Fotografia no Festival de Curitiba: A Missão de Registrar o Inesperado e Criar Memória Duradoura
O Festival de Curitiba, um dos maiores eventos de artes cênicas do Brasil, vai muito além dos palcos. Nos bastidores, um olhar atento e experiente trabalha para eternizar momentos que, por sua natureza, são passageiros. Fotógrafas como Annelize Tozetto e Lina Sumizono dedicam anos a essa missão, capturando a essência das apresentações e transformando-as em um acervo visual que conta a história do festival.
Com décadas de experiência somadas, essas profissionais enfrentam a complexidade de registrar espetáculos teatrais, onde cada apresentação é única e imprevisível. A adrenalina de capturar a emoção no instante exato, a luz perfeita e a expressão marcante do ator são os motores que as impulsionam.
Conforme informações divulgadas sobre o evento, o trabalho dessas artistas é fundamental para a memória coletiva do festival, permitindo que o público reviva e compreenda a riqueza das edições passadas. A exposição “Entreolhares: narrativas visuais do Festival de Curitiba” é um testemunho desse esforço, reunindo mais de 80 imagens que celebram os encontros e a arte.
O Desafio de Fotografar o Inesperado no Palco
Diferente de outras áreas da fotografia, registrar espetáculos teatrais exige decisões tomadas em frações de segundo, muitas vezes sem ensaios prévios. “Raramente há contato prévio com a obra. Na maioria das vezes, o encontro acontece no instante em que se adentra o teatro e as cortinas se abrem”, explica Lina Sumizono, que atua na equipe oficial do festival há 17 edições.
Para Lina, fotografar teatro é um exercício constante de descoberta. A intenção é preservar em imagem a iluminação, a cenografia e a emoção, mantendo a integridade da experiência vivida pelo público. Essa imprevisibilidade moldou profundamente a carreira de Annelize Tozetto, curadora e coordenadora de fotografia, que cobre o evento há 16 anos.
Annelize afirma que o festival redefiniu seu caminho profissional. “Tudo que aprendi sobre luz e fotografia de espetáculo foi por conta do festival. Ele transformou a minha vida e a minha carreira”, declara. A experiência adquirida ao longo dos anos é um diferencial para capturar a alma de cada apresentação.
Rotina Intensa e a Importância do Trabalho Coletivo
Durante as duas semanas de programação do Festival de Curitiba, a equipe de fotografia, que hoje conta com dez profissionais, trabalha em um ritmo acelerado. As apresentações geralmente ocorrem à noite, mas as imagens precisam estar disponíveis para a imprensa e o público já na manhã seguinte.
Segundo Annelize, a edição das fotos acontece ainda durante a madrugada. “É muito puxado, muito corrido, mas a gente gosta bastante de estar ali. É uma imersão muito profunda”, descreve. O trabalho em equipe é crucial, e muitos profissionais atuam juntos há anos, facilitando a construção de uma narrativa visual coerente sobre o festival.
“A gente aprende muito entre nós e troca muito sobre a forma de contar as histórias”, completa a coordenadora. Essa sintonia é essencial para que as imagens transmitam a complexidade e a beleza de cada espetáculo, formando um painel rico e diversificado da arte cênica.
Imagens Que Atravessam o Tempo: A Exposição “Entreolhares”
O impacto desse trabalho pode ser visto agora fora dos palcos, na exposição “Entreolhares: narrativas visuais do Festival de Curitiba”. Aberta no Centro Cultural da PUC-PR, a mostra reúne mais de 80 imagens produzidas nas últimas quatro edições do evento.
Com curadoria de Annelize Tozetto, a exposição tem como tema central o “encontro” — entre artistas, público e profissionais de bastidores. O recorte também marca o retorno do festival ao formato presencial, após a pausa provocada pela pandemia de Covid-19. “A gente queria enfatizar muito essa coisa do encontro: do público com a peça, do fotógrafo com o espetáculo e das pessoas entre si”, explica a curadora.
Em 2023, apenas a equipe oficial produziu mais de 16 mil imagens, um volume que exigiu uma triagem cuidadosa para a seleção final. A exposição celebra a capacidade da fotografia de capturar a essência efêmera do teatro e transformá-la em um registro perene.
Registrar o Que Desaparece: A Arte de Capturar a Essência Única
Fotografar teatro é, em essência, documentar algo que não se repete. Cada sessão é única, e muitas vezes o clique decisivo acontece por acaso, como em uma das imagens favoritas de Annelize, captada durante a peça “Ana Lívia”, em 2024, quando um efeito de água no palco coincidiu com uma mudança inesperada de luz.
Esse caráter irrepetível é também o que mantém Lina Sumizono motivada após 17 anos de cobertura. Ao longo das edições, ela acompanhou de perto montagens que a marcaram, como apresentações do humorista Gregório Duvivier e o espetáculo “Monga”, que retrata os bastidores do universo circense.
“Cada imagem carrega inevitavelmente a minha forma de ver o espetáculo”, afirma. “É um olhar que atravessa a cena e a transforma em narrativa visual”. O resultado é um acervo que não apenas documenta o festival, mas também reflete as percepções e a sensibilidade dos fotógrafos.
Um Arquivo Histórico e um Legado Coletivo
Mais do que registros técnicos, as fotografias do Festival de Curitiba acabam formando um arquivo histórico do próprio evento. Elas documentam cenários, artistas, tendências estéticas e até mudanças no público ao longo dos anos. Para Annelize, esse acervo mostra que o festival é resultado de um trabalho coletivo.
“O resultado de uma foto envolve o trabalho de muitas pessoas — do ator, do iluminador, do cenógrafo. A fotografia no teatro também é uma construção conjunta”, diz. A exposição, que segue aberta até 26 de maio com entrada gratuita, oferece ao público a chance de observar o festival sob uma perspectiva diferente: a de quem está atrás das lentes.
SERVIÇO:
O que: Exposição “Entreolhares: narrativas visuais do Festival de Curitiba”
Onde: Centro Cultural da PUC-PR (Rua Imaculada Conceição, 1155 – Prado Velho)
Quando: Até 26 de maio
Quanto: Entrada gratuita
Fonte: g1.globo.com
