A população rural do Paraná deve cair de 1,19 milhão para cerca de 1,01 milhão de pessoas no início da próxima década, segundo projeção do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social, o Ipardes.
Com isso, a participação dos moradores do campo na população do estado deve recuar de 10% para 8,1%. Para especialistas e representantes do setor, a mudança vai além do esvaziamento das áreas rurais e pode atingir diretamente a variedade de alimentos que chega às cidades.
O alerta está ligado principalmente à agricultura familiar, responsável por cerca de 75% dos estabelecimentos rurais paranaenses. A dificuldade de manter jovens nas propriedades e garantir a sucessão entre gerações pode reduzir a presença de pequenos produtores em atividades importantes para o abastecimento.
Pequenos produtores têm peso importante no abastecimento
Dados do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná, o IDR-PR, mostram que a agricultura familiar possui participação expressiva na produção de diferentes alimentos.
O segmento representa 85,6% das propriedades produtoras de leite e responde por 68,2% do valor da produção de hortaliças no estado.
A participação também é relevante em outros produtos presentes diariamente na alimentação dos paranaenses.
Menos jovens no campo preocupa governo estadual
O secretário estadual da Agricultura e do Abastecimento, Natalino Avance de Souza, afirma que a redução da população rural acompanha uma tendência nacional ligada à urbanização e à mecanização.
Para ele, porém, a menor presença de jovens nas propriedades familiares pode trazer consequências para o abastecimento das cidades.
Segundo o secretário, quanto menor o número de agricultores familiares, maior o risco de redução da variedade de alimentos frescos produzidos localmente, além de possíveis efeitos sobre a concentração de renda e de terras.
A preocupação principal está na sucessão rural. Em muitas propriedades, filhos de agricultores deixam o campo em busca de estudo, renda e oportunidades nas cidades, e nem sempre existe alguém disposto a assumir a produção.
Tecnologia pode ajudar a manter novas gerações nas propriedades
Nem todos os representantes do setor enxergam a redução da população rural como sinal de crise.
Jefrey Albers, gerente do Departamento Técnico e Econômico da Federação da Agricultura do Estado do Paraná, a FAEP, destaca que a modernização do campo vem mudando o perfil das atividades.
Agricultura de precisão, drones, telemetria, máquinas modernas e conectividade passaram a exigir profissionais mais qualificados e, em alguns casos, têm atraído jovens para a administração de médias e grandes propriedades.
Segundo ele, o desafio de encontrar mão de obra qualificada existe em vários setores da economia e também precisa ser enfrentado por meio de capacitação profissional.
Tecnologia também precisa chegar ao pequeno produtor
A Secretaria da Agricultura defende que modernização e sucessão rural sejam tratadas de forma conjunta.
Para Natalino Avance de Souza, não basta ampliar o acesso a novas tecnologias. Pequenos produtores também precisam de assistência técnica, crédito, cooperativismo, internet, infraestrutura e oportunidades para agregar valor à produção.
A avaliação é que a tecnologia pode tornar o trabalho no campo mais produtivo e atrativo, mas precisa vir acompanhada de condições econômicas e sociais capazes de convencer as novas gerações a permanecer nas propriedades.
Jovens também cobram qualidade de vida no interior
Tainá Guanini, secretária de Juventude Rural da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Paraná, a FETAEP, afirma que renda não é o único fator levado em consideração pelos jovens.
Segundo ela, quem pensa em permanecer no campo também observa a disponibilidade de transporte, escolas, universidades, atendimento de saúde, lazer, internet e condições adequadas de deslocamento.
A sucessão rural, portanto, depende de o jovem enxergar a propriedade não apenas como local de trabalho, mas como um lugar onde seja possível construir um projeto de vida.
Paraná aposta em crédito, estradas e cooperativismo
Entre as políticas apontadas pelo governo estadual para estimular a permanência das famílias no campo estão programas de financiamento, assistência técnica e investimentos em infraestrutura.
- Banco do Agricultor Paranaense, com financiamentos subsidiados para automação, energia renovável e irrigação;
- assistência técnica e extensão rural, com capacitação de novos gestores pelo IDR-Paraná;
- pavimentação de estradas rurais, facilitando transporte escolar e escoamento da produção;
- agroindustrialização e cooperativismo, permitindo que pequenos produtores agreguem valor a produtos como queijos, embutidos e alimentos orgânicos.
Governo não prevê desaparecimento do pequeno produtor
Apesar da queda projetada na população rural, a Secretaria da Agricultura não trabalha com um cenário de desaparecimento da agricultura familiar ou domínio exclusivo de grandes grupos agrícolas no Paraná.
A expectativa é de manutenção de um modelo em que propriedades de diferentes tamanhos continuem atuando no setor, embora com necessidade crescente de investimento em produtividade e competitividade.
Entre os principais desafios apontados estão ampliar o acesso ao crédito, reduzir desigualdades regionais, melhorar a infraestrutura e criar condições para que as famílias possam gerar renda suficiente no campo.
Com a população rural projetada para continuar diminuindo, a questão passa a ser não apenas quanto o Paraná conseguirá produzir, mas quem continuará produzindo e qual variedade de alimentos seguirá chegando às cidades nas próximas décadas.




