Quando vários terremotos importantes acontecem em um intervalo curto, a sensação é quase inevitável: alguma coisa parece estar mudando no planeta.
Uma sequência recente de abalos em diferentes partes do mundo voltou a colocar essa dúvida em evidência. Afinal, estariam acontecendo mais terremotos hoje do que no passado ou simplesmente estamos percebendo melhor eventos que sempre fizeram parte da dinâmica da Terra?
Os registros analisados por sismólogos apontam para a segunda possibilidade.
Embora determinados períodos concentrem vários terremotos fortes, os dados históricos não mostram um crescimento contínuo na frequência dos grandes eventos. O que mudou de maneira significativa foi nossa capacidade de detectá-los, registrá-los e receber informações sobre eles praticamente em tempo real.
Os registros instrumentais disponíveis não indicam que grandes terremotos estejam se tornando permanentemente mais frequentes. Alguns anos apresentam muitos eventos e outros, bem menos.
Por que surgiu novamente a impressão de que o planeta está tremendo mais
A dúvida costuma aparecer quando grandes eventos acontecem em sequência e recebem ampla cobertura.
O conteúdo original destaca terremotos registrados em agosto em diferentes regiões, incluindo Colômbia e Espanha, além de uma sequência anterior na Região de Murcia.
Quando movimentos desse tipo aparecem separados por apenas alguns dias, é natural imaginar que exista alguma conexão entre eles.
Mas proximidade no calendário não significa necessariamente que um evento tenha provocado outro.
Grandes terremotos podem ocorrer em regiões geologicamente muito diferentes e resultar de processos independentes nas placas tectônicas.
O planeta registra em média cerca de 16 grandes terremotos por ano
Dados reunidos pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, são utilizados para mostrar como a frequência dos maiores terremotos varia ao longo do tempo.
Tomando como referência os registros desde 1900, a média apresentada é de aproximadamente 16 terremotos importantes por ano.
Dentro desse total, cerca de:
15 terremotos por ano
ficam, em média, entre magnitudes 7,0 e 7,9.
1 terremoto por ano
atinge, em média, magnitude 8,0 ou superior.
Esses números são médias históricas. Eles não significam que todos os anos precisam apresentar exatamente 16 grandes eventos.
Na verdade, a variação pode ser considerável.
O material cita 2010 como um ano que registrou 23 grandes terremotos, enquanto em 1989 foram contabilizados apenas seis.
Uma diferença desse tamanho chama atenção, mas ainda pode ocorrer dentro da variabilidade natural de um processo que não apresenta a mesma quantidade de eventos a cada ano.

Uma sequência de terremotos fortes pode acontecer sem existir uma causa comum
Esse é um dos pontos mais interessantes da explicação científica.
Os sismólogos Peter Shearer e Philip Stark analisaram a distribuição histórica dos grandes terremotos e concluíram que a ocorrência desses eventos pode ser descrita estatisticamente por um processo aleatório semelhante ao chamado processo de Poisson.
Na prática, isso significa que eventos independentes podem acabar aparecendo muito próximos uns dos outros simplesmente pelo comportamento natural das probabilidades.
Pense em uma sequência de acontecimentos aleatórios. Eles não precisam aparecer perfeitamente espaçados.
Podem existir períodos longos com poucos eventos e, de repente, vários acontecimentos concentrados em uma mesma janela de tempo.
Uma racha de terremotos, portanto, não é automaticamente evidência de que a atividade sísmica global aumentou.
Quando vários terremotos fortes acontecem em poucos dias, eles parecem formar um padrão. Estatisticamente, porém, eventos aleatórios também podem aparecer agrupados sem que exista uma única causa conectando todos eles.
Hoje conseguimos registrar terremotos que décadas atrás passariam despercebidos
Existe ainda uma mudança enorme entre o mundo atual e aquele de um século atrás.
Ela não aconteceu no interior da Terra, mas na superfície.
As redes de monitoramento sísmico cresceram, os sensores se tornaram mais sensíveis e a comunicação entre estações de diferentes países ficou muito mais rápida.
Hoje é possível registrar terremotos pequenos, réplicas e movimentos em regiões distantes que poderiam simplesmente passar despercebidos décadas atrás.
Isso cria uma diferença importante entre quantidade de terremotos que acontecem e quantidade de terremotos que conseguimos detectar.
O segundo número cresceu fortemente com a evolução tecnológica.
A internet também mudou completamente a maneira como percebemos os terremotos
Existe ainda um fator que não depende da geologia.
Um terremoto ocorrido há algumas décadas em uma região distante poderia demorar horas ou dias para ganhar repercussão internacional.
Hoje, poucos minutos depois de um abalo, vídeos, alertas, mapas, relatos e imagens começam a circular nas redes sociais e nos portais de notícia.
Quando outro terremoto ocorre alguns dias depois em outro continente, o primeiro ainda está fresco na memória.
