Escolas começam a ensinar crianças a desconfiar da inteligência artificial após chatbots inventarem fatos, estudos e até países em mapas

Depois de uma primeira reação marcada por tentativas de proibir ferramentas como o ChatGPT, escolas públicas dos Estados Unidos começam a adotar uma estratégia diferente diante da inteligência artificial. Em vez de simplesmente afastar os alunos dos chatbots, educadores estão colocando a tecnologia dentro da sala de aula para mostrar, na prática, que ela pode errar, inventar informações e apresentar respostas falsas com enorme confiança.

A chamada alfabetização em inteligência artificial começa a ganhar espaço no sistema educacional americano com uma proposta que vai muito além de ensinar crianças e adolescentes a escrever bons comandos. Os estudantes também estão aprendendo quando não confiar na IA, como verificar respostas, identificar informações fabricadas, reconhecer vieses e proteger seus dados pessoais.

Uma demonstração realizada durante o treinamento de professores na Carolina do Sul deixou claro por que educadores consideram esse aprendizado necessário.

Um simples pedido para criar um mapa mostrou o tamanho do problema

Antes do início do novo ano letivo, professores e diretores do Distrito Escolar do Condado de Charleston participaram de um treinamento sobre inteligência artificial em North Charleston, na Carolina do Sul.

Durante a apresentação, a instrutora Amanda Bickerstaff, fundadora da organização AI for Education, pediu a uma ferramenta de inteligência artificial que criasse um mapa do mundo.

O resultado projetado no auditório provocou surpresa e risadas.

O mapa trazia dezenas de erros. Mali apareceu escrito como “Mail”. O Egito recebeu um nome incorreto. No lugar da Líbia, a ferramenta colocou simplesmente a palavra “África”. Diversos outros países foram identificados com grafias erradas ou palavras sem qualquer sentido.

Para Bickerstaff, demonstrações desse tipo são úteis justamente porque mostram aos estudantes que uma resposta produzida por IA pode parecer convincente sem necessariamente estar correta.

Escolas abandonam a ideia de simplesmente proibir os chatbots

A mudança representa uma virada na maneira como parte das escolas americanas está lidando com a inteligência artificial generativa.

No início da popularização dos chatbots, muitas instituições tentaram impedir que estudantes utilizassem essas ferramentas, principalmente pelo receio de trabalhos escolares produzidos automaticamente e casos de cola.

Agora, cresce a percepção de que os alunos continuarão tendo contato com a tecnologia fora da escola e precisarão aprender a utilizá-la de maneira crítica.

Uma das maiores preocupações é a chamada “alucinação” da inteligência artificial, quando o sistema gera informações incorretas ou totalmente inventadas e as apresenta como se fossem verdadeiras.

Para educadores envolvidos nessas iniciativas, alfabetização em IA significa ensinar não somente como usar uma ferramenta, mas também reconhecer situações nas quais ela não deveria ser utilizada.

Rebecca Winthrop, diretora do Centro de Educação Universal da Brookings Institution, resume a ideia afirmando que uma boa alfabetização em inteligência artificial inclui saber quando não utilizar a tecnologia.

37 estados já publicaram orientações sobre inteligência artificial nas escolas

Nos Estados Unidos, 37 estados já divulgaram algum tipo de orientação oficial que pode servir de referência para escolas na utilização da inteligência artificial.

A Carolina do Sul ainda não possui uma diretriz estadual desse tipo. Por isso, o Distrito Escolar do Condado de Charleston, o segundo maior do estado, decidiu desenvolver sua própria política.

O distrito atende aproximadamente 50 mil estudantes.

Há cerca de um ano, a administração escolar procurou a AI for Education, organização que também auxiliou sistemas de ensino de cidades como Chicago e Houston na elaboração de políticas relacionadas à inteligência artificial.

Alunos já estavam usando IA sem qualquer orientação

A primeira etapa do projeto em Charleston foi criar regras para o uso da tecnologia.

