Esqueça a imagem de um abrigo apertado, escuro e cheio de latas de comida. Em 2025, um mercado que durante décadas esteve associado à Guerra Fria e ao medo de ataques nucleares ganhou uma versão completamente diferente, com piscinas, spas, restaurantes, suítes luxuosas, academias, centros médicos e sistemas capazes de funcionar longe da rede elétrica.
Os chamados bunkers de luxo passaram a chamar a atenção de milionários e bilionários interessados não apenas em proteção, mas em preservar conforto, privacidade e autonomia mesmo diante de situações extremas.
Alguns dos projetos anunciados naquele ano chegaram a valores próximos de US$ 20 milhões por acomodação ou participação. Dependendo da cotação do dólar utilizada nas reportagens de 2025, isso representava algo entre aproximadamente R$ 108 milhões e R$ 120 milhões.
E o mais curioso é que muitos desses espaços já não parecem bunkers quando vistos por dentro.

O bunker deixou de ser apenas um lugar para sobreviver
Os antigos abrigos subterrâneos normalmente tinham uma função simples: proteger pessoas por determinado período enquanto uma ameaça permanecesse do lado de fora.
Conforto era secundário.
Nos projetos destinados aos ultrarricos, essa lógica mudou completamente.
A proposta passou a ser criar um ambiente onde moradores possam permanecer por longos períodos sem abrir mão do padrão de vida que possuem na superfície.
Isso explica por que alguns projetos incluem salas de cinema, piscinas, academias, áreas de lazer, bibliotecas, restaurantes, adegas, suítes privadas e até espaços destinados a tratamentos médicos.
Aerie levou o conceito a outro nível em 2025
Um dos projetos que mais chamaram atenção em 2025 foi o Aerie, desenvolvido pela empresa americana SAFE, especializada em ambientes fortificados.
Reportagem publicada pela Forbes apresentou o empreendimento como parte de uma rede de espaços altamente protegidos voltados a clientes extremamente ricos.
O projeto do complexo foi estimado em cerca de US$ 300 milhões e inclui áreas subterrâneas planejadas para unir segurança, medicina, bem-estar e hospitalidade de alto padrão.
As residências ou participações nos santuários da rede poderiam chegar a aproximadamente US$ 20 milhões, segundo informações divulgadas na época.
O que existe dentro de um bunker de milhões de dólares?
Não existe um padrão único. Cada empresa e cada cliente podem criar configurações diferentes.
Nos projetos mais sofisticados, entretanto, a lista de recursos pode parecer mais próxima de um resort do que de um abrigo de emergência.
- suítes privadas;
- piscinas;
- academias;
- spas e áreas de bem-estar;
- cinemas;
- restaurantes e cozinhas profissionais;
- salas médicas;
- armazenamento de alimentos;
- sistemas próprios de água;
- geração e armazenamento de energia;
- filtragem especial de ar;
- monitoramento e controle de acesso;
- áreas de trabalho e comunicação.
Em alguns conceitos, telas, iluminação e paredes digitais são utilizadas para diminuir a sensação de confinamento, simulando janelas, paisagens e ambientes externos.
Até atendimento médico entrou no pacote
Uma das diferenças dos projetos mais recentes está na preocupação com situações em que simplesmente possuir alimentos e energia não seria suficiente.
O Aerie, por exemplo, foi apresentado com a proposta de oferecer ambientes médicos integrados a sistemas de inteligência artificial e conexão com especialistas.
A ideia é que pessoas abrigadas consigam receber assistência mesmo quando o acesso a hospitais convencionais estiver comprometido.
É importante observar, entretanto, que muitos desses recursos fazem parte de projetos comerciais anunciados pelas próprias empresas. A existência de uma tecnologia em materiais promocionais não significa necessariamente que todos os recursos já estejam disponíveis em todas as instalações.
Mark Zuckerberg possui um enorme abrigo subterrâneo no Havaí
O interesse dos ultrarricos por estruturas subterrâneas não se limita aos projetos comerciais.
Um dos casos mais conhecidos envolve o fundador da Meta, Mark Zuckerberg.
Uma investigação da revista Wired, baseada em documentos de planejamento e fontes ligadas às obras, revelou que o complexo de Zuckerberg em Kauai, no Havaí, inclui um abrigo subterrâneo de aproximadamente 5 mil pés quadrados, cerca de 465 metros quadrados.
Os planos descrevem espaço habitável, sala para equipamentos mecânicos, saída de emergência e uma porta construída com metal e concreto, semelhante às utilizadas em abrigos reforçados.
O enorme projeto também foi planejado com infraestrutura própria de água e produção de alimentos.
Isso não significa que Zuckerberg seja comprador do Aerie ou de qualquer outro bunker comercial. Trata-se de um projeto privado separado.
O complexo inteiro de Zuckerberg custa muito mais que o bunker
Também existe uma confusão frequente quando os valores do projeto do empresário aparecem nas redes sociais.
Os números de centenas de milhões de dólares associados à propriedade não representam apenas o abrigo subterrâneo.
A Wired estimou inicialmente que o conjunto de construções e terrenos passaria de US$ 270 milhões. Em reportagem publicada em 2025, a revista informou que a expansão da propriedade havia elevado o investimento estimado para mais de US$ 300 milhões.
O bunker é apenas uma parte dessa estrutura gigantesca.
Existem verdadeiros condomínios de bunkers
Outra vertente desse mercado é formada por antigas instalações militares que foram convertidas para utilização civil.
Um exemplo conhecido é o Vivos xPoint, localizado em Dakota do Sul, nos Estados Unidos.
A área fazia parte do antigo Black Hills Ordnance Depot, instalação militar utilizada para armazenamento de munições.
Décadas depois, centenas das antigas estruturas passaram a integrar um empreendimento de abrigos privados.

A imagem ajuda a entender uma característica importante desses locais: vistos de longe, muitos bunkers praticamente desaparecem na paisagem.
Boa parte da estrutura fica protegida pela terra, deixando apenas entradas e pequenas partes visíveis na superfície.
Por que bilionários estão interessados nisso?
Não existe um único motivo.
Empresas do setor citam diferentes tipos de ameaças para justificar a procura por essas estruturas.
- conflitos militares;
- ameaças nucleares;
- apagões prolongados;
- desastres naturais;
- pandemias;
- ataques cibernéticos contra infraestrutura;
- distúrbios civis;
- interrupções prolongadas em sistemas de abastecimento.
Para quem possui patrimônio na casa dos bilhões, gastar alguns milhões em uma estrutura de emergência pode representar uma parcela relativamente pequena da fortuna.
Nesse segmento, segurança também se transformou em produto de luxo.
Autonomia é tão importante quanto paredes resistentes
Um bunker capaz de suportar uma explosão teria pouca utilidade se seus moradores ficassem sem água, energia ou ar respirável poucos dias depois.
Por isso, boa parte da engenharia desses projetos está escondida.
Sistemas de filtragem de ar, reservatórios de água, tratamento de resíduos, baterias, geradores, armazenamento de alimentos e equipamentos de comunicação podem ocupar espaços consideráveis.
Dependendo da proposta, algumas instalações são planejadas para funcionar sem depender diretamente da infraestrutura existente na superfície.
Alguns projetos incluem até áreas para produzir alimentos
Estocar comida resolve apenas parte do problema quando o objetivo é permanecer isolado durante longos períodos.
Por isso, projetos de sobrevivência de maior escala podem incluir sistemas de cultivo interno, hortas, áreas agrícolas externas protegidas ou grandes estoques de alimentos de longa duração.
A lógica é reduzir ao máximo a quantidade de recursos que precisam chegar de fora.
Essