A situação do mercado de trabalho lá fora está ficando bem esquisita e a gente precisa prestar atenção nisso aqui no Brasil também. O chefão da Ford, Jim Farley, soltou o verbo recentemente e deixou claro que a empresa está com a corda no pescoço por um motivo que muita gente nem imaginaria. Eles simplesmente não conseguem achar gente que saiba mexer na graxa. Mesmo oferecendo salários que podem chegar aos US$ 120 mil por ano, o que dá mais de R$ 600 mil na nossa moeda, a empresa continua com 5 mil vagas abertas sem ninguém para ocupar.
Fiquei impressionado com a gravidade da coisa. Não estamos falando de falta de vaga, mas sim de falta de braço qualificado. O executivo avisou que isso pode gerar um verdadeiro colapso técnico. É aquele cenário onde você tem a oficina, tem o equipamento de ponta, tem o cliente querendo pagar, mas não tem o profissional que saiba abrir um motor e resolver o problema. É o tipo de coisa que a gente sempre achou que a tecnologia ia resolver sozinha, mas a realidade bateu na porta.
Por que o dinheiro não está resolvendo o problema
A gente costuma pensar que se o salário for alto, a fila de gente querendo trabalhar vai dar a volta no quarteirão. Só que na mecânica pesada o buraco é mais embaixo. Para você ter uma ideia, o CEO da Ford explicou que um mecânico demora pelo menos 5 anos para aprender a desmontar e montar um motor a diesel de uma caminhonete da linha Super Duty. Não é algo que você aprende assistindo a um vídeo de cinco minutos na internet. Exige tempo, prática e muita paciência.
O que está acontecendo nos Estados Unidos é um sinal de alerta para o mundo inteiro. Durante décadas, enfiaram na cabeça dos jovens que o único caminho para o sucesso era fazer uma faculdade e trabalhar em um escritório com ar-condicionado. Agora, o mercado está cheio de gente com diploma na mão, mas as funções essenciais, como manutenção, transporte e construção, estão ficando vazias. O resultado é esse aí: empresas gigantescas implorando por profissionais e oferecendo montanhas de dinheiro.
A valorização do ensino técnico e o pé no chão
Essa crise está forçando uma mudança de pensamento que já deveria ter acontecido há muito tempo. A Geração Z americana, que são os jovens que estão entrando no mercado agora, começou a perceber que fazer uma faculdade cara e sair de lá devendo uma fortuna em empréstimo estudantil pode ser uma barca furada. O interesse por cursos técnicos subiu cerca de 16% em 2024, batendo recordes históricos. O pessoal está vendo que ser um técnico especializado garante um padrão de vida de classe média alta sem precisar de um teto de vidro.
A Ford tentou apagar o incêndio melhorando as condições. Em 2023, depois de uma greve pesada, eles fecharam um acordo com o sindicato para aumentar os salários em 25% nos próximos quatro anos e meio. Mas, como eu disse antes, o salário sozinho não fabrica o profissional do dia para a noite. Se um cara leva cinco anos para ficar bom, a empresa vai ter que esperar esse tempo todo para ver o resultado, não importa o quanto ela pague hoje.
O risco de um apagão técnico geral
O papo do Jim Farley no podcast Office Hours foi bem direto ao ponto e sem frescura. Ele associou essa carência de técnicos a um risco real de serviços essenciais pararem. Se não tem mecânico, os caminhões não rodam. Se os caminhões não rodam, a comida não chega no mercado. É uma reação em cadeia que mostra como o trabalho manual especializado é a base de tudo. Sem essas pessoas, o sistema todo trava.
No final das contas, o recado é bem claro para quem está escolhendo uma carreira ou querendo mudar de vida. Às vezes, o caminho mais óbvio não é o mais lucrativo. Enquanto tem muita gente brigando por vaga de assistente em escritório ganhando pouco, tem multinacional querendo pagar uma nota preta para quem sabe usar uma chave de fenda com inteligência. A gente precisa valorizar mais as escolas profissionalizantes e o investimento técnico, senão daqui a pouco não vai ter ninguém para consertar nem o ar-condicionado da nossa casa, muito menos os carros que a gente dirige.