Professores, estudantes e familiares foram ouvidos durante a elaboração da política.

Grupos de discussão realizados com alunos mostraram que o uso de inteligência artificial já era bastante comum, mas acontecia praticamente sem orientação.

Professores também relataram que estavam tentando entender as ferramentas por conta própria e pediram regras mais claras sobre o que poderia ou não ser feito em sala de aula.

Pesquisas mencionadas no debate educacional indicam que a maioria dos adolescentes e professores americanos já utiliza algum tipo de IA para atividades escolares, embora poucos afirmem possuir conhecimento técnico sobre o funcionamento dessas ferramentas ou terem recebido treinamento formal.

Escolas querem evitar repetir erros cometidos com as redes sociais

Outro motivo para a mudança de postura é a experiência das escolas e famílias com as redes sociais.

Educadores temem que crianças e adolescentes tenham acesso irrestrito à inteligência artificial durante anos antes que recebam orientação sobre riscos, exatamente como ocorreu com outras tecnologias digitais.

Entre as preocupações discutidas estão dependência das ferramentas, redução da capacidade de reflexão, desinformação, privacidade e a possibilidade de estudantes aceitarem respostas automáticas sem verificar a procedência das informações.

A estratégia adotada por alguns distritos é apresentar esses problemas desde cedo, antes que o uso da IA se torne completamente integrado à rotina escolar.

Curso mostra que chatbot pode até inventar pesquisas científicas

Com o início do ano letivo, Charleston entra na segunda etapa do projeto: o treinamento de professores e estudantes do ensino fundamental e médio.

As aulas serão presenciais e online e deverão explicar como funcionam as ferramentas de IA e quais cuidados devem ser tomados durante seu uso.

Um dos exercícios apresenta uma situação comum: um estudante pede ajuda a um chatbot para produzir um trabalho de pesquisa.

O curso demonstra que a IA pode fornecer informações completamente erradas e até citar estudos que nunca existiram, tudo em uma resposta escrita de maneira aparentemente segura e convincente.

A orientação transmitida aos alunos é clara: qualquer informação factual fornecida pela inteligência artificial deve ser verificada, especialmente quando será utilizada em trabalhos escolares.

Conversas com inteligência artificial também levantam preocupação com privacidade

Os treinamentos abordam ainda um risco que pode passar despercebido por crianças e adolescentes: o compartilhamento de informações pessoais com chatbots.

Os estudantes são orientados a não inserir dados pessoais ou informações sensíveis nas ferramentas.

O material explica que conversas podem ser armazenadas pelos serviços, utilizadas no desenvolvimento dos sistemas ou eventualmente expostas em incidentes envolvendo dados.

Para os educadores, aprender a usar IA também significa compreender que conversar com um chatbot não deve ser tratado da mesma maneira que escrever algo em um documento privado.

Professores querem mostrar preconceitos e erros da tecnologia

Ray Knauer, professor do ensino médio que participou do treinamento durante as férias de verão, pretende levar exemplos de vieses e alucinações de inteligência artificial para sua turma de pesquisa avançada.

A ideia é transformar os erros dos sistemas em material para discussão e estimular os estudantes a questionarem as respostas recebidas.

Segundo Knauer, o desafio é encontrar um equilíbrio que não transforme a IA em algo proibido, mas também não incentive os estudantes a recorrerem à tecnologia para qualquer tarefa.

O princípio que ele pretende reforçar é que receber uma resposta não encerra o trabalho. O estudante ainda precisa analisar, verificar e aprofundar a informação.

Utah criou até cargo específico para inteligência artificial na educação

Enquanto alguns distritos desenvolvem políticas individualmente, Utah adotou uma estratégia coordenada em todo o estado.

Em 2024, o Conselho de Educação estadual nomeou Matt Winters como especialista em inteligência artificial aplicada à educação, tornando Utah o primeiro estado americano a criar uma função em tempo integral dedicada ao tema dentro do sistema público de ensino.