Isso aumenta a sensação de continuidade.
A humanidade não apenas detecta mais terremotos. Também recebe muito mais informação sobre eles e com muito menos intervalo.
Nem todo terremoto deve ser interpretado apenas pela magnitude
Quando dois terremotos aparecem nas notícias, a magnitude costuma ser o primeiro número utilizado para compará-los.
Mas o impacto de um evento depende de várias outras características.
Profundidade, localização do epicentro, distância das áreas habitadas, características do solo, qualidade das construções e densidade populacional podem mudar completamente as consequências.
Um terremoto de magnitude elevada e muito profundo pode produzir efeitos diferentes de um evento menor ocorrido próximo da superfície e de uma cidade densamente povoada.
Por isso, números semelhantes de magnitude não garantem níveis semelhantes de destruição.
E as réplicas? Elas não significam que vários novos terremotos independentes começaram
Depois de um terremoto importante, é comum ocorrerem réplicas na mesma região.
Esses movimentos fazem parte do reajuste da crosta depois do evento principal.
Dependendo da magnitude e das características geológicas, a sequência pode incluir dezenas ou até um número muito maior de movimentos menores.
Isso também pode distorcer a percepção de quem acompanha os dados diariamente.
Uma região que apresenta um terremoto principal seguido por numerosas réplicas passa a aparecer repetidamente nos sistemas de monitoramento, mas isso não equivale necessariamente a uma explosão global de grandes terremotos independentes.
Eventos podem ocorrer em grupos
Vários grandes terremotos podem aparecer em uma mesma época por variação natural.
Detectamos muito mais
Redes modernas registram eventos pequenos e réplicas que antes poderiam passar despercebidos.
Sabemos deles imediatamente
Notícias, redes sociais e alertas globais fazem eventos distantes parecerem muito mais próximos.
Então os grandes terremotos estão aumentando ou não?
De acordo com os registros históricos destacados no conteúdo, não existe evidência de um crescimento sustentado na frequência global dos grandes terremotos.
Isso não significa que todos os anos sejam iguais.
Alguns períodos inevitavelmente terão mais eventos e poderão parecer especialmente intensos. Outros terão números bem menores.
O que importa para identificar uma tendência real não é observar apenas uma semana, um mês ou mesmo um ano isolado.
É necessário analisar séries históricas longas.
E, quando os dados desde 1900 são observados dessa maneira, as variações continuam dentro do comportamento esperado.
O ano de 2010 ajuda a entender por que um período movimentado não cria sozinho uma tendência
O contraste apresentado entre 2010 e 1989 é bastante ilustrativo.
Em 2010, foram contabilizados 23 grandes terremotos, enquanto 1989 apresentou apenas seis.
Se alguém observasse apenas 2010, poderia concluir que os grandes terremotos estavam disparando.
Se a mesma análise fosse feita apenas com 1989, a impressão poderia ser exatamente oposta.
É por isso que cientistas utilizam períodos muito maiores para distinguir uma tendência real de uma oscilação natural.
Uma sequência assustadora não significa que exista um efeito dominó pelo planeta
Quando grandes terremotos acontecem em países diferentes em poucos dias, surge rapidamente a hipótese de que um esteja desencadeando o outro.
Mas o fato de dois eventos acontecerem próximos no tempo não é suficiente para demonstrar essa conexão.
Os terremotos estão ligados às tensões acumuladas e liberadas em sistemas geológicos específicos.
Por isso, os pesquisadores precisam analisar localização, profundidade, falhas geológicas e outros dados antes de atribuir qualquer relação entre dois eventos.
A coincidência temporal, sozinha, não prova que exista uma cadeia global de terremotos.
O que realmente mudou foi nossa capacidade de observar um planeta que sempre esteve em movimento
A Terra não é geologicamente estática.
Terremotos fazem parte do funcionamento natural de um planeta formado por placas tectônicas em movimento.
O que mudou profundamente nas últimas décadas foi a quantidade de instrumentos disponíveis para registrar esses movimentos e a velocidade com que os dados chegam ao público.
Hoje, um tremor pequeno em uma região pouco habitada pode entrar quase instantaneamente em bancos de dados globais.
Ao mesmo tempo, um grande evento pode ser acompanhado por milhões de pessoas enquanto ainda está acontecendo.
Essa combinação pode criar a sensação de que tudo está tremendo mais.
Mas, olhando para os registros de longo prazo, os geólogos não encontram até agora evidência de que o planeta esteja produzindo mais grandes terremotos de maneira sustentada do que produzia anteriormente.
Fontes e estudos citados
- Serviço Geológico dos Estados Unidos, USGS. Registros históricos utilizados para estimar a frequência média anual de grandes terremotos desde 1900.
- Análise dos sismólogos Peter Shearer e Philip Stark sobre a distribuição temporal de grandes terremotos e seu comportamento estatístico compatível com um processo aleatório de Poisson.

