O mercado financeiro brasileiro já começa a ajustar posições considerando a possibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva vencer novamente a eleição presidencial de 2026, ao mesmo tempo em que cresce o debate sobre o tamanho do ajuste fiscal que o próximo governo poderá ser obrigado a enfrentar.
Esse movimento ocorre mesmo depois de pesquisas recentes mostrarem uma disputa mais apertada entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro. Para analistas ouvidos na avaliação divulgada pela Gazeta do Povo, precificar um cenário eleitoral não significa apoio político a determinado candidato, mas uma tentativa de antecipar riscos, juros, câmbio e oportunidades de investimento.
Desde dezembro de 2025, os juros futuros avançaram e o dólar chegou a R$ 5,25 em agosto. O J.P. Morgan trabalha com a possibilidade de a moeda americana alcançar R$ 5,50 diante da combinação entre incerteza eleitoral e preocupação com as contas públicas.
Dívida maior e Selic em 14% aumentam preocupação fiscal
O pano de fundo da discussão é a trajetória das contas públicas. Segundo dados do Banco Central citados na análise, a dívida bruta do governo passou de 71,7% do Produto Interno Bruto no fim de 2022 para 81,9% do PIB em junho de 2026.
Ao mesmo tempo, a taxa Selic permanece em 14% ao ano, mantendo elevado o custo do crédito e aumentando a atenção dos investidores sobre a capacidade do próximo governo de controlar despesas e estabilizar a trajetória da dívida.
Até 13 de agosto, investidores estrangeiros haviam retirado cerca de R$ 16 bilhões da Bolsa brasileira, movimento que também ocorre em um ambiente marcado por maior cautela em relação às eleições e à política fiscal.
Pesquisa mostra Lula e Flávio em disputa apertada
O cenário eleitoral ganhou ainda mais peso depois da pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto. Em uma simulação de segundo turno, Lula apareceu com 47% e Flávio Bolsonaro com 43%.
A diferença de quatro pontos mantém a disputa tecnicamente apertada dentro das condições do levantamento e reforça, entre investidores, a percepção de que a eleição ainda está aberta.
Quanto maior a incerteza sobre o resultado e sobre a política econômica que será adotada a partir de 2027, maior tende a ser a volatilidade dos ativos financeiros.
Precificar Lula não significa que mercado apoie Lula
Analistas rejeitam a interpretação de que a movimentação dos ativos represente uma preferência da chamada Faria Lima pela reeleição do presidente.
O mercado financeiro reúne agentes com interesses bastante diferentes. Gestores de fundos, investidores de renda fixa, bancos comerciais, empresas e operadores de curto prazo podem reagir de maneiras distintas ao mesmo cenário de juros altos e instabilidade.
Raul Sena, CEO da AUVP, afirma que gestores profissionais costumam montar carteiras considerando diferentes resultados eleitorais, justamente para evitar que todo o patrimônio fique dependente de uma única hipótese.
Hugo Queiroz, da L4 Capital, avalia que apenas uma parcela pequena dos agentes consegue encontrar vantagens no ambiente atual. Entre os possíveis beneficiados estão grandes bancos comerciais, que operam com spreads maiores quando os juros permanecem elevados.
Juros altos podem favorecer bancos, mas pressionam empresas
Rodrigo Miotto, da Nippur Finance, explica que os grandes bancos podem aumentar ganhos nas operações de crédito em períodos de juros elevados, devido à diferença entre o custo de captação e as taxas cobradas dos clientes.
Para empresas e parte do mercado de investimentos, entretanto, o ambiente é mais difícil. O crédito privado fica mais restrito, projetos tornam-se mais caros e decisões de longo prazo passam a depender de maior previsibilidade fiscal e monetária.
A instabilidade também dificulta a avaliação de títulos públicos de prazo mais longo, porque mudanças nas expectativas de inflação, juros e dívida afetam diretamente os preços desses papéis.
Flávio Bolsonaro apresentou equipe econômica com agenda liberal
Em meio ao aumento da disputa eleitoral, Flávio Bolsonaro apresentou na semana passada integrantes de seu time econômico, formado por nomes associados a uma agenda mais liberal.
Entre as propostas mencionadas está a substituição do atual arcabouço fiscal por uma regra considerada mais rígida e vinculada à trajetória da dívida pública, além da redução de ministérios e de cargos no governo federal.
Lula, por outro lado, tem evitado detalhar neste momento qual seria sua estratégia fiscal para um eventual novo mandato. Economistas próximos ao campo político do governo defendem, em diferentes graus, maior participação do Estado na promoção do crescimento econômico.
Parte do mercado acredita que Lula seria obrigado a fazer ajuste fiscal
Uma das principais discussões entre investidores é se, caso seja reeleito, Lula teria espaço para manter a atual orientação econômica ou se as condições fiscais obrigariam o governo a adotar medidas mais duras já no início de 2027.
Christopher Garman, da Eurasia, afirmou à Bloomberg que considera provável alguma reforma destinada a enfrentar o crescimento dos gastos obrigatórios em um eventual quarto mandato de Lula.
Essa interpretação, porém, não é consenso.
Raul Sena questiona a expectativa de uma guinada fiscal e afirma não enxergar sinais claros do atual governo nessa direção. Hugo Queiroz também demonstra ceticismo e avalia que o histórico das administrações petistas não sustenta, na visão dele, a expectativa de uma política de forte austeridade.
Essas avaliações representam opiniões dos analistas e não uma definição sobre quais medidas Lula adotaria caso seja reeleito.
Problema fiscal deverá atingir qualquer vencedor
Para Thaís Zara, economista-chefe da 4intelligence, a dificuldade fiscal não estará limitada a Lula ou Flávio Bolsonaro.
Segundo ela, qualquer presidente eleito encontrará grande parcela do Orçamento comprometida com despesas obrigatórias e precisará enfrentar resistência política caso tente alterar regras de gastos.
Uma agenda dessa natureza dependeria de negociação com o Congresso Nacional e poderia envolver temas politicamente sensíveis.
Entre os pontos que eventualmente poderiam entrar em uma discussão fiscal estão a regra de reajuste do salário mínimo, os pisos constitucionais de saúde e educação e a revisão de benefícios tributários.
Eleição e contas públicas devem continuar mexendo com os mercados
Com Lula e Flávio Bolsonaro aparecendo próximos nas pesquisas e a dívida pública mantendo trajetória de alta, a tendência é de que o mercado continue reagindo simultaneamente às notícias eleitorais e aos sinais sobre a política econômica.
A discussão deixou de ser apenas sobre quem vencerá a eleição. Para investidores, cresce também a pergunta sobre quem terá condições políticas de realizar um ajuste nas contas públicas e quais medidas serão adotadas a partir de 2027.
Enquanto essas respostas permanecem indefinidas, câmbio, juros e fluxo de investimentos devem continuar refletindo tanto a disputa presidencial quanto a percepção de risco fiscal do país.




