Matcha virou febre, mas ciência separa efeitos reais de promessas sobre energia, foco e metabolismo

Durante muito tempo, o matcha esteve associado principalmente à tradição japonesa do chá. Hoje, o pó verde aparece em cafeterias, academias, rotinas de atletas e publicações de quem procura alternativas ao café.

Parte dessa popularidade tem uma explicação interessante. Diferentemente do chá verde convencional, em que as folhas são colocadas em água e depois descartadas, no matcha a folha da Camellia sinensis é transformada em um pó fino e consumida junto com a bebida.

Isso faz com que cafeína, L-teanina, catequinas e outros compostos da folha estejam presentes na porção ingerida.

Mas a popularidade também trouxe exageros. Nas redes sociais, o matcha passou a ser apresentado como bebida capaz de aumentar foco, acelerar metabolismo, melhorar desempenho esportivo e oferecer uma energia supostamente muito superior à do café.

A ciência mostra um cenário mais interessante e também mais moderado.

O que existe de diferente no matcha?

Ele reúne cafeína, L-teanina e compostos antioxidantes do chá verde. Essa combinação ajuda a explicar o interesse por efeitos sobre alerta e atenção, mas não transforma a bebida em tratamento para fadiga, obesidade ou qualquer doença.

O matcha é chá verde, mas o jeito de consumir muda

O matcha é produzido a partir da mesma espécie vegetal utilizada para outros tipos de chá verde, a Camellia sinensis.

Uma diferença importante está no processo de produção. Antes da colheita, as plantas destinadas ao matcha tradicional passam por um período de sombreamento.

Depois, as folhas são processadas e moídas até formar o pó fino característico.

Enquanto uma infusão convencional extrai apenas parte dos componentes da folha para a água, no matcha o próprio material vegetal pulverizado é ingerido.

É justamente por isso que comparações simples como “uma xícara de matcha equivale a várias xícaras de chá verde” precisam ser vistas com cuidado. A concentração final depende do produto, da quantidade de pó utilizada e da forma de preparo.

Matcha em pó e bebida preparada com chá verde
Matcha em pó e bebida preparada. Foto: dungthuyvunguyen/Wikimedia Commons, imagem disponibilizada em CC0.

Cafeína e L-teanina ajudam a explicar o efeito sobre o foco

O efeito estimulante do matcha está relacionado principalmente à cafeína.

Já a L-teanina é um aminoácido naturalmente encontrado nas folhas do chá e que vem sendo estudado há anos por possíveis efeitos sobre atenção e desempenho cognitivo.

Um dos pontos mais interessantes é justamente a combinação das duas substâncias.

Uma revisão sistemática com meta-análise de ensaios randomizados publicada em 2025 analisou estudos envolvendo chá, L-teanina e L-teanina combinada à cafeína. Os resultados indicaram pequenos benefícios em algumas medidas de atenção e desempenho cognitivo, embora os próprios autores tenham destacado incertezas e a necessidade de mais pesquisas.

Leia a revisão científica sobre chá, L-teanina, cafeína e cognição

Outro ensaio randomizado já havia encontrado melhora em tarefas que exigiam mudança rápida de atenção após a combinação de L-teanina e cafeína.

Acesse o estudo sobre L-teanina, cafeína e atenção

Esses resultados ajudam a explicar por que algumas pessoas relatam sensação de concentração ao tomar matcha.

Mas eles não demonstram que todas as pessoas terão a mesma experiência.

A famosa energia “sem queda” não é garantida

É comum encontrar a afirmação de que o matcha fornece uma energia mais constante do que o café e evita completamente aquela sensação de queda depois do efeito estimulante.

Isso não pode ser tratado como regra.

O matcha continua contendo cafeína, e a resposta à substância muda bastante de uma pessoa para outra.

Genética, horário de consumo, tolerância habitual, quantidade ingerida, sono e até outros alimentos ou bebidas consumidos no mesmo período podem modificar a experiência.

Quem é mais sensível à cafeína pode apresentar insônia, agitação, ansiedade, tremores ou palpitações, especialmente quando combina matcha com café, energéticos ou outros estimulantes.

Natural não significa sem estimulante

O matcha vem de uma planta, mas isso não elimina o efeito da cafeína. Para algumas pessoas, tomar a bebida perto da noite pode atrapalhar o sono da mesma forma que outras fontes de cafeína.

Catequinas e EGCG explicam parte do interesse antioxidante

Outro grupo de compostos presentes no chá verde são os polifenóis.

Entre eles estão as catequinas, incluindo a conhecida epigalocatequina galato, ou EGCG.

