Talvez a pergunta mais comum sobre inteligência artificial esteja sendo feita do jeito errado. Em vez de tentar descobrir se existe ou não uma grande bolha de IA prestes a estourar, o estrategista Dhaval Joshi propõe uma leitura diferente: o mercado estaria atravessando uma sequência de pequenas bolhas que inflam, estouram e transferem o entusiasmo para outro lugar.
A ideia ajuda a explicar movimentos que atingiram setores muito diferentes nos últimos meses. Ações de empresas de software dispararam com a expectativa de ganhos de produtividade e depois sofreram quando investidores passaram a enxergar os próprios agentes de IA como ameaça ao modelo tradicional de assinaturas. A prata também viveu uma forte valorização associada à demanda energética dos data centers, enquanto fabricantes de semicondutores passaram a ser tratados como donos de margens quase ilimitadas.
Para Joshi, ex-estrategista-chefe da Counterpoint, da BCA Research em Londres, esses movimentos não formam necessariamente uma única bolha gigante. O que estaria acontecendo seria uma sequência móvel de apostas sobre quem conseguirá capturar o valor econômico criado pela inteligência artificial.

A bolha pode estar simplesmente mudando de endereço
A tese de Joshi parte da observação de que investidores continuam tentando descobrir qual setor ficará com a maior parcela dos benefícios econômicos da inteligência artificial.
Quando uma narrativa parece convincente, capital entra rapidamente naquele segmento. Os preços sobem, as expectativas aumentam e novos investidores aparecem. Depois, quando a tese começa a apresentar falhas, parte desse dinheiro procura outro ponto da cadeia de IA.
Foi isso que ele identificou nas empresas de software. Inicialmente, a inteligência artificial era vista como uma ferramenta capaz de aumentar dramaticamente a produtividade dessas companhias.
Depois surgiu uma preocupação diferente: agentes de IA poderiam reduzir a necessidade de várias assinaturas de software e atingir diretamente o modelo de negócios conhecido como SaaS, baseado na venda recorrente de serviços por assinatura.
O resultado foi uma inversão da narrativa. Aquilo que havia sido tratado como grande beneficiário da inteligência artificial passou a ser visto também como um setor potencialmente ameaçado por ela.
Até a prata entrou na corrida por tudo o que pudesse se beneficiar da IA
O movimento não ficou restrito às ações de tecnologia. A prata também passou por uma forte valorização impulsionada pela ideia de que o metal seria beneficiado pela construção de uma enorme infraestrutura para inteligência artificial.
A lógica estava relacionada à capacidade da prata de conduzir eletricidade, característica relevante em uma expansão que exige data centers com consumo elevado de energia.
Na avaliação de Joshi, entretanto, essa explicação não justificava uma valorização próxima de três vezes no preço do metal, especialmente porque existem outros bons materiais condutores disponíveis.
O caso se tornou um exemplo importante na tese das bolhas sequenciais porque mostrou que o entusiasmo relacionado à IA pode provocar distorções fora do mercado tradicional de empresas de tecnologia.
Depois do software e da prata, os fabricantes de chips entraram no centro da discussão
Os semicondutores se tornaram outro destino natural do capital. A necessidade de capacidade computacional fez investidores apostarem que os fabricantes de chips poderiam manter enorme poder de precificação e margens de lucro extraordinárias.
Joshi questiona justamente a duração dessas margens.
Na visão do estrategista, à medida que oferta e demanda se aproximarem de um equilíbrio, os lucros excepcionalmente elevados poderão perder força. Ele considera que o movimento de valorização dos semicondutores já começou a ser revisto, embora ainda possa haver mais ajuste pela frente.
Essa leitura está ligada a outra expressão usada por Joshi. Em vez de falar apenas em uma bolha de lucros, ele considera mais preciso falar em uma bolha de margens de lucro.
A questão, portanto, não seria simplesmente saber se as empresas estão apresentando resultados elevados, mas entender por que essas margens chegaram a níveis tão altos e se realmente podem permanecer assim durante muitos anos.

Quando uma alta deixa de ser descoberta de preço e passa a parecer uma bolha
Existe uma interpretação mais simples para esses movimentos. Mercados testam ideias o tempo inteiro. Investidores compram um ativo esperando determinado resultado, novas informações aparecem e os preços são corrigidos.
Joshi reconhece esse mecanismo, mas considera que a diferença está na intensidade e na velocidade.
Quando um ativo consegue produzir fortunas em poucas semanas ou meses e, logo depois, eliminar esses ganhos com a mesma rapidez, o estrategista entende que o comportamento começa a apresentar características de bolha.
O que ele identifica é uma espécie de contágio narrativo. Uma história sobre inteligência artificial ganha força, atrai grandes quantidades de dinheiro e faz os preços subirem rapidamente. Depois, a narrativa enfraquece e o capital procura outra oportunidade relacionada ao mesmo tema.
Até agora, esse movimento sequencial trouxe uma consequência curiosa: como diferentes segmentos não estão desabando simultaneamente, o mercado ainda não enfrentou necessariamente uma liquidação conjunta de todos os ativos ligados à IA.
A discussão já não é apenas se existe gasto demais, mas se gastar tanto ainda faz sentido
Joshi não está sozinho ao levantar preocupações sobre excessos.
Jamie Dimon já chamou atenção para avaliações elevadas, enquanto uma pesquisa global com gestores do Bank of America colocou uma possível bolha nas ações de IA entre os principais riscos extremos observados pelos participantes.
