Um fenômeno estatístico em São Paulo de Olivença, no interior do Amazonas, acendeu um alerta sobre a precisão dos dados públicos no Brasil. O município registra mais famílias beneficiárias do Bolsa Família do que o total de domicílios contabilizados pelo IBGE.
Segundo o cruzamento de dados do Ministério do Desenvolvimento Social e do Censo 2022, a cidade possui 7.722 famílias no programa social. No entanto, os recenseadores encontraram apenas 6.845 residências em todo o território municipal.
Essa diferença de quase mil registros coloca a cidade em um debate complexo sobre como o governo conta a população. À primeira vista, o número parece um erro grosseiro ou uma fraude, mas a explicação é técnica.
Entenda a diferença entre casa e família
Para o IBGE, um domicílio é a estrutura física, como uma casa ou apartamento. Já para o Cadastro Único, o conceito de família é econômico. Ou seja, pessoas que dividem a mesma renda e despesas.
Na prática, isso significa que várias famílias podem morar sob o mesmo teto. Em regiões de extrema pobreza e vulnerabilidade, como o Amazonas, a coabitação é uma realidade comum por falta de recursos para novas moradias.
O governo federal classifica esses casos como famílias conviventes. São núcleos que moram juntos, mas mantêm independência financeira. Por isso, cada núcleo tem direito a um registro próprio no sistema de benefícios.
O desafio logístico na região amazônica
São Paulo de Olivença possui uma densidade demográfica baixíssima, com apenas 1,68 habitante por quilômetro quadrado. A cidade é marcada por comunidades ribeirinhas isoladas e grandes distâncias geográficas.
Essa dispersão dificulta o trabalho dos recenseadores do IBGE. Ao mesmo tempo, a atualização do Cadastro Único é feita pelos próprios moradores nos postos municipais, o que gera ritmos diferentes de contagem.
Especialistas em gestão pública apontam que o Censo é uma fotografia de um momento específico. Já o cadastro social é dinâmico e muda quase diariamente conforme a necessidade da população local.
Impacto social e dependência federal
A situação no Amazonas não é isolada. Centenas de prefeituras brasileiras mostram que ao menos metade das casas possui alguém que depende do Bolsa Família. Isso revela a fragilidade econômica dessas regiões.
Em cidades como São Paulo de Olivença, o benefício federal é, muitas vezes, a principal engrenagem da economia local. Sem esse dinheiro, o comércio e os serviços básicos simplesmente parariam de funcionar.
Mas essa dependência extrema também exige uma fiscalização mais rígida. O fato de haver mais famílias do que casas, embora legalmente possível, abre margem para questionamentos sobre a qualidade do controle público.
Transparência e o futuro dos dados
O debate agora gira em torno da integração dessas bases de dados. Se os sistemas do IBGE e do Ministério do Desenvolvimento Social não conversam, fica difícil planejar políticas públicas eficientes.
É preciso entender se a coabitação é uma escolha cultural ou um sintoma de um déficit habitacional grave. Apenas olhar para os números frios não resolve o problema de quem vive no isolamento do Solimões.
O caso serve de lição para que o governo aprimore a coleta de informações. Afinal, para combater a pobreza com precisão, o Estado precisa saber exatamente onde cada brasileiro mora e com quem divide o prato de comida.
