Quem toma várias xícaras de café por dia pode apresentar diferenças no corpo e em alguns hormônios quando comparado a quem bebe pouco ou nenhum café. Foi isso que pesquisadores encontraram ao analisar mais de 2,2 mil adultos na Finlândia.
Entre os homens, o consumo maior de café apareceu ligado a níveis mais altos de testosterona total. Os participantes que bebiam mais café também apresentaram, em média, menos gordura corporal, menos gordura na região abdominal e mais massa muscular.
Mas existe um detalhe fundamental antes de interpretar esses resultados como uma recomendação para aumentar o café: o estudo encontrou relações entre os hábitos e os exames, mas não conseguiu provar que o café foi responsável por provocar essas mudanças.

Mais de 2.200 pessoas foram separadas de acordo com a quantidade de café
A pesquisa foi publicada no European Journal of Nutrition e utilizou dados de 2.264 participantes de um grande estudo que acompanha pessoas nascidas no norte da Finlândia em 1966.
Todos estavam com 46 anos quando as informações usadas nessa análise foram coletadas, em 2012.
Os pesquisadores perguntaram quanto café cada pessoa costumava beber e dividiram os participantes em quatro faixas.
Apenas 70 das 2.264 pessoas disseram não beber café.
Além do peso e da composição corporal, os pesquisadores avaliaram açúcar e insulina no sangue, colesterol, hormônios e dezenas de outros sinais encontrados nos exames.
Quem bebia mais café tinha menos gordura corporal mesmo sem grande diferença no IMC
Um dos resultados mais interessantes não estava relacionado diretamente à testosterona.
Os grupos que consumiam mais café apresentaram uma composição corporal diferente. Eles tinham tendência a apresentar menor percentual de gordura, menor quantidade total de gordura, menos gordura visceral e mais massa muscular.
Ao mesmo tempo, o IMC era parecido entre os diferentes grupos.
Isso significa que a principal diferença observada não era necessariamente no peso mostrado pela balança, mas na forma como esse peso estava distribuído entre gordura e massa muscular.
Importante: as setas mostram apenas as relações encontradas entre os grupos. Elas não significam que beber café causou essas diferenças.
A testosterona dos homens trouxe o resultado mais curioso
Entre os homens, quanto maior o consumo habitual de café, maior tendia a ser a testosterona total.
Homens que estavam nas faixas de consumo moderado e elevado apresentaram níveis significativamente maiores do hormônio do que aqueles que não bebiam café.
Mesmo depois de os pesquisadores levarem em consideração diferenças de peso, escolaridade, cigarro, atividade física e consumo de álcool, a relação continuou aparecendo.
A cada xícara adicional de café consumida por dia, a testosterona total apareceu associada a um aumento de cerca de 0,29 nanomol por litro.
Seria fácil parar por aí e dizer que café aumenta testosterona. Mas os próprios resultados mostram por que essa conclusão seria simplista.
Nos homens, apareceu maior conforme aumentava o consumo de café.
A parte livre do hormônio apresentou a direção contrária.
Como a testosterona total pode subir enquanto a livre cai?
A explicação passa por uma proteína chamada SHBG.
Em termos simples, essa proteína se liga aos hormônios sexuais que circulam no sangue. No estudo, homens que bebiam mais café também apresentaram níveis maiores de SHBG.
Com mais hormônio ligado a essa proteína, uma pessoa pode apresentar uma quantidade maior de testosterona total e, ao mesmo tempo, ter menos testosterona circulando de forma livre.
Por isso, o resultado encontrado é bem mais complexo do que a frase “café aumenta testosterona”.
Os pesquisadores descrevem o que apareceu nos exames como um padrão hormonal diferente associado ao consumo de café, principalmente entre os homens.
Nas mulheres, o comportamento dos hormônios não foi igual
As mulheres não apresentaram o mesmo padrão observado nos homens.
O maior consumo de café também apareceu ligado a níveis maiores de SHBG e menores de testosterona livre, mas não houve a mesma relação clara com a testosterona total.
Isso levou os pesquisadores a destacar que as associações hormonais encontradas parecem variar entre homens e mulheres.
O café também apareceu ligado a diferenças na insulina
Entre os homens, quem consumia mais café apresentou alguns resultados considerados mais favoráveis nos exames relacionados à forma como o organismo lida com açúcar e insulina.
O maior consumo apareceu associado a:
- menores níveis de insulina em jejum;
- menores níveis de insulina durante o teste com glicose;
- menores medidas relacionadas à resistência à insulina;
- maior sensibilidade à insulina.
Também foram encontradas diferenças em alguns aminoácidos presentes no sangue. Mais uma vez, porém, isso não significa que o café tenha provocado diretamente essas mudanças ou que possa ser usado para prevenir alguma doença.
O maior limite do estudo muda completamente a forma de interpretar os resultados
A pesquisa observou os hábitos e os exames das pessoas em determinado momento. Esse tipo de estudo consegue encontrar padrões, mas não consegue provar o que veio primeiro nem estabelecer causa e efeito.
É possível, por exemplo, que pessoas que bebem mais café também tenham outros hábitos que influenciem a composição corporal ou os exames. Os pesquisadores tentaram considerar vários desses fatores em suas análises, mas isso não elimina todas as possíveis diferenças entre os grupos.
A quantidade de café também foi informada pelos próprios participantes.
Além disso, a pesquisa não tinha detalhes suficientes sobre o tamanho exato de cada xícara, o tipo de grão, a forma de preparo ou o que as pessoas colocavam na bebida, como leite e açúcar.
Por isso, também não é possível afirmar que a cafeína sozinha esteja por trás das associações observadas.
Os resultados não provam que aumentar o número de xícaras fará alguém perder gordura, ganhar músculos, melhorar a insulina ou elevar a testosterona.
Então vale beber mais café por causa desses resultados?
O próprio estudo não estabelece uma quantidade ideal de café nem recomenda aumentar o consumo com o objetivo de alterar hormônios ou composição corporal.
O que os pesquisadores encontraram foi uma relação interessante entre o hábito de beber café e diferentes sinais do organismo, com resultados especialmente marcantes entre os homens.
Agora são necessários estudos acompanhando as pessoas por mais tempo e testes controlados para descobrir se o café realmente participa dessas mudanças e quais substâncias da bebida poderiam estar envolvidas.
Por enquanto, portanto, a descoberta é mais interessante como uma nova pista científica do que como motivo para encher novamente a xícara. Quem já gosta de café ganhou mais um tema para acompanhar, mas não uma receita comprovada para aumentar testosterona ou reduzir gordura corporal.




