É simplesmente inacreditável que em pleno século vinte e um existam seres humanos vivendo em condições que desafiam todas as leis da lógica e da física básica. Como alguém consegue acordar todos os dias sabendo que um simples toque em uma maçaneta de metal sem luvas pode fundir sua pele ao aço instantaneamente? O que estamos lendo sobre a vida na Sibéria e em Yakutsk não parece um relato geográfico mas sim um roteiro de ficção científica de terror climático. Como deixaram populações inteiras se estabelecerem sobre um solo que nunca descongela e onde o ar que você respira se transforma em ruído sólido.

O choque começa logo na logística de chegada. Imagine uma estrada de dois mil quilômetros chamada Estrada dos Ossos onde cada metro de asfalto repousa sobre os restos mortais de prisioneiros que morreram tentando domar o gelo. Quem poderia imaginar que o caminho para uma cidade moderna seria literalmente um cemitério a céu aberto sob o cascalho? É bizarro pensar que motoristas viajam por ali sabendo que se o carro quebrar e ninguém aparecer em duas horas o destino é a morte por congelamento. Como alguém aceita esse nível de risco diariamente por livre e espontânea vontade?

Em Yakutsk a realidade consegue ser ainda mais surreal. A cidade flutua. É isso mesmo que você leu. Os prédios não tocam o chão porque o calor das construções derreteria o permafrost e faria tudo desabar em um lamaçal de gelo podre. Como é possível manter uma civilização funcionando em cima de palafitas de concreto enquanto o nevoeiro de gelo impede que você enxergue um palmo diante do nariz? É um cenário de pesadelo onde a fumaça das fábricas e a própria respiração das pessoas criam uma redoma de fumaça gelada que nunca se dissipa.

A surpresa atinge o ápice quando olhamos para a rotina doméstica dessas pessoas. Onde já se viu precisar minerar água? Em vez de abrir a torneira os moradores cortam blocos de gelo azul dos rios e os carregam para dentro de casa como se fossem lenha para derreter. É uma inversão completa de tudo o que conhecemos como conforto moderno. E o que dizer do mercado local onde peixes são vendidos empilhados como tábuas de madeira e o leite é um bloco sólido de gelo? Não existe freezer porque a cidade inteira é um freezer gigante e mortal.

Como se não bastasse o frio de menos sessenta graus os hábitos alimentares parecem saídos de uma cultura de sobrevivência extrema. Eles comem peixe cru congelado e raspado em fatias finas para que a gordura aqueça o corpo por dentro. Como o organismo humano suporta tamanha carga de estresse térmico sem entrar em colapso imediato? É quase impossível processar a informação de que crianças tomam sorvete a menos quarenta graus acreditando que isso as mantém aquecidas. É uma lógica que foge completamente ao nosso entendimento.

A existência de Oimiacon então é o golpe final na nossa incredulidade. O lugar é mais frio do que a superfície de Marte. Como pode um ser humano habitar um local onde a tinta da caneta congela e os óculos podem queimar o seu rosto se forem de metal? É bizarro pensar que as aulas só são canceladas quando a temperatura bate os menos cinquenta e dois graus. Para nós qualquer sinal de geada é motivo de alerta mas para eles a sobrevivência é um esporte de alto risco jogado vinte e quatro horas por dia.

O que mais assusta em toda essa narrativa é a resiliência silenciosa dessas trinta e três milhões de pessoas. Elas não apenas vivem ali como sentem orgulho dessa identidade forjada no gelo extremo. Como alguém pode chamar um deserto branco de lar quando um erro de três horas no sistema de aquecimento pode inutilizar sua casa para sempre? A Sibéria não é apenas um lugar no mapa mas sim um monumento à teimosia humana diante de uma natureza que claramente não nos quer por perto. É chocante e fascinante ao mesmo tempo mas acima de tudo é uma realidade que parece impossível de existir no nosso mundo morno e confortável.

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Jornalista com registro no MT desde 2022, atuando na área desde 2019. Produtor de eventos desde 1998 e desenvolvedor web desde 2007, com foco em WordPress e conteúdo digital.