Mobilizações em todo o país reúnem reivindicações por moradia, democracia e justiça social

Crédito: Paulo Pinto/Agencia Brasil Paulo Pinto/Agência Brasil © Paulo Pinto/Agência Brasil

Movimentos sociais promoveram, nesta segunda-feira, dia 7, manifestações em mais de 50 cidades brasileiras, distribuídas por todas as regiões, durante a 32ª edição do Grito dos Excluídos. As atividades reuniram marchas, apresentações culturais, celebrações religiosas e protestos voltados a temas como habitação, violência, direitos sociais, meio ambiente e participação política.

A mobilização deste ano teve como lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”. Entre as reivindicações apresentadas estiveram a garantia de moradia digna, a reforma agrária, o fortalecimento da educação pública e do Sistema Único de Saúde, o combate ao feminicídio, ao racismo e à LGBTfobia e o fim da jornada organizada na escala 6×1.

Os atos também abordaram a violência contra as mulheres, a violência policial, a defesa da democracia, a soberania nacional e a preservação ambiental. Em várias cidades, os participantes utilizaram cartazes, bandeiras, faixas e palavras de ordem para expressar suas demandas.

Manifestação em São Paulo

Na capital paulista, a programação começou com um café da manhã comunitário. Depois, os participantes caminharam por ruas da região central e encerraram o percurso com uma missa na Catedral da Sé, dedicada às pessoas que vivem nas ruas.

Miriam Hermogenes, da Central dos Movimentos Populares e uma das organizadoras, afirmou que a liberdade defendida no feriado ainda não é plena enquanto houver brasileiros sem moradia e submetidos à situação de rua. Segundo ela, a data foi utilizada para reforçar que o país ainda precisa avançar na construção de uma sociedade livre.

O coordenador do cursinho Educafro, Frei David Santos, destacou a importância da defesa da democracia e manifestou preocupação com a influência econômica sobre as eleições. Para ele, a participação coletiva no ato serviu como demonstração de compromisso democrático.

Deuza Cordeiro de Lima participou para denunciar a violência policial. Ela contou que seu filho, Thiago, foi morto em janeiro de 2023, na região central de São Paulo. Segundo o relato da mãe, os responsáveis pelo assassinato continuam em liberdade. Ela disse que comparece ao protesto em diferentes anos para manter a denúncia pública e afirmou que não pretende permanecer em silêncio.

A defesa da habitação também levou moradores ao centro da cidade. Célia Souza participou ao lado de amigos e declarou que a moradia é uma necessidade elementar, da qual ninguém deveria abrir mão.

Teatro e protestos no Rio

No Rio de Janeiro, a marcha passou pela Avenida Presidente Vargas depois do desfile de Sete de Setembro. A manifestação contou com a participação da Escola de Teatro Popular, grupo voltado ao teatro político e à educação popular.

Durante o trajeto, ativistas apresentaram cenas sobre soberania nacional e democracia. A iniciativa foi coordenada, entre outros integrantes, pelo pesquisador e dramaturgo Julian Boal, filho de Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido, método que estimula o público a participar da discussão e da busca de respostas para situações de opressão.

Julian Boal explicou que a apresentação pretendia atrair mais pessoas para o protesto e discutir os limites da participação política restrita às eleições. A encenação, segundo ele, procurou mostrar que a sociedade pode atuar dentro das instituições, mas também deve reconhecer que sua força coletiva ultrapassa o resultado de cada disputa eleitoral.

A moradia esteve entre os temas mais enfatizados pelos manifestantes. Ricardo Pitta, coordenador do Movimento Quilombos Urbanos Luta por Moradia Digna, afirmou que os grupos mais vulneráveis dependem da mobilização popular para enfrentar as injustiças. Ele criticou o fato de problemas habitacionais permanecerem subordinados ao calendário eleitoral.

Pitta relatou que famílias continuam ameaçadas de despejo, inclusive em imóveis públicos. Na avaliação dele, esses espaços deveriam cumprir sua função social prevista na Constituição, mas acabam sujeitos à possibilidade de leilão em benefício da especulação imobiliária. O movimento mantém quatro ocupações na cidade.

Os manifestantes cariocas também protestaram contra as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e defenderam o encerramento da escala de trabalho 6×1. A proposta já foi aprovada pela Câmara dos Deputados, mas ainda precisa passar pelo Senado, em votação prevista para depois das eleições.

Outro grupo levou fotografias de pessoas mortas ou desaparecidas durante a Ditadura Militar, período entre 1964 e 1985. A ação reivindicou atenção permanente à democracia e rejeição a novos ciclos autoritários. Um globo cenográfico de aproximadamente três metros simbolizou a preocupação com a crise ambiental.

Durante a marcha, cerca de 15 pessoas se aproximaram e tentaram hostilizar os participantes com gritos. Policiais militares que acompanhavam o percurso intervieram, e o grupo se afastou. Não houve registro de confronto.

Agenda ambiental em Brasília

Em Brasília, integrantes do Núcleo de Ecologia Integral aproveitaram a manifestação para chamar atenção para a crise ecológica e para seus efeitos políticos e sociais. O grupo defendeu que a questão ambiental deve ser tratada como tema de justiça social, responsabilidade pública e proteção da vida.

A economista aposentada Maria do Carmo de Jesus Botafogo afirmou que a destruição do planeta exige mudanças na política ecológica e na maneira como os recursos naturais são utilizados. Para ela, a continuidade do modelo atual pode comprometer as condições de habitação no futuro.

O núcleo apresentou uma carta de compromisso destinada a candidatos progressistas que disputam cargos no Executivo e no Legislativo nas eleições deste ano. O documento foi elaborado depois de um seminário interno e reúne propostas em quatro áreas: políticas agrícolas e fundiárias; políticas urbanas e gestão de resíduos no Distrito Federal e no Entorno; justiça climática e proteção às vítimas; e preservação da nascente da Estação Ecológica de Águas Emendadas.

A área protegida é relevante por alimentar duas bacias hidrográficas: a dos rios Tocantins-Araguaia e a do Paraná. Ana Clara Botafogo, engenheira florestal e filha de Maria do Carmo, informou que o grupo pretende entregar a carta a todos os eleitos depois do pleito, independentemente de sua orientação ideológica. Segundo ela, a responsabilidade pela proteção ambiental será a mesma para todos os ocupantes de cargos públicos.

Voz para grupos marginalizados

A professora universitária Altaci Kokama avaliou que o Grito dos Excluídos se firmou, ao longo de suas 32 edições, como espaço para que pessoas afastadas das decisões políticas apresentem necessidades e reivindicações. Ela citou entre os excluídos aqueles que não têm casa, trabalho, alimento ou acesso à justiça.

Altaci também observou que a capacidade de mobilização é desigual. Grupos com mais recursos financeiros conseguem transportar e alimentar participantes, enquanto organizações populares nem sempre dispõem da estrutura necessária. Por isso, muitas pessoas interessadas em participar acabam impedidas pelas próprias condições materiais.

Apesar das dificuldades, a professora destacou a continuidade dos debates realizados diretamente com as comunidades. As manifestações do dia 7 combinaram reivindicações locais e nacionais, reunindo pautas de habitação, trabalho, direitos humanos, democracia, igualdade, soberania e meio ambiente em diferentes pontos do país.

Via Agência Brasil

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João Pedro Rafannelli

João Pedro Rafannelli acompanha os principais acontecimentos do Brasil, com foco em notícias, decisões, fatos relevantes e temas que impactam diretamente o dia a dia da população.