Uma das maiores plataformas de vídeo da China começou a acelerar seus planos para conquistar usuários fora do país e o Brasil já aparece diretamente nessa estratégia. A Bilibili relançou seu aplicativo internacional, prepara uma versão em inglês, busca criadores estrangeiros e abriu uma vaga em São Paulo voltada ao desenvolvimento de negócios e gestão de comunidade.
Conhecida frequentemente como o “YouTube chinês”, a companhia parte para essa expansão com uma escala que chama atenção. No primeiro trimestre de 2026, ultrapassou 376 milhões de usuários ativos mensais, registrou 115,2 milhões de usuários ativos diariamente e alcançou média de 119 minutos de uso por dia.
A movimentação mostra que a Bilibili não pretende apenas disponibilizar conteúdos chineses para estrangeiros. A empresa começa a montar produto, equipes, relacionamento com criadores e mecanismos de monetização voltados diretamente ao mercado internacional.
Brasil aparece diretamente nos planos de expansão
Um dos sinais mais claros da estratégia surgiu no mercado de trabalho. Em agosto de 2026, a própria Bilibili Group publicou uma oportunidade profissional para São Paulo, destinada ao cargo de Business Development & Community Manager.
A descrição da vaga indica que o objetivo vai além de uma operação administrativa. O profissional deverá buscar estúdios independentes de animação, detentores de propriedades intelectuais, parceiros institucionais e criadores de conteúdo capazes de formar uma rede local ligada à plataforma.
Também estão entre as atribuições representar a companhia em festivais, convenções e fóruns de coprodução, organizar encontros, negociar formas de cooperação e acompanhar de perto o mercado e a cultura brasileira.
A contratação não confirma, até o momento, a abertura de um escritório da Bilibili no Brasil nem estabelece uma data para um lançamento comercial específico da plataforma no país. Mesmo assim, mostra que a companhia já está montando relações com criadores e parceiros a partir de São Paulo.
Expansão não está limitada ao mercado brasileiro
Segundo informações divulgadas sobre os planos da companhia, a Bilibili está organizando uma operação internacional mais ampla e cortejando criadores que não produzem conteúdo em chinês.
Além de São Paulo, foram identificadas contratações relacionadas à formação de comunidades e operações em cidades como Los Angeles, Londres, Cidade do México, Istambul e Tóquio.
O desenho coloca América do Norte, América Latina, Europa e Ásia dentro de uma mesma estratégia, indicando que a empresa pretende testar sua capacidade de transformar uma plataforma gigantesca dentro da China em um serviço de alcance mundial.
Aplicativo internacional voltou com mudança importante
Outro passo foi o relançamento do aplicativo internacional da Bilibili, que havia sido descontinuado anteriormente.
Uma das principais mudanças está na forma de cadastro. A nova versão descrita para usuários estrangeiros eliminou uma antiga exigência de verificação de identidade que dificultava a entrada de pessoas de outros países.
Com isso, novos usuários internacionais podem criar uma conta sem precisar fornecer passaporte ou outro documento de identidade, reduzindo uma das barreiras para a expansão do serviço.
A companhia também trabalha em uma experiência em inglês. Materiais apresentados a criadores indicam que uma versão nesse idioma está sendo desenvolvida, passo considerado fundamental para disputar audiência em mercados onde o chinês não é utilizado.
Criadores são parte central da estratégia
A vaga brasileira e os movimentos realizados em outros países mostram que os criadores de conteúdo estão no centro da internacionalização.
A empresa procura identificar produtores relevantes, estabelecer relacionamentos de longo prazo e aproximá-los das áreas de produto e operações.
Esse modelo é semelhante ao que ajudou a consolidar a Bilibili dentro da China. A plataforma combina vídeos produzidos por usuários e criadores, transmissões ao vivo, produções profissionais, games e serviços pagos.
Antes mesmo da atual ofensiva internacional, a empresa já havia buscado nomes conhecidos no Ocidente. Um dos exemplos é MrBeast, um dos maiores criadores do YouTube, que já teve conteúdo levado para a audiência chinesa da plataforma.
A diferença agora é que o movimento começa a ocorrer também no sentido contrário. Em vez de somente trazer criadores estrangeiros para dentro do ecossistema chinês, a Bilibili está preparando estrutura para disputar os próprios usuários e produtores de conteúdo de outros países.
