O pé de galinha deixou de ser um simples resto de açougue para se transformar em um verdadeiro negócio de ouro para os frigoríficos brasileiros. O que antes era descartado ou vendido por valores simbólicos no mercado interno agora atravessa o oceano para abastecer pratos tradicionais e máquinas de lanche na Ásia e na África. Nossa equipe acompanhou os dados recentes que mostram uma valorização impressionante desse produto que muitos brasileiros ainda olham com desconfiança nas prateleiras dos supermercados. No ano passado o faturamento com a venda dessa parte do frango para a China chegou a US$ 221 milhões um salto considerável que mostra a força desse mercado internacional.

Atualmente o preço médio do quilo no atacado brasileiro gira em torno de R$ 5,75 mas esse valor já foi muito menor. Se olharmos para o ano de 2020 percebemos que o preço subiu 41,3% desde o início da série histórica monitorada por especialistas do setor. Nós avaliamos que essa subida não é por acaso e reflete diretamente a competição entre o mercado interno e os compradores estrangeiros que pagam em dólar para garantir o produto em suas mesas. A China se consolidou como a maior parceira comercial nesse segmento pagando cerca de US$ 3 mil por cada tonelada de pé de galinha enviada do Brasil.

O mercado chinês e a cultura do snack

Para o povo chinês o pé de galinha não é um acompanhamento qualquer mas sim um petisco muito popular que pode ser encontrado em qualquer esquina. É comum ver o produto embalado a vácuo e já temperado sendo vendido em máquinas automáticas dentro de estações de metrô ou em shoppings. Nós verificamos que lá o consumo funciona de um jeito parecido com o nosso amendoim ou batata chips onde as pessoas compram para roer enquanto passam o tempo ou conversam. A textura gelatinosa e rica em colágeno é o que mais atrai os consumidores asiáticos que valorizam a experiência de mastigar a pele e a cartilagem.

Além de ser um lanche prático o pé de galinha também é peça fundamental na culinária chinesa para dar corpo a caldos e sopas. Por ser rico em colágeno ele ajuda a engrossar as preparações de forma natural criando uma base densa para outros pratos mais complexos. Nossa equipe apurou que até mesmo figuras conhecidas da culinária como a consultora Jiang Pu explicam que o preparo envolve muita técnica para retirar os ossos e manter apenas a parte crocante. É uma cultura de aproveitamento total do animal que nasceu de períodos difíceis da história e se transformou em uma preferência gastronômica moderna.

A força da África do Sul no comércio brasileiro

Embora a China seja o maior comprador a África do Sul também deu um salto gigantesco nas importações de pés de galinha brasileiros. No ano de 2025 o país africano quadruplicou suas compras em comparação com o ano anterior atingindo a marca de US$ 49 milhões. Nós notamos que a forma de consumo lá é bem diferente da Ásia. Enquanto os chineses preferem algo mais crocante os sul-africanos gostam do pé bem cozido e ensopado lembrando muito o jeito que algumas regiões do interior do Brasil preparam o alimento.

Na África do Sul o prato é conhecido por nomes curiosos como walkie-talkie que faz uma brincadeira com as partes do frango usadas na receita onde o pé representa o andar e a cabeça representa o falar. Essa culinária tem raízes profundas na resistência e na criatividade de um povo que durante o período colonial foi impedido de acessar cortes considerados nobres. Nossa equipe entende que essa necessidade histórica criou pratos extremamente bem temperados com curry e gengibre que hoje fazem parte da identidade cultural do país e sustentam uma demanda crescente pelo produto brasileiro.

O impacto da indústria pet nos preços nacionais

Se você acha que apenas as exportações jogam o preço do pé de galinha para cima precisa olhar para o mercado de animais de estimação. O crescimento da indústria pet no Brasil é outro fator que explica por que o produto está mais caro no açougue da esquina. O que não vai para o exterior é disputado pelas fábricas de ração que utilizam o pé de frango para produzir farinhas e petiscos para cães e gatos. Essa disputa interna garante que nada seja desperdiçado e que o valor de mercado continue em alta beneficiando os grandes frigoríficos.

Nós observamos que essa transformação do pé de galinha em uma iguaria valorizada é um exemplo claro de como o mercado global funciona. O que para uma cultura é sobra para outra é um item essencial e de alto valor. Para o Brasil manter esse fluxo de exportações é vital para a balança comercial e para a manutenção de milhares de empregos no setor de proteína animal. O desafio agora é equilibrar essa demanda externa com o mercado nacional para que o consumidor brasileiro que também utiliza o pé de galinha em sua dieta não sofra com preços abusivos nos próximos anos.

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