Nutricionista tomou kombucha todos os dias por 10 semanas e o que mudou não foi só o intestino

Durante dez semanas, a nutricionista norte-americana Lauren O’Connor decidiu transformar a kombucha em um hábito diário. A intenção inicial era observar se o consumo regular de alimentos fermentados provocaria alguma mudança perceptível na digestão.

O resultado acabou indo além do que ela esperava. Ao longo da experiência, Lauren relatou menos inchaço, melhora no funcionamento intestinal e uma redução inesperada na vontade de comer doces.

Mas há um detalhe importante antes de transformar a experiência em recomendação: o que aconteceu com Lauren foi um experimento pessoal, não um ensaio clínico. Durante as dez semanas, ela também modificou outros pontos da alimentação, acrescentou diferentes alimentos fermentados e reconheceu que hidratação, fibras, redução do açúcar e até menor nível de estresse podem ter influenciado o que sentiu.

A surpresa apareceu durante o desafio

Lauren esperava principalmente observar mudanças digestivas. O que mais chamou sua atenção, porém, foi perceber que a vontade de buscar alimentos muito doces começou a diminuir.

Por que ela resolveu beber kombucha durante tanto tempo?

A experiência começou com o interesse de Lauren pela relação entre alimentação, fermentação e microbiota intestinal.

Kombucha é uma bebida produzida normalmente a partir de chá, açúcar e uma cultura de bactérias e leveduras conhecida como SCOBY. Durante a fermentação, os microrganismos utilizam parte do açúcar e produzem ácidos, gás carbônico e pequenas quantidades de álcool.

A bebida ganhou enorme popularidade nos últimos anos, principalmente entre pessoas interessadas em saúde intestinal.

Lauren decidiu testar a rotina depois de conhecer resultados de uma pesquisa realizada por cientistas da Stanford School of Medicine, nos Estados Unidos.

Um estudo da Universidade Stanford ajudou a inspirar o experimento

A pesquisa que chamou a atenção da nutricionista foi publicada em 2021 na revista científica Cell e teve entre os pesquisadores Hannah Wastyk, Gabriela Fragiadakis, Christopher Gardner e Justin Sonnenburg, além de outros integrantes de departamentos da Stanford School of Medicine e centros de pesquisa associados.

O estudo foi um ensaio prospectivo e randomizado que comparou duas estratégias alimentares: uma dieta rica em fibras e outra com grande quantidade de alimentos fermentados.

Na análise final participaram 36 adultos, 18 em cada grupo. A intervenção alimentar principal durou dez semanas, dentro de um protocolo de acompanhamento mais longo que incluiu períodos anteriores e posteriores à intervenção.

Os pesquisadores coletaram amostras de sangue e fezes durante o trabalho para acompanhar alterações na microbiota e no sistema imunológico.

O que Stanford encontrou

No grupo que aumentou o consumo de alimentos fermentados, os cientistas observaram aumento progressivo da diversidade da microbiota intestinal e redução de diferentes marcadores de inflamação.

Isso não significa que kombucha isoladamente tenha produzido esses resultados. Os participantes do estudo consumiram diferentes tipos de alimentos fermentados.

Foi justamente essa pesquisa que levou Lauren a criar uma versão pessoal e bem menos controlada da experiência.

Ela dividiu as dez semanas em três etapas

Em vez de começar ingerindo vários produtos fermentados ao mesmo tempo, Lauren aumentou a variedade gradualmente.

Semanas 1 a 4

Kombucha duas vezes ao dia

Ela tomou aproximadamente 120 ml de kombucha em cada ocasião, totalizando cerca de 240 ml por dia.

Semanas 5 a 8

Iogurte e kefir entraram na rotina

Além da kombucha, passou a consumir principalmente pela manhã produtos lácteos fermentados.

Semanas 9 e 10

Mais alimentos fermentados

Chucrute, miso e pão de fermentação natural também passaram a aparecer nas refeições.

Nas primeiras semanas, transformar a bebida em hábito foi fácil

Uma das razões para Lauren escolher kombucha foi a praticidade. Não havia receita para preparar nem necessidade de organizar uma refeição específica.

Ela podia simplesmente abrir uma garrafa e beber.

A nutricionista costumava dividir o consumo em dois momentos. Uma pequena porção era tomada no fim da tarde e outra depois do jantar.

Ela escolheu uma kombucha comercial que agradava em sabor e carbonatação e que declarava conter culturas adicionadas ao produto.

Esse detalhe é importante porque nem toda kombucha comercial oferece a mesma quantidade ou os mesmos tipos de microrganismos. Algumas bebidas podem ser pasteurizadas, enquanto outras recebem culturas novamente antes do envase.

Kombucha precisa de açúcar para fermentar, mas parte pode continuar na bebida

O açúcar é um dos ingredientes utilizados na fabricação porque serve de alimento para bactérias e leveduras durante a fermentação.

Isso não significa que todo o açúcar desapareça.

A quantidade restante varia conforme receita, duração da fermentação e ingredientes adicionados posteriormente. Algumas marcas ainda acrescentam sucos ou açúcar para modificar o sabor.

Por isso, duas kombuchas aparentemente semelhantes podem apresentar valores nutricionais bastante diferentes.

Não basta olhar apenas a palavra “kombucha”

Quantidade de açúcar, tamanho da porção, pasteurização e presença de culturas vivas podem mudar bastante de uma bebida para outra.

Na quarta semana, ela percebeu a primeira mudança

Por volta da quarta semana, Lauren começou a perceber que estava ficando menos inchada.

A sensação de leveza continuou durante boa parte das semanas seguintes.

Mas ela própria reconheceu que não havia como afirmar que a kombucha fosse a única responsável.

A rotina alimentar estava mudando, o consumo de fibras havia aumentado e ela também estava bebendo mais líquidos.