Durante o último ano, Winters participou do treinamento de mais de 7 mil professores, número equivalente a quase um terço dos docentes das escolas públicas do estado.

Ele também auxilia os distritos na criação de políticas de utilização de IA.

Uma lei estadual determina que esses sistemas escolares tenham regras específicas implantadas até julho de 2027.

Outros estados começam a copiar o modelo

Depois da experiência de Utah, estados como Maine, Virgínia Ocidental e Geórgia também criaram funções relacionadas à supervisão da inteligência artificial nas escolas.

Em outros lugares, porém, as regras continuam variando bastante de um distrito para outro.

Essa diferença preocupa especialistas porque programas completos de alfabetização em IA exigem investimento, treinamento de professores e acesso às ferramentas.

O receio é que escolas localizadas em comunidades mais pobres tenham menos condições de preparar seus estudantes para utilizar a tecnologia de maneira segura do que distritos com maior disponibilidade de recursos.

Treinamentos foram levados até professores de áreas rurais

No Distrito Escolar de Canyons, em Utah, uma equipe de oito profissionais percorreu o estado realizando mais de 150 treinamentos sobre alfabetização em inteligência artificial.

O programa recebeu financiamento de US$ 500 mil por meio de uma iniciativa apoiada por uma instituição de saúde local.

A proposta era evitar que localização ou tamanho da comunidade determinassem quem teria acesso ao treinamento.

Professores de áreas rurais e urbanas receberam as mesmas oportunidades de formação.

Estado também negocia privacidade e preços das ferramentas

A atuação de Utah não ficou restrita ao treinamento.

O estado também passou a participar da contratação das ferramentas de inteligência artificial utilizadas pelas escolas.

Segundo Matt Winters, foram negociados acordos relacionados à proteção de dados e preços reduzidos para os sistemas de ensino.

Isso permitiu que distritos rurais ou com menos recursos tivessem acesso a ferramentas que poderiam ser financeiramente mais difíceis de contratar individualmente.

OpenAI, Google e Anthropic também treinam escolas

Empresas responsáveis por algumas das principais ferramentas de inteligência artificial, incluindo OpenAI, Google e Anthropic, passaram a oferecer sessões de treinamento para instituições de ensino sobre o funcionamento e a utilização de seus produtos.

Educadores, porém, defendem que o ensino não fique limitado ao domínio dessas plataformas.

A proposta de alfabetização em IA inclui conceitos mais amplos, como vieses dos sistemas, informações inventadas, ética, privacidade, verificação de fatos e capacidade de decidir quando uma ferramenta realmente deve ser utilizada.

Para crianças menores, a explicação pode começar de forma simples

A abordagem também muda conforme a idade dos estudantes.

Kristina Yamada, especialista em tecnologia digital do Conselho de Educação de Utah, afirma que crianças menores podem começar aprendendo um conceito bastante direto: assim como uma pessoa pode dizer algo incorreto, um programa ou robô também pode apresentar informações falsas.

Com estudantes mais velhos, a discussão pode avançar para situações mais complexas.

Um adolescente pode utilizar uma ferramenta como o ChatGPT para ajudar a escrever código de computador, por exemplo, mas precisa compreender o código e ter capacidade para corrigir o programa caso algo deixe de funcionar.

Para os educadores envolvidos nos programas, esse é o principal objetivo da nova estratégia. A inteligência artificial pode ser utilizada como ferramenta, mas não deve substituir a capacidade do estudante de pensar, questionar, investigar e chegar às próprias conclusões.

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Gabriel Augusto Lemos

Gabriel Augusto Lemos acompanha acontecimentos internacionais, curiosidades e temas que ganham repercussão fora do Brasil, com foco em fatos relevantes e assuntos que ajudam a entender melhor o que acontece pelo mundo.