Três fatores na meia idade podem reduzir em até 13 anos o tempo de vida sem demência

Cuidar da pressão arterial, controlar a glicose e ficar longe do cigarro durante a meia idade pode ter efeitos que aparecem décadas depois. Um estudo publicado na revista científica Neurology encontrou uma relação importante entre esses três fatores e o número de anos que uma pessoa consegue viver sem desenvolver demência.

Os pesquisadores acompanharam mais de 12 mil adultos e observaram que quem chegou à meia idade sem fumar, sem diabetes e sem alterações importantes na pressão arterial apresentou um período significativamente maior de vida sem demência.

O dado que mais chama atenção: participantes sem os três principais fatores de risco vascular tiveram, em média, 30,1 anos livres de demência entre os 55 e os 95 anos. Entre aqueles que apresentavam os três fatores, a média foi de 17,5 anos.

O que foi analisado durante quase três décadas

O estudo reuniu dados de 12.409 adultos de quatro comunidades diferentes dos Estados Unidos. O acompanhamento começou no início da década de 1990 e continuou até 2022.

Quando entraram na pesquisa, os participantes tinham idade média de 56 anos. Eles passaram por avaliações físicas no começo do acompanhamento e novamente cerca de 26 anos depois.

Para identificar quem desenvolveu demência ao longo desse período, os cientistas utilizaram diferentes fontes de informação, incluindo testes cognitivos, entrevistas por telefone, registros hospitalares e dados relacionados às mortes dos participantes.

A análise concentrou atenção principalmente em três condições presentes durante a meia idade:

  • Tabagismo
  • Diabetes
  • Pressão arterial alta ou baixa

A diferença de quase 13 anos encontrada no estudo

Quando os pesquisadores compararam os grupos, surgiu uma diferença bastante expressiva no tempo vivido sem demência.

Situação na meia idadeAnos médios sem demência
Sem fumar, sem diabetes e sem pressão anormal30,1 anos
Com os três fatores de risco17,5 anos

Na prática, a diferença entre os dois grupos chegou a aproximadamente 12,6 anos.

Josef Coresh, um dos autores da pesquisa e diretor fundador do Optimal Aging Institute da NYU Grossman School of Medicine, explicou que prevenção não significa fazer a demência desaparecer completamente. A ideia é aumentar o número de anos vividos com saúde e deslocar o risco para uma idade mais avançada.

Por que pressão, diabetes e cigarro também afetam o cérebro

Embora essas condições sejam frequentemente associadas a problemas cardíacos, elas também podem prejudicar os vasos sanguíneos responsáveis por abastecer o cérebro.

Segundo Coresh, o cigarro, a pressão alta e o diabetes podem causar danos por diferentes mecanismos. Entre eles estão a redução do fluxo de sangue para o cérebro, o aumento de processos inflamatórios no organismo e um risco maior de acidente vascular cerebral.

Por que isso importa para o cérebro?

O cérebro precisa receber continuamente oxigênio e nutrientes pelo sangue. Quando os vasos são danificados durante anos, essa circulação pode ser comprometida e contribuir para alterações que se acumulam ao longo do envelhecimento.

Os cuidados aos 50 anos podem repercutir décadas depois

Rudy Tanzi, professor de neurologia da Harvard Medical School e diretor do McCance Center for Brain Health, não participou do estudo, mas considera coerente a associação encontrada pelos pesquisadores.

Segundo ele, as alterações ligadas à demência podem começar muito antes do diagnóstico. Uma pessoa que desenvolve a doença aos 80 anos, por exemplo, pode apresentar processos relacionados à condição desde aproximadamente os 50 anos.

Esse ponto ajuda a explicar por que a meia idade recebe tanta atenção nas pesquisas sobre envelhecimento cerebral.

Nesse período da vida, uma pessoa ainda pode não apresentar qualquer sintoma cognitivo, mas fatores cardiovasculares já podem estar afetando silenciosamente os vasos sanguíneos e outros sistemas envolvidos no funcionamento cerebral.

O estudo não significa que a demência pode ser evitada apenas dessa forma

Apesar da diferença observada entre os grupos, os próprios dados precisam ser interpretados com cautela.

A pesquisa foi observacional. Isso significa que os cientistas acompanharam os participantes e identificaram relações entre determinadas condições de saúde e o tempo sem demência, mas não puderam provar que uma coisa necessariamente causou a outra.

Existe ainda outra limitação importante. Entre os mais de 12 mil participantes, somente 176 pessoas apresentavam simultaneamente os três fatores de risco.

Além disso, tabagismo, diabetes e pressão arterial foram avaliados apenas uma vez durante a meia idade. Ao longo de mais de duas décadas, essas condições podem aparecer, desaparecer ou ser controladas com tratamento.

Outro ponto importante: participantes com pior saúde vascular também apresentaram uma probabilidade maior de morrer antes de desenvolver demência. Essa diferença pode ter influenciado o cálculo do número de anos vividos sem a doença.

Pressão e glicose não são os únicos fatores envolvidos

Nir Barzilai, professor de genética e medicina do Albert Einstein College of Medicine, também não participou da pesquisa e chamou atenção para outro aspecto importante.

Pessoas que controlam regularmente a pressão arterial podem também ter outros hábitos positivos. Elas podem praticar exercícios, dormir melhor, cuidar mais da alimentação e ter acesso mais frequente a serviços de saúde.

Esses comportamentos podem contribuir para o resultado e dificultam determinar qual fator teve maior influência sobre o aparecimento da demência.

Há outros cuidados ligados à saúde cerebral

Tanzi reforça que ninguém deve considerar apenas os três fatores avaliados pelo estudo.

Além de não fumar e manter pressão arterial e açúcar no sangue sob controle, ele recomenda atenção ao sono e à qualidade da alimentação.

Uma dieta com menor presença de alimentos ultraprocessados é citada entre os hábitos que podem fazer parte de uma rotina mais favorável à saúde durante o envelhecimento.

O acompanhamento de indicadores como índice de massa corporal e níveis de colesterol também pode fazer parte dessa avaliação geral.

Os principais pontos destacados pela pesquisa

  • Não fumar esteve associado a melhor saúde vascular.
  • A ausência de diabetes foi um dos fatores considerados.
  • Manter a pressão arterial dentro de níveis adequados também fez parte do grupo com melhores resultados.
  • A diferença entre os extremos chegou a aproximadamente 12,6 anos sem demência.
  • O estudo mostra associação e não comprova causa e efeito.

O coração pode dar pistas importantes sobre o envelhecimento do cérebro

Durante muito tempo, pressão alta, diabetes e cigarro foram vistos principalmente como ameaças ao coração e à circulação. Estudos como esse mostram que a discussão pode ser mais ampla.

O estado dos vasos sanguíneos durante a meia idade pode estar ligado ao tempo em que o cérebro permanece saudável nas décadas seguintes.

Isso não significa que uma pessoa que controle esses três fatores estará protegida contra a demência. A doença é complexa e pode ser influenciada por diferentes condições de saúde e hábitos ao longo da vida.

O principal resultado da pesquisa está na associação observada entre uma melhor saúde vascular aos 50 e poucos anos e um período maior de vida sem demência até idades mais avançadas.

Na prática, cuidar da pressão arterial, acompanhar os níveis de glicose, evitar o cigarro, dormir adequadamente e manter uma alimentação equilibrada não beneficia apenas o coração. Esses cuidados também podem fazer parte de uma estratégia mais ampla para preservar a saúde cerebral durante o envelhecimento.