Passamos aproximadamente um terço da vida dormindo. Algumas manhãs começam com a lembrança detalhada de um sonho estranho. Em outras, resta apenas uma imagem confusa ou absolutamente nada.
Mas a ausência de lembranças não significa que o cérebro tenha simplesmente desligado durante a noite.
Estudos realizados nas últimas décadas mostram que o sono está ligado à consolidação de memórias, processamento emocional, formação de novas associações e reorganização de informações. Os sonhos parecem surgir em meio a esse enorme trabalho noturno, embora a ciência ainda não tenha uma resposta definitiva para uma das perguntas mais antigas sobre o tema: afinal, por que sonhamos?
Até mesmo uma ideia bastante difundida precisa de correção. Sonhar não acontece exclusivamente durante o sono REM. Experiências semelhantes a sonhos também podem aparecer em outras fases do sono, embora os episódios relatados no REM frequentemente sejam mais vívidos e complexos.
Dormir está longe de ser ficar “desligado”
Enquanto o corpo repousa, diferentes redes cerebrais continuam trabalhando. Parte dessa atividade está relacionada à memória, às emoções e à maneira como informações recentes são reorganizadas.
O cérebro pode diminuir o peso emocional de uma lembrança?
Um dos estudos mais conhecidos nessa área foi realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia, Berkeley.
No trabalho publicado em 2011 na revista Current Biology, liderado por Els van der Helm, participantes observaram imagens capazes de provocar respostas emocionais enquanto os cientistas acompanhavam sua atividade cerebral.
Depois de uma noite de sono, uma mudança chamou atenção.
A amígdala, região cerebral fortemente envolvida no processamento das emoções, apresentou uma resposta menos intensa diante de imagens que os participantes já haviam visto anteriormente.
Os pesquisadores relacionaram esse comportamento à fisiologia do sono REM.
Durante essa fase ocorre ainda uma redução importante da atividade noradrenérgica no cérebro. A noradrenalina participa de mecanismos ligados à vigilância, alerta e resposta ao estresse.
O estudo que chamou atenção
van der Helm E. e colaboradores, 2011, Current Biology: o sono REM foi associado a uma redução da reatividade da amígdala diante de experiências emocionais previamente apresentadas.
Essa observação ajudou a fortalecer uma hipótese conhecida como uma espécie de “terapia noturna”.
A ideia é que o cérebro poderia preservar parte da informação de uma experiência enquanto reduz gradualmente a intensidade emocional ligada a ela.
Michael Walker e Els van der Helm discutiram essa hipótese em uma revisão publicada em 2009 no Psychological Bulletin, propondo que o sono, especialmente o REM, poderia desempenhar um papel importante no processamento emocional.
Isso, porém, não significa que sonhar seja um tratamento para traumas ou transtornos psiquiátricos. Trata-se de um modelo utilizado para compreender mecanismos do sono e das emoções.
Dormir pode ajudar a enxergar uma solução que não aparecia antes?
Outro campo fascinante envolve a criatividade.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego investigaram se diferentes estágios do sono poderiam alterar a capacidade de criar associações entre informações aparentemente distantes.
O estudo, publicado em 2009 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, o PNAS, utilizou problemas nos quais os participantes precisavam encontrar conexões entre palavras.
Após um cochilo que incluía sono REM, os participantes apresentaram uma melhora próxima de 40% na resolução de determinados problemas para os quais haviam recebido estímulos anteriormente.
Os pesquisadores interpretaram os resultados como um indício de que o REM pode favorecer a reorganização de redes associativas.
Criatividade depois de dormir
Cai D.J. e colaboradores, PNAS, 2009: participantes que passaram por sono REM durante um cochilo apresentaram melhor desempenho em uma tarefa de associação criativa sob determinadas condições experimentais.
É uma possível explicação para aquela sensação familiar de abandonar um problema aparentemente insolúvel à noite e acordar com uma nova forma de enxergá-lo.
Não significa que o sono produza automaticamente grandes ideias. Mas mostra que o cérebro pode continuar reorganizando relações entre informações mesmo quando não estamos conscientemente tentando resolver o problema.
E quando os sonhos se transformam em pesadelos frequentes?
Pesadelos fazem parte da experiência humana e um episódio isolado normalmente não indica a presença de uma doença.
