Depois de alguns meses trabalhando em um ambiente que já vinha me desgastando bastante, finalmente aconteceu aquilo que, no fundo, eu já imaginava que poderia acontecer: fui dispensado.
Não fiquei exatamente surpreso. A relação com meu chefe, que vou chamar aqui de Roberto, estava longe de ser boa havia algum tempo. Existiam cobranças exageradas, discussões desnecessárias e várias situações que eu simplesmente engolia para evitar problemas maiores.
Naquele dia, porém, achei que tudo terminaria de maneira relativamente simples. Eu recolheria minhas coisas, apagaria alguns arquivos pessoais do computador que utilizava e iria embora.
O que deveria levar poucos minutos acabou virando uma confusão dentro do escritório, com gritos, contato físico e até a presença da polícia.
Só queria apagar o que era meu
Quando fui informado da demissão, o próprio Roberto disse que eu poderia retirar meus pertences e excluir do computador qualquer arquivo pessoal que tivesse deixado ali.
Até então, tudo certo.
Eu sempre tentei evitar misturar minhas coisas particulares com o trabalho. Inclusive, algum tempo antes, havia instalado um navegador diferente exclusivamente para resolver assuntos pessoais rápidos quando necessário.
Foi por meio desse navegador, por exemplo, que eu havia acessado informações relacionadas ao agendamento do meu exame prático de habilitação. Havia alguns dados pessoais salvos ali, histórico de acesso e outras informações que eu obviamente não queria deixar em um computador da empresa depois de sair.
Por isso, sentei diante da máquina e comecei a organizar tudo.
Eu não estava apagando programas utilizados pela empresa, documentos de clientes, arquivos internos ou qualquer material relacionado ao trabalho. Minha intenção era simplesmente remover minhas próprias informações.
Foi aí que Roberto percebeu o navegador instalado.
Ele simplesmente arrancou o computador da tomada
A reação dele foi completamente diferente do que eu esperava.
Antes mesmo de perguntar o que eu estava fazendo, ele começou a dizer em voz alta que eu não tinha autorização para apagar nada daquele computador.
Tentei explicar que aquele navegador tinha sido instalado por mim e que eu estava apenas removendo informações pessoais, exatamente como ele mesmo havia permitido minutos antes.
Ele não quis ouvir.
Em determinado momento, enquanto eu ainda estava diante do computador, ele simplesmente puxou o cabo e desligou a máquina da tomada.
Fiquei alguns segundos tentando entender o motivo daquela reação.
Expliquei novamente que não estava mexendo nos arquivos da empresa. Disse que poderia ligar o computador na frente dele, mostrar o que estava sendo removido e resolver aquilo sem nenhum problema.
Mas naquele momento qualquer tentativa de conversa parecia inútil.
Ele começou a gritar dizendo que tudo que estivesse naquele computador pertencia à empresa, inclusive o navegador que eu havia instalado por conta própria.
Eu insistia que havia informações pessoais minhas ali e que não sairia deixando dados particulares disponíveis depois da minha demissão.
Foi quando a situação realmente saiu do controle.
A discussão virou contato físico
Enquanto eu tentava voltar para perto do computador, Roberto segurou meu braço e me afastou da máquina.
Naquele instante, perdi a paciência.
Meses de situações desagradáveis, cobranças, comentários e coisas que eu havia preferido ignorar simplesmente vieram à tona de uma vez.
Respondi que ele não tinha direito de colocar a mão em mim e acabei dizendo tudo aquilo que vinha guardando durante o período em que trabalhei ali.
Não foi uma conversa educada. Muito pelo contrário.
Eu estava demitido, irritado e, naquele momento, já não existia mais qualquer preocupação em preservar uma relação profissional que havia acabado.
A discussão ficou tão pesada que percebi que não havia mais condições de resolver aquilo apenas entre nós.
Então peguei o celular e chamei a polícia.
Enquanto aguardava, a tensão continuou no escritório. Eu só repetia que queria retirar meus dados pessoais e ir embora. Ele continuava dizendo que eu não poderia mexer no equipamento.
O mais absurdo, para mim, era pensar que toda aquela situação poderia ter sido evitada facilmente.
Bastava acompanhar o que eu estava apagando.
Bastava perguntar.
Bastava deixar que eu mostrasse quais informações eram minhas.
Só consegui terminar com outras pessoas presentes
Depois que mais pessoas passaram a acompanhar a situação, finalmente consegui acessar novamente o computador.
Dessa vez, fiz tudo diante de testemunhas.
Abri o navegador, removi minhas informações pessoais e deixei claro o que estava sendo excluído. Nenhum documento da empresa foi apagado.
Era exatamente aquilo que eu havia tentado explicar desde o começo.
Quando terminei, recolhi minhas coisas e fui embora.
Saí dali com uma mistura estranha de raiva e alívio.
Raiva porque uma situação simples havia chegado àquele ponto. Alívio porque, depois de tantos meses acumulando desgaste, eu sabia que não precisaria voltar para aquele ambiente no dia seguinte.
Existe ainda outro detalhe importante: durante boa parte da confusão, meu celular estava gravando.
Por causa do que aconteceu, especialmente o momento em que fui segurado e afastado fisicamente do computador, decidi guardar o material e procurar orientação sobre quais medidas posso tomar.
Também pretendo reunir outras situações ocorridas durante os meses anteriores, porque aquele episódio não surgiu completamente do nada. Para mim, foi apenas o momento em que uma relação profissional já desgastada finalmente explodiu.
Talvez algumas pessoas pensem que eu deveria simplesmente ter ido embora e deixado os arquivos para trás.
Mas eram meus dados pessoais.
E o mais irônico é que eu estava seguindo justamente a orientação que havia recebido minutos antes: retirar minhas coisas e apagar aquilo que fosse pessoal.
No final, uma tarefa que deveria durar cinco minutos terminou com uma discussão enorme, polícia no escritório e a certeza de que aquela demissão provavelmente foi uma das melhores coisas que poderiam ter acontecido comigo.