Sam Altman, David Solomon e Jeff Bezos também reconheceram publicamente que existem características especulativas em algumas partes do mercado relacionado à inteligência artificial.
Mesmo assim, as previsões de que uma bolha poderia estourar ainda em 2025 não impediram o movimento de continuar avançando.
Agora, uma parte crescente das atenções está voltada para o enorme volume de investimentos das grandes empresas de tecnologia.
Os gastos de capital estão consumindo parcelas cada vez maiores do fluxo de caixa dessas companhias. Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle estariam caminhando para uma situação em que seus investimentos de capital poderiam superar o fluxo de caixa livre em 2027.
O ponto central deixou de ser apenas identificar se existe excesso de gasto. A pergunta passou a ser se esse excesso é racional diante da oportunidade que as empresas acreditam existir.
O pico do investimento pode estar mais perto do que parece
Ao ser questionado sobre quando o ciclo de gastos de capital relacionados à IA poderia atingir seu ponto máximo, Joshi apontou para o fim de 2026 ou a primeira metade de 2027.
Ele considera que parte dos retornos extraordinários observados atualmente está baseada em margens de lucro extremamente elevadas e que dificilmente permaneceriam nesse nível indefinidamente.
Ao mesmo tempo, o estrategista admite que sua interpretação pode mudar caso essas margens retornem para níveis mais normais sem prejudicar os lucros das empresas.
Isso torna os próximos trimestres particularmente importantes para a tese. Se os investimentos continuarem aumentando enquanto o retorno econômico aparece, parte das preocupações pode diminuir. Caso os gastos permaneçam gigantescos e a rentabilidade comece a decepcionar, a leitura sobre as bolhas poderá ganhar força.
Três acontecimentos poderiam fazer várias bolhas estourarem ao mesmo tempo
Enquanto o capital simplesmente abandona um setor e procura outro, a sequência consegue continuar funcionando. O risco maior apareceria se o dinheiro deixasse de procurar a próxima narrativa e começasse a sair dos ativos considerados mais arriscados.
Joshi destaca três condições capazes de provocar uma ruptura mais ampla.
A primeira seria uma forte alta dos juros reais ou dos rendimentos reais dos títulos. A segunda seria uma reversão muito intensa do ciclo de investimentos em inteligência artificial. A terceira seria uma recessão que fosse além de uma desaceleração leve.
Em qualquer um desses casos, o capital poderia deixar de migrar para a próxima oportunidade ligada à IA e simplesmente abandonar ativos de risco.
No fim das contas, a disputa é para descobrir quem ficará com o dinheiro gerado pela IA
A tese das bolhas sequenciais leva a uma questão ainda maior. Mesmo que a inteligência artificial transforme a economia, não está definido quem conseguirá capturar a maior parte desse valor.
Joshi trabalha com três possibilidades.
Na primeira, algumas empresas constroem vantagens competitivas fortes e conseguem dominar determinados mercados, como aconteceu com companhias como Amazon no comércio eletrônico e Google nas buscas.
Na segunda, o principal beneficiário pode ser o profissional altamente qualificado. Um advogado ou consultor, por exemplo, poderia utilizar IA para reduzir drasticamente sua estrutura de custos enquanto continua cobrando valores elevados pelo serviço prestado.
Existe ainda uma terceira possibilidade, talvez a mais desconfortável para empresas e investidores: a competição se tornar tão intensa que ninguém consiga preservar margens extraordinárias.
Nesse cenário, o maior beneficiado seria o consumidor, porque os preços cairiam enquanto produtos e serviços se tornariam mais eficientes.
Uma memória de computador com duas décadas pode indicar como o próximo movimento começa
Entre os exemplos mais curiosos observados pelo estrategista aparece uma tecnologia longe de ser considerada novidade.
Chips de memória DDR3 RAM, lançados há cerca de duas décadas e próximos da obsolescência diante dos padrões atuais, apresentaram valorização de aproximadamente 600% em menos de um ano.
Joshi comparou a situação a alguém pagando US$ 50 mil por um Toyota Corolla usado de 2007.
O movimento mostra como a busca por gargalos, componentes escassos e possíveis beneficiários da corrida pela IA pode alcançar até tecnologias antigas quando surge uma narrativa capaz de justificar uma nova onda de procura.
E ninguém sabe ao certo onde a próxima bolha vai aparecer
Nem mesmo Joshi afirma conseguir antecipar qual será o próximo segmento a receber essa onda de capital.
Ele considera curioso que as criptomoedas ainda não tenham participado de maneira mais evidente dessa sequência e aponta que uma eventual combinação entre inteligência artificial e blockchain poderia colocar o setor entre os candidatos.
A lógica usada para procurar o próximo movimento é relativamente simples: qualquer ativo que tenha subido muito rapidamente em um período curto merece atenção.
O desafio é perceber qual narrativa está começando a ganhar força antes que ela se torne consenso e, principalmente, reconhecer quando a vantagem competitiva imaginada pelo mercado começa a desaparecer.
Assim, a discussão sobre uma eventual bolha de inteligência artificial pode ser muito mais complexa do que esperar por um único grande estouro. Se a tese estiver correta, algumas bolhas já podem ter surgido e desaparecido enquanto uma quantidade gigantesca de dinheiro continua procurando o próximo lugar onde acredita que a IA criará valor.