Essas substâncias apresentam atividade antioxidante em estudos laboratoriais e vêm sendo investigadas por possíveis relações com metabolismo e saúde cardiovascular.

O problema aparece quando um efeito observado em laboratório é transformado automaticamente em uma promessa clínica.

Uma substância possuir propriedades antioxidantes não significa que beber matcha vá prevenir doenças ou compensar uma alimentação inadequada.

Da mesma forma, não há base para tratar a bebida como substituta de sono adequado, atividade física ou tratamento médico.

Matcha ajuda mesmo a emagrecer?

Chá verde, cafeína e catequinas aparecem frequentemente em pesquisas sobre gasto energético e controle do peso.

Isso ajudou a criar a fama de que matcha seria uma espécie de “queimador de gordura natural”.

A evidência não permite uma conclusão tão simples.

O National Center for Complementary and Integrative Health, dos Estados Unidos, informa que estudos com produtos de chá verde encontraram alguns efeitos metabólicos, mas os resultados não justificam considerar o chá uma estratégia isolada de emagrecimento.

Confira as informações do NCCIH sobre chá verde

Se uma pessoa substitui uma bebida muito açucarada por matcha sem açúcar, por exemplo, pode acabar reduzindo calorias da dieta.

Isso é diferente de afirmar que o próprio matcha “derrete” gordura corporal.

Por que atletas passaram a se interessar pela bebida?

Entre praticantes de atividade física, o interesse está relacionado principalmente à cafeína e aos compostos do chá verde.

A cafeína possui efeitos bem conhecidos sobre alerta e desempenho em determinados contextos esportivos.

Mas isso não significa que o matcha tenha sido comprovado como uma bebida capaz de acelerar recuperação muscular ou aumentar massa muscular.

Também não é correto apresentar os polifenóis como responsáveis por uma recuperação imediata depois do exercício.

Para desempenho e composição corporal, fatores como treinamento, ingestão energética, quantidade adequada de proteína, sono e recuperação continuam tendo muito mais peso do que uma bebida isolada.

O maior cuidado está nos produtos concentrados

Para adultos saudáveis, chá verde consumido normalmente como bebida é considerado seguro em quantidades moderadas.

O cenário muda quando se fala de extratos concentrados de chá verde vendidos em cápsulas ou suplementos.

O NCCIH relata que efeitos adversos como náusea, desconforto abdominal e aumento da pressão podem ocorrer com alguns extratos.

Também existem relatos raros de lesão hepática, principalmente relacionados a produtos concentrados em comprimidos ou cápsulas.

Por isso, não é correto colocar uma xícara tradicional de matcha e uma cápsula de extrato concentrado na mesma categoria.

Pessoas que utilizam medicamentos também precisam de atenção porque produtos derivados do chá verde podem interagir com determinados remédios.

Gestantes e pessoas sensíveis à cafeína precisam observar a quantidade

Como contém cafeína, o matcha também entra na conta diária de estimulantes.

Isso é especialmente importante para quem consome café, refrigerantes com cafeína, energéticos ou suplementos pré-treino no mesmo dia.

Durante a gestação, a ingestão total de cafeína merece controle e deve seguir as recomendações recebidas no acompanhamento de saúde.

Quem já percebe palpitações, dificuldade para dormir ou ansiedade após consumir cafeína também pode precisar reduzir a quantidade ou evitar o matcha em determinados horários.

Então por que o matcha continua tão interessante?

Porque não é necessário transformar uma bebida em solução milagrosa para que ela tenha características interessantes.

O matcha oferece uma maneira diferente de consumir chá verde, reúne cafeína, L-teanina e catequinas e pode substituir outras bebidas dentro de uma alimentação equilibrada.

Há evidências de que cafeína e L-teanina juntas podem favorecer alguns aspectos da atenção e do desempenho cognitivo. Também existe uma ampla linha de pesquisa sobre os compostos do chá verde.

O que ainda não existe é base para afirmar que uma xícara de matcha emagrece sozinha, aumenta músculos, elimina a fadiga ou funciona como tratamento contra doenças.

O pó verde pode ter conquistado atletas, cafeterias e redes sociais, mas seu lugar mais realista continua sendo muito mais simples: uma bebida com cafeína e compostos bioativos que pode fazer parte da rotina, sem precisar carregar a promessa de resolver tudo.

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Camila Fernanda Ribeiro da Luz

Camila Fernanda Ribeiro da Luz escreve sobre curiosidades, entretenimento, tendências e assuntos do cotidiano que despertam interesse e movimentam as conversas do dia a dia.