Mais de 376 milhões usam a plataforma todos os meses
A Bilibili chega à expansão internacional com números muito superiores aos de uma plataforma que está começando do zero.
No primeiro trimestre de 2026, a empresa informou ter ultrapassado 376 milhões de usuários ativos mensais. A quantidade de usuários ativos diariamente chegou a 115,2 milhões, crescimento de 8% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Outro dado relevante é o tempo de permanência. Cada usuário ativo passou, em média, 119 minutos por dia dentro da plataforma, quase duas horas diárias e 11 minutos a mais do que um ano antes.
Segundo o CEO da empresa, Rui Chen, o tempo total gasto pelos usuários dentro do serviço avançou 19% no período.
Bilibili tem diferenças importantes em relação ao YouTube
Apesar do apelido de “YouTube chinês”, a Bilibili desenvolveu características próprias ao longo dos anos.
A plataforma conquistou especialmente públicos ligados a anime, games, entretenimento, tecnologia, conhecimento e cultura jovem.
Uma de suas funções mais conhecidas é o chamado bullet chatting, sistema no qual comentários enviados pelos usuários aparecem diretamente sobre o vídeo durante a reprodução.
A ideia transforma o consumo do vídeo em uma experiência coletiva, já que o público acompanha simultaneamente o conteúdo e as reações de outras pessoas.
Além dos vídeos tradicionais, o serviço reúne transmissões ao vivo, conteúdo profissional, jogos e recursos pagos, criando um ecossistema mais amplo do que uma simples cópia de uma plataforma ocidental.
Empresa também prepara sistema para aproximar criadores e anunciantes
Outro ponto importante da internacionalização está na monetização. A companhia trabalha no desenvolvimento de um marketplace destinado a aproximar usuários internacionais, criadores e marcas interessadas em campanhas patrocinadas.
Esse mecanismo pode ser decisivo para competir em mercados dominados pelo YouTube e por outras grandes redes de vídeo.
Para manter produtores profissionais, não basta conquistar downloads. Uma plataforma precisa oferecer audiência, oportunidades comerciais e ferramentas capazes de transformar a produção de conteúdo em fonte de receita.
A estratégia da Bilibili tenta construir justamente esse ciclo, no qual criadores atraem audiência, a audiência desperta interesse dos anunciantes e a publicidade oferece novos incentivos para que mais produtores entrem na plataforma.
Receita trimestral já passa de bilhões de reais
A empresa também entra nessa nova fase em uma situação financeira mais favorável.
No primeiro trimestre de 2026, a receita líquida alcançou 7,47 bilhões de yuans, valor estimado em aproximadamente R$ 5,7 bilhões pela cotação utilizada na publicação original. O resultado representou crescimento de 7% em um ano.
A área de publicidade avançou ainda mais. A receita da divisão aumentou 30% na comparação anual e chegou a 2,59 bilhões de yuans.
No mesmo período, a companhia registrou lucro líquido de 202 milhões de yuans, revertendo o prejuízo apresentado no primeiro trimestre de 2025.
Esse poder financeiro será importante porque uma expansão internacional exige investimento em equipes locais, adaptação do produto, moderação em diferentes idiomas, aquisição de criadores e disputa por anunciantes.
Brasil entra cedo em uma disputa que ainda está começando
A presença de São Paulo entre as cidades escolhidas para recrutamento coloca o Brasil ainda nos primeiros passos desse movimento internacional.
Por enquanto, não há anúncio oficial de uma data para a estreia de uma operação brasileira completa. O que já existe é uma combinação de sinais: contratação no país, aplicativo internacional renovado, preparação de uma versão em inglês e busca por criadores e parceiros em diferentes mercados.
A Bilibili parte para essa tentativa com mais de 376 milhões de usuários mensais, mais de 115 milhões de usuários diários e uma audiência que permanece quase duas horas por dia na plataforma.
Ainda é cedo para saber se essa estrutura será suficiente para transformar a companhia em uma concorrente global do tamanho do YouTube. Mas a empresa já começou a montar uma operação para disputar criadores, usuários e publicidade fora da China, e o Brasil está incluído nessa ofensiva desde a fase inicial.




