no número de consumidores de 9 a 12 anos ganha relevância justamente nesse cenário.

Quanto mais cedo começa uma rotina extensa, maior pode ser o período de exposição acumulada ao longo da vida.

Isso não torna todo produto destinado à pele inadequado para crianças. Protetores solares, por exemplo, possuem uma função completamente diferente de maquiagem ou cosméticos utilizados apenas por motivos estéticos.

O alerta dos pesquisadores se concentra na necessidade de observar quais produtos realmente são necessários e quantos ingredientes diferentes passam a fazer parte da rotina infantil.

Mais produtos não significam necessariamente mais cuidados

A indústria da beleza frequentemente apresenta novos passos para uma rotina: limpar, tonificar, hidratar, aplicar sérum, preparar a pele, perfumar, iluminar e corrigir.

Para o consumidor, isso pode criar a impressão de que uma rotina longa é automaticamente melhor.

Do ponto de vista da exposição química, porém, cada novo item acrescenta uma nova formulação.

Isso é particularmente relevante quando vários produtos possuem fragrâncias ou ingredientes de funções semelhantes.

O ponto central do alerta

Um produto isolado não representa necessariamente o mesmo cenário que uma rotina com muitos cosméticos.

A frequência importa porque alguns itens são utilizados diariamente.

A idade importa porque crianças estão em uma fase diferente de desenvolvimento.

A composição importa porque produtos aparentemente semelhantes podem utilizar ingredientes diferentes.

O alerta científico não pede que mulheres abandonem maquiagem

A discussão levantada pelos pesquisadores não precisa ser transformada em uma ideia de que maquiagem é, por definição, tóxica.

Cosméticos formam uma categoria extremamente ampla, com milhares de formulações e diferentes padrões regulatórios.

O que as pesquisas destacam é a importância de entender melhor a exposição cumulativa, a presença de determinados disruptores endócrinos e o início cada vez mais precoce do consumo de produtos de beleza.

Isso é especialmente importante quando crianças começam a reproduzir rotinas criadas originalmente para adultos.

Em vez de presumir que quanto mais produtos melhor, a discussão científica coloca uma pergunta diferente: quantos desses itens são realmente necessários?

A preocupação aumenta quando a rotina começa ainda na infância

Para adultos, usar maquiagem ou produtos de cuidados pessoais faz parte de escolhas individuais relacionadas à higiene, aparência e bem-estar.

Entre crianças, entretanto, o cenário é diferente.

Além de o organismo ainda estar em desenvolvimento, existe a possibilidade de uma exposição muito mais prolongada quando hábitos complexos de beleza começam aos 9, 10 ou 11 anos e continuam pela vida adulta.

É essa mudança de comportamento que os pesquisadores estão começando a acompanhar mais de perto.

O alerta, portanto, não está em um batom usado ocasionalmente ou em um único creme. Está na combinação de muitos produtos, uso frequente, exposição a determinados compostos e uma rotina de beleza que começa cada vez mais cedo.

Fontes e estudos citados

  • Pesquisa da associação Cosmetics Europe sobre hábitos de utilização de cosméticos entre consumidoras espanholas e latinas.
  • Safety Gate, sistema europeu de alerta rápido para produtos não alimentares perigosos, relatório citado sobre notificações envolvendo cosméticos.
  • Estudo liderado por Alicia Olivas, publicado em maio na revista científica European Journal of Pediatrics, com análise de disruptores endócrinos em amostras de urina de 310 meninas espanholas entre 4 e 8 anos.
  • Endocrine Society e Sociedade Europeia de Endocrinologia Pediátrica, citadas no conteúdo em relação aos possíveis impactos associados à puberdade precoce.
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Camila Fernanda Ribeiro da Luz

Camila Fernanda Ribeiro da Luz escreve sobre curiosidades, entretenimento, tendências e assuntos do cotidiano que despertam interesse e movimentam as conversas do dia a dia.