Leite, queijo e outros laticínios integrais carregam há décadas uma fama difícil de abandonar. Como possuem mais gordura saturada, muita gente presume que consumi-los regularmente inevitavelmente levaria ao aumento do peso e do colesterol.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, decidiu colocar justamente essa ideia à prova.
Durante 12 semanas, adultos com sobrepeso ou obesidade foram acompanhados enquanto seguiam diferentes estratégias alimentares. Dois dos grupos incluíram três porções de laticínios integrais por dia.
O que aconteceu com peso, gordura corporal, metabolismo e colesterol ao final do experimento trouxe informações importantes, mas também exige alguns cuidados antes de transformar o resultado em uma liberação geral para comer qualquer quantidade de queijo, manteiga ou outros alimentos ricos em gordura.
O estudo não avaliou qualquer pessoa
Participaram 74 adultos com sobrepeso ou obesidade, com idade média próxima de 36 anos. Portanto, os resultados não devem ser automaticamente extrapolados para todas as populações.
Como os pesquisadores fizeram o estudo
O trabalho foi liderado por Gerald Harvey Anderson, do Departamento de Ciências Nutricionais da Faculdade de Medicina Temerty, da Universidade de Toronto, e publicado em 2026 no The Journal of Nutrition.
Os 74 participantes foram distribuídos aleatoriamente em três grupos.
- Baixo consumo de laticínios com restrição calórica: redução de cerca de 500 kcal por dia e consumo de no máximo uma porção de laticínios com baixo teor de gordura.
- Três porções de laticínios integrais com compensação energética: os participantes acrescentaram três porções por dia, enquanto outras calorias foram reduzidas para evitar aumento da ingestão energética total.
- Três porções de laticínios integrais sem restrição calórica: os participantes acrescentaram as três porções à dieta sem orientação para reduzir calorias em outros alimentos.
Durante as 12 semanas, a equipe acompanhou peso, composição corporal, circunferência abdominal, metabolismo de repouso, pressão arterial e diferentes marcadores sanguíneos.
E o peso? Foi justamente aí que apareceu uma surpresa
Mesmo no grupo que recebeu três porções diárias de laticínios integrais sem restrição de calorias, os pesquisadores não encontraram aumento significativo de peso corporal ao final das 12 semanas.
Também não foram observadas alterações significativas atribuíveis ao tratamento na massa de gordura, massa livre de gordura, circunferência da cintura ou metabolismo de repouso.
O grupo submetido à restrição energética e com baixo consumo de laticínios apresentou redução de peso e índice de massa corporal, algo compatível com a redução planejada da ingestão energética.
Já no grupo que consumiu os laticínios integrais sem restrição calórica, apareceu uma pequena redução na circunferência do quadril.
O que não mudou de maneira significativa
O estudo não encontrou efeito significativo sobre gordura corporal, massa livre de gordura, circunferência da cintura, metabolismo energético de repouso ou colesterol sanguíneo em jejum ao longo das 12 semanas.
O colesterol também não teve o comportamento que muita gente esperaria
Por conterem gordura saturada, os laticínios integrais frequentemente são analisados apenas a partir da quantidade desse nutriente.
No ensaio canadense, porém, o colesterol sanguíneo em jejum não apresentou mudança significativa em função das dietas estudadas.
Os triglicerídeos chegaram a aumentar temporariamente nos três grupos na quarta semana, mas retornaram aos valores iniciais até o final das 12 semanas.
Isso não significa que a gordura saturada tenha deixado de ser relevante para a saúde cardiovascular. O resultado mostra algo mais específico: dentro das condições deste experimento, adicionar três porções diárias de laticínios integrais não produziu o aumento de colesterol que poderia ser esperado simplesmente olhando para a quantidade de gordura do alimento.
Por que um alimento pode se comportar de forma diferente de um nutriente isolado?
Uma das explicações discutidas nesse campo é conhecida como matriz alimentar dos laticínios.
Um alimento não é apenas uma soma de gordura, proteína, cálcio e carboidrato colocados lado a lado.
No leite, no iogurte ou no queijo, esses componentes aparecem dentro de uma estrutura física e química complexa. Proteínas como caseína e proteínas do soro, minerais, gorduras e outros nutrientes interagem entre si durante digestão e absorção.
Por isso, os efeitos fisiológicos de um alimento completo nem sempre podem ser previstos apenas observando um único nutriente isoladamente.
É justamente essa ideia que vem levando pesquisadores a estudar os laticínios como uma matriz alimentar, e não somente como uma fonte de gordura saturada.
Houve também mudança na pressão arterial
No grupo que consumiu três porções integrais sem restrição energética, a pressão arterial sistólica apresentou uma redução de aproximadamente 2,7 mmHg ao final do estudo.
Uma redução da pressão sistólica também apareceu no grupo submetido à restrição energética e baixo consumo de laticínios.
Isso torna importante não concluir que os laticínios integrais, sozinhos, foram responsáveis pelo efeito sobre a pressão.
Além disso, os grupos que receberam três porções diárias apresentaram aumento da ingestão de proteína e cálcio, o que era esperado pela própria composição dos alimentos adicionados à dieta.
Então os laticínios integrais estão liberados sem limite?
Não é isso que o estudo demonstra.
Primeiro, foram apenas 74 participantes acompanhados durante 12 semanas. É um ensaio randomizado, característica importante para a qualidade da evidência, mas ainda relativamente pequeno e de duração curta para responder perguntas sobre doenças cardiovasculares, diabetes, infarto ou mortalidade ao longo de muitos anos.
Segundo, os pesquisadores avaliaram três porções diárias dentro de um padrão alimentar orientado segundo recomendações nutricionais canadenses.
O resultado também não significa que alimentos diferentes tenham exatamente o mesmo efeito apenas porque pertencem ao grupo dos laticínios. Leite, iogurte, queijo e produtos ultraprocessados à base de leite podem ter composições muito diferentes.
E pessoas com condições específicas, alergias, intolerâncias ou orientações médicas individuais continuam precisando seguir as recomendações de seus profissionais de saúde.
O estudo muda uma ideia antiga, mas ainda não encerra a discussão
Os resultados ajudam a questionar uma interpretação simplista segundo a qual consumir um alimento com gordura saturada necessariamente fará peso e colesterol aumentarem.
Durante as 12 semanas analisadas, três porções diárias de laticínios integrais puderam ser incorporadas à alimentação dos participantes sem aumento significativo de peso, gordura corporal ou colesterol sanguíneo em jejum.
Para os pesquisadores, isso reforça a necessidade de observar o alimento inteiro e o padrão alimentar no qual ele está inserido, em vez de julgar seus efeitos apenas por um nutriente.
Mas a pesquisa também deixa uma pergunta aberta que estudos maiores e mais longos precisarão responder: se essa ausência de efeitos negativos se mantém durante anos e se diferentes tipos de laticínios integrais produzem exatamente o mesmo resultado.
Fontes e estudos citados
- Anderson G.H. et al. “The Effect of Three Daily Servings of Full-Fat Dairy for 12 Weeks on Body Weight, Body Composition, Energy Metabolism, Blood Lipids, and Dietary Intake of Adults with Overweight and Obesity”. The Journal of Nutrition, 2026. DOI: 10.1016/j.tjnut.2026.101373. Acessar o estudo.
- University of Toronto. Divulgação dos resultados do ensaio sobre três porções diárias de laticínios integrais, 2026.