Outro fator entrou na equação: naquela fase, Lauren sentia que estava menos estressada.

Tudo isso pode influenciar o funcionamento gastrointestinal.

A mudança que realmente a surpreendeu apareceu na vontade de comer doces

Durante o experimento, Lauren percebeu algo que não estava esperando: seus desejos por alimentos muito doces diminuíram.

O efeito parecia aparecer principalmente nos horários em que costumava beber kombucha.

Uma das porções era consumida justamente no final da tarde e a outra depois do jantar, períodos nos quais ela normalmente teria maior vontade de procurar alguma sobremesa.

Depois de beber algo ácido e levemente adocicado como kombucha, comidas extremamente doces pareciam perder parte do apelo para ela.

Foi uma percepção pessoal, não um efeito comprovado da kombucha

O experimento não permite concluir que beber kombucha reduz desejo por açúcar em outras pessoas. Não havia grupo de controle nem controle das demais mudanças na alimentação.

Depois vieram o iogurte e o kefir

Na quinta semana, Lauren passou para a segunda fase e começou a adicionar laticínios fermentados.

Iogurte grego e kefir apareceram principalmente no café da manhã e em lanches.

No começo, a mudança foi fácil. Depois de algumas semanas, entretanto, comer iogurte repetidamente começou a ficar cansativo.

Ela precisou variar as preparações para conseguir manter o plano.

O iogurte apareceu combinado com chia, frutas, granola e até em preparações deixadas na geladeira durante a noite. O kefir foi incorporado principalmente a vitaminas.

A experiência mostrou uma dificuldade comum em qualquer mudança alimentar: um hábito precisa ser sustentável para continuar existindo depois que a novidade passa.

Entre a sexta e a sétima semana, outra mudança apareceu

Por volta das semanas seis e sete, Lauren percebeu uma melhora na consistência das fezes.

Ela não possui síndrome do intestino irritável, mas convive com doença do refluxo gastroesofágico e relatou que seu funcionamento digestivo pode variar.

Mais uma vez, ela evitou atribuir toda a mudança à bebida.

Naquele período, além da kombucha, já estavam presentes iogurte, kefir, uma alimentação com mais fibras e uma hidratação melhor.

Ela também consumia menos açúcar do que durante as festas do final do ano e relatava menos estresse.

Portanto, havia várias explicações possíveis acontecendo ao mesmo tempo.

A fase mais difícil foi aumentar ainda mais a variedade

Nas duas últimas semanas, o desafio deixou de ser simplesmente manter a kombucha.

Lauren precisava acrescentar outros fermentados e descobriu que isso exigia mais planejamento.

Ela incorporou miso, pão de fermentação natural e chucrute.

O miso apareceu principalmente em sopas e caldos. O pão de fermentação natural virou torradas e sanduíches. Já o chucrute foi consumido com menor frequência.

Curiosamente, a kombucha continuava sendo a parte mais fácil da experiência justamente porque não exigia preparo.

Nem tudo o que ela consumiu fornecia necessariamente probióticos vivos

Existe outro ponto importante na experiência.

O termo alimento fermentado não significa automaticamente que o produto contenha probióticos vivos no momento em que é consumido.

Pão de fermentação natural, por exemplo, passa pelo forno. As temperaturas do cozimento eliminam os microrganismos responsáveis pela fermentação.

Mesmo nesses casos, a fermentação pode alterar componentes do alimento e gerar substâncias que continuam presentes depois do processo.

Já produtos como determinados iogurtes, kefires, kombuchas e chucrutes não pasteurizados podem manter culturas vivas, dependendo da produção e do armazenamento.

O experimento terminou, mas um hábito ficou

Quando completou as dez semanas, Lauren avaliou que a experiência havia sido positiva.

Ela relatou três mudanças principais durante o período:

Menos sensação de inchaço
Percebida principalmente a partir da quarta semana.

Menor vontade de comer alimentos muito doces
O resultado que mais a surpreendeu durante o desafio.

Melhor consistência das fezes
Observada principalmente entre a sexta e a sétima semana.

Mas o resultado mais concreto talvez tenha sido comportamental.

Mesmo depois do término do desafio, ela continuou sentindo vontade de tomar kombucha. A bebida havia deixado de ser parte de um experimento e se transformado em um hábito cotidiano, semelhante ao café que já fazia parte de sua rotina.

O que aconteceu com ela não acontecerá necessariamente com todo mundo

É tentador transformar um relato de dez semanas em uma lista de benefícios da kombucha, mas isso iria além do que a experiência permite concluir.

Lauren não bebeu apenas kombucha durante todo o período. A partir da quinta semana, adicionou outros fermentados e também mudou aspectos da dieta.

Não houve exames comparando sua microbiota antes e depois. Também não havia grupo de controle para mostrar o que teria acontecido caso sua alimentação permanecesse igual.

Portanto, menos inchaço, mudanças intestinais e menor vontade de doces foram experiências percebidas por uma pessoa.

A pesquisa de Stanford oferece uma base científica muito mais controlada para investigar alimentos fermentados, mas também não demonstrou que uma garrafa específica de kombucha produza sozinha todos esses efeitos.

O que os dois casos mostram é algo mais simples: alimentos fermentados continuam sendo uma área interessante de investigação, principalmente quando aparecem dentro de uma alimentação diversificada.

E, no caso de Lauren, as dez semanas produziram uma surpresa que ela não esperava no começo do desafio. O experimento acabou, mas a kombucha permaneceu na geladeira.

Avatar photo

Camila Fernanda Ribeiro da Luz

Camila Fernanda Ribeiro da Luz escreve sobre curiosidades, entretenimento, tendências e assuntos do cotidiano que despertam interesse e movimentam as conversas do dia a dia.