Fósseis encontrados no deserto do Egito revelam um cenário surpreendente de 80 milhões de anos atrás

Hoje, quem atravessa parte do Deserto Ocidental do Egito encontra areia, rochas, calor e uma paisagem extremamente árida. Mas dentes fossilizados retirados de camadas de rocha na região revelam que esse mesmo lugar já teve uma aparência quase impossível de reconhecer.

Há dezenas de milhões de anos, onde atualmente existe deserto havia um ambiente marinho tropical habitado por diferentes espécies de tubarões.

Uma equipe internacional liderada pelo paleontólogo Tarek Yassin, da Universidade do Cairo, encontrou novos fósseis no planalto de Abu-Tartur, no sudoeste do Egito. Os pesquisadores analisaram 14 dentes e identificaram um conjunto de pelo menos cinco espécies de tubarões lamniformes extintos que ainda não haviam sido registradas naquela área.

Quando essas descobertas são somadas a fósseis identificados anteriormente pelos pesquisadores no mesmo local, o cenário revela uma diversidade ainda maior de tubarões vivendo naquela antiga região marinha.

O contraste impressiona

Uma das regiões mais áridas do norte da África preserva hoje, dentro de rochas ricas em fosfato, vestígios de um ecossistema marinho tropical que existia durante o Cretáceo Superior.

Paisagem desértica no oeste do Egito
A paisagem árida do Deserto Ocidental egípcio é muito diferente do ambiente marinho que ocupava partes da região no Cretáceo. Foto: Greg Gulik/Pexels, uso permitido pela licença do Pexels.

O deserto já esteve coberto pelo mar

A descoberta faz mais sentido quando se volta aproximadamente 80 milhões de anos no tempo.

Durante o Cretáceo Superior, o planeta apresentava temperaturas elevadas e níveis do mar muito diferentes dos atuais. Partes do norte da África foram invadidas por águas marinhas ligadas ao antigo oceano de Tétis.

A área onde hoje está o planalto de Abu-Tartur fazia parte desse cenário.

Em vez de dunas e superfícies secas, existiam águas tropicais rasas em diferentes profundidades, nas quais viviam tubarões, outros peixes, répteis marinhos e diversos organismos.

Os sedimentos que se acumulavam no fundo daquele mar deram origem a unidades geológicas que atualmente estão expostas no deserto.

Uma delas é a Formação Duwi, famosa por seus depósitos de fosfato e pela quantidade de vestígios de organismos marinhos preservados nas rochas.

Da água ao deserto em quatro etapas

1. Mar tropical

Partes do atual Egito estavam submersas.

2. Vida marinha

Tubarões e outros animais ocupavam diferentes ambientes.

3. Sedimentos

Dentes e restos ficaram incorporados às camadas do fundo.

4. Deserto atual

Mudanças geológicas e recuo do mar deixaram os depósitos expostos.

Os pesquisadores encontraram apenas 14 dentes, mas isso foi suficiente

O novo estudo pode parecer baseado em uma quantidade pequena de material. Foram coletados 14 dentes isolados nas camadas de fosfato do setor Maghrabi-Liffiya, no planalto de Abu-Tartur.

Para um paleontólogo especializado em tubarões, entretanto, um dente pode carregar uma quantidade enorme de informação.

Os pesquisadores observaram formato, tamanho, bordas, cúspides e outras características anatômicas.

Alguns exemplares eram longos e estreitos. Outros apresentavam formas mais largas, curvadas ou serrilhadas.

Essas diferenças permitiram relacionar os fósseis a diferentes grupos de tubarões.

Os dentes foram encontrados tanto em camadas de fosfato de coloração escura quanto em níveis amarelados, diferenças que estão relacionadas inclusive a processos químicos ocorridos nas próprias rochas ao longo de milhões de anos.

Por que dentes são tão importantes?

O esqueleto dos tubarões é formado principalmente por cartilagem, material que normalmente se preserva muito pior do que ossos. Os dentes, muito mais mineralizados, têm uma chance bem maior de chegar ao registro fóssil.

Cinco espécies aparecem no novo estudo

A análise publicada na revista científica Cretaceous Research identificou cinco táxons entre os novos fósseis de Abu-Tartur:

Espécie identificadaImportância do registro
Cretalamna cf. maroccanaPrimeiro registro desse táxon na área de Abu-Tartur.
Scapanorhynchus cf. raphiodonPode representar o primeiro registro na África e possivelmente uma das ocorrências mais recentes conhecidas do táxon.
Serratolamna cf. serrataPrimeiro registro conhecido no Egito.
Squalicorax bassaniiTambém representa um primeiro registro para o Egito.
Squalicorax pristodontusAmplia o conhecimento sobre a diversidade de tubarões na região.