O cenário muda quando eles se tornam frequentes, prejudicam o descanso ou provocam consequências importantes durante o dia.
Uma revisão sistemática publicada em 2023 na revista Clinical Psychology Review, liderada por Bryony Sheaves e colaboradores, analisou pesquisas sobre pesadelos e sintomas psiquiátricos.
Os estudos encontrados apontaram associações entre pesadelos recorrentes e condições como transtorno de estresse pós-traumático, depressão e ansiedade.
Isso não significa que um pesadelo permita diagnosticar qualquer transtorno.
Mas quando episódios se repetem por longos períodos, fragmentam o sono e interferem na vida cotidiana, eles podem se tornar uma informação relevante dentro de uma avaliação clínica mais ampla.
Agora a inteligência artificial começou a procurar sinais escondidos no sono
Em 2026, a pesquisa sobre o sono avançou em outra direção.
A Stanford Medicine apresentou o SleepFM, um modelo de inteligência artificial treinado utilizando quase 600 mil horas de registros de sono de aproximadamente 65 mil pessoas.
Essas informações vêm de exames de polissonografia, capazes de registrar simultaneamente diferentes sinais fisiológicos durante uma noite.
Entre eles estão:
- atividade elétrica cerebral;
- atividade cardíaca;
- respiração;
- movimentos dos olhos.
O objetivo é utilizar padrões encontrados durante o sono para identificar informações relacionadas ao estado de saúde e estudar sua possível associação com riscos futuros de diferentes doenças.
A ideia não é transformar uma noite de sono em uma previsão infalível do futuro.
O SleepFM é uma ferramenta de pesquisa baseada em grandes volumes de dados e não substitui diagnóstico médico, avaliação clínica ou exames indicados individualmente.
O que o projeto mostra é algo talvez ainda mais impressionante: uma noite contém uma enorme quantidade de informações fisiológicas que, até recentemente, eram difíceis de analisar em conjunto.
600 mil horas de sono
Segundo a Stanford Medicine, o SleepFM foi desenvolvido a partir de registros de aproximadamente 65 mil pessoas. A inteligência artificial aprende padrões combinando sinais cerebrais, cardíacos, respiratórios e oculares registrados durante o sono.
Então os sonhos servem para quê?
Essa continua sendo a parte mais difícil da história.
A ciência sabe bastante sobre os estágios do sono, atividade cerebral, consolidação de memórias e processamento emocional. Mas ainda não existe uma explicação única capaz de responder definitivamente por que produzimos sonhos.
Também é possível que não exista apenas uma função.
Os sonhos podem estar relacionados aos processos que acontecem durante o sono sem necessariamente serem o objetivo central deles. A experiência consciente que lembramos pela manhã pode representar apenas uma pequena parte do enorme conjunto de operações realizadas pelo cérebro durante a noite.
Dormir não é tempo perdido
Mesmo sem solucionar completamente o mistério dos sonhos, as pesquisas deixam algo cada vez mais claro.
Durante o sono, o cérebro continua extremamente ativo.
Ele reorganiza informações, participa da consolidação de memórias, modifica respostas emocionais e cria novas associações entre elementos que já estavam armazenados.
Enquanto isso, o restante do organismo atravessa processos fundamentais para equilíbrio metabólico, cardiovascular, imunológico e neurológico.
Talvez o sonho que conseguimos lembrar ao acordar seja apenas a parte mais visível de uma história muito maior.
Enquanto pensamos que estamos simplesmente descansando, o cérebro continua trabalhando silenciosamente para reorganizar aquilo que vivemos e preparar o organismo para o dia seguinte.
Fontes e estudos citados
- van der Helm E. et al. “REM Sleep Depotentiates Amygdala Activity to Previous Emotional Experiences”. Current Biology, 2011.
- Walker M.P., van der Helm E. “Overnight Therapy? The Role of Sleep in Emotional Brain Processing”. Psychological Bulletin, 2009.
- Cai D.J. et al. “REM, not incubation, improves creativity by priming associative networks”. Proceedings of the National Academy of Sciences, 2009.
- Sheaves B. et al. “Nightmares and psychiatric symptoms: A systematic review of longitudinal, experimental, and clinical trial studies”. Clinical Psychology Review, 2023.
- Stanford Medicine. “New AI model predicts disease risk while you sleep”, 2026, apresentação do modelo SleepFM.