Existe uma pequena palavra científica nessa lista que merece explicação.

Quando os pesquisadores escrevem “cf.” entre o gênero e o nome da espécie, estão indicando que o material é comparável ou muito semelhante àquela espécie, mas que a identificação ainda exige certa cautela.

É importante porque os próprios autores deixam claro que alguns desses fósseis podem precisar de revisões taxonômicas e de novos exemplares para que a classificação fique mais segura.

Dentes fossilizados de tubarão do gênero Scapanorhynchus
Dentes fossilizados atribuídos ao gênero Scapanorhynchus. A imagem é ilustrativa e não mostra os exemplares encontrados em Abu-Tartur. Foto: Хомелка/Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Os tubarões não ocupavam todos exatamente o mesmo lugar

A diversidade de formas encontradas oferece pistas de que aquele mar não abrigava apenas várias espécies, mas também diferentes estratégias ecológicas.

Os pesquisadores destacam que animais do gênero Squalicorax podem estar relacionados a ambientes mais próximos da costa ou de plataformas internas.

Já a presença de Scapanorhynchus sugere condições de águas relativamente mais profundas, associadas à plataforma externa e à região de talude.

Isso é importante porque indica que os fósseis não representam apenas um grupo de tubarões amontoados em um único tipo de ambiente.

O registro parece capturar uma comunidade mais complexa, com espécies explorando diferentes partes do antigo sistema marinho.

O formato dos dentes também revela o que esses animais faziam

Em tubarões, dentes diferentes estão relacionados a maneiras diferentes de capturar e processar alimento.

Um dente fino e alongado pode funcionar melhor para segurar presas escorregadias, como peixes.

Dentes mais largos e com bordas cortantes podem ser mais eficientes para rasgar pedaços de presas maiores.

Por isso, encontrar vários formatos em um mesmo conjunto fóssil sugere que os animais não competiam necessariamente pelos mesmos recursos exatamente da mesma maneira.

Dentes estreitos

Podem estar relacionados à captura de presas menores ou escorregadias.

Dentes curvados

A geometria ajuda a prender e manipular a presa.

Dentes largos e serrilhados

São mais adequados para cortar tecidos de presas maiores.

Um dos grupos encontrados lembra um antigo predador dos mares cretáceos

O gênero Squalicorax é conhecido por meio de numerosos dentes fossilizados encontrados em depósitos do Cretáceo em diferentes partes do mundo.

Esses tubarões viveram muito antes do surgimento dos grandes tubarões modernos conhecidos atualmente.

A presença de duas espécies desse gênero no novo conjunto de Abu-Tartur ajuda os pesquisadores a reconstruir a composição da fauna marinha que ocupava o norte da África naquele período.

Dente fossilizado de tubarão do gênero Squalicorax
Dente fossilizado do gênero Squalicorax observado em grande ampliação. O exemplar da imagem foi encontrado na América do Norte e é usado aqui apenas para ilustrar a morfologia desse grupo. Foto: Rylan Bachman/Wikimedia Commons, CC BY 4.0.

A descoberta atual não começou do zero

A equipe já havia estudado dentes de tubarões encontrados em Abu-Tartur antes desse novo trabalho.

Em uma pesquisa anterior, foram analisados 49 dentes isolados e identificados dois outros tubarões lamniformes no local, Scapanorhynchus rapax e Cretoxyrhina mantelli.

O novo estudo voltou às mesmas camadas fossilíferas e acrescentou cinco táxons à fauna conhecida da área.

Combinadas, as duas pesquisas mostram que pelo menos sete formas diferentes de tubarões deixaram registros fósseis naquele setor do antigo ambiente marinho.

Isso ajuda a explicar por que os próprios pesquisadores utilizaram a expressão “cemitério de tubarões egípcio” no título científico do novo trabalho.

Por que existe tanto fosfato junto desses fósseis?

Os depósitos da Formação Duwi são ricos em fosfato, algo que está diretamente relacionado às condições ambientais existentes quando aqueles sedimentos foram acumulados.

Estudos geológicos da região mostram que esses depósitos contêm componentes biológicos, incluindo fragmentos de ossos de peixes e dentes de tubarões.

Uma das explicações para a grande produtividade daquele ambiente envolve a circulação de águas ricas em nutrientes.

Quando nutrientes chegam às regiões superiores do oceano, podem favorecer uma cadeia alimentar bastante produtiva, começando pelo plâncton e chegando aos grandes predadores.

Um ecossistema precisava sustentar esses predadores

Encontrar várias espécies de tubarões ajuda a reforçar a ideia de um ambiente capaz de sustentar uma cadeia alimentar diversificada, e não simplesmente uma passagem ocasional de um único predador.

E como esse mar desapareceu?

Os continentes, oceanos e níveis do mar não permaneceram imóveis desde o Cretáceo.

Ao longo de dezenas de milhões de anos, mudanças tectônicas reorganizaram continentes e bacias oceânicas. Variações no nível do mar também provocaram avanços e recuos das águas sobre áreas continentais.

A conexão do Egito com o antigo oceano de Tétis foi sendo transformada, os mares rasos recuaram e depósitos que haviam se formado no fundo do oceano acabaram expostos.

Erosão e mudanças climáticas fizeram o restante.

O resultado é um contraste extraordinário: um fundo de mar tropical transformado em deserto, mas ainda contendo nas rochas a assinatura dos animais que viveram ali.

Os dentes funcionam como peças de um quebra-cabeça de 80 milhões de anos

É impossível observar diretamente aquele ecossistema. Nenhum pesquisador verá o mar de Abu-Tartur exatamente como ele existia no Cretáceo.

Por isso, a reconstrução depende de pistas.

A geologia mostra como os sedimentos foram depositados. Microfósseis ajudam a estabelecer a idade das camadas. Dentes revelam quais tubarões estavam presentes. O formato desses dentes fornece pistas sobre alimentação. A distribuição dos grupos pode indicar diferentes profundidades e ambientes.

Quando essas informações são reunidas, aquela paisagem antiga começa a ganhar forma.

O que os 14 dentes ajudaram a revelar

5 táxons descritos no novo conjunto
14 dentes analisados no novo estudo
2 táxons com primeiro registro no Egito
~80 mi anos desde aquele ambiente marinho

Ainda pode haver muito mais enterrado em Abu-Tartur

Os próprios autores tratam algumas identificações com cautela e destacam a necessidade de encontrar mais exemplares.

Isso significa que o retrato conhecido atualmente provavelmente ainda é incompleto.

Novos dentes podem confirmar classificações, revelar outras espécies e ajudar a determinar com maior precisão quando determinados grupos apareceram ou desapareceram na África.

Particularmente interessante é Scapanorhynchus cf. raphiodon. Segundo o estudo, os fósseis podem representar o primeiro registro conhecido dessa forma na África e talvez uma das ocorrências geologicamente mais recentes conhecidas, embora os autores ressaltem que mais material é necessário para confirmar essa interpretação.

O deserto guarda uma história que a paisagem atual não deixa imaginar

A descoberta não chama atenção apenas porque envolve tubarões extintos.

Ela mostra até que ponto uma paisagem pode mudar quando analisada em uma escala de dezenas de milhões de anos.

O lugar que hoje parece incapaz de sustentar um ambiente marinho já esteve coberto por águas tropicais onde diferentes predadores ocupavam desde zonas relativamente rasas até regiões mais profundas.

Quando o mar desapareceu, parte dessa história ficou presa dentro das rochas.

E agora são dentes com poucos centímetros de comprimento que estão permitindo reconstruir um oceano inteiro onde atualmente existe apenas deserto.

Fontes e estudos citados

  • Yassin T, Carrillo-Briceño JD, Kindlimann R, Ibrahim A, AbdelGawad MK. Egyptian shark graveyard: New Late Cretaceous Lamniform shark Assemblage from Duwi Formation of Abu-Tartur Area, Southwestern desert, Egypt. Cretaceous Research, 2026. Consultar estudo.
  • Yassin T e colaboradores. The first record of Lamniformes sharks from the Late Cretaceous in Abu Tartur area, Egypt. Historical Biology. Consultar estudo anterior.
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Murilo Tavares

Murilo Tavares dos Santos é redator especializado em curiosidades, cultura, comportamento, ciência e fatos pouco conhecidos. Produz conteúdos leves e informativos, com foco em histórias surpreendentes, explicações simples e temas capazes de despertar a curiosidade do leitor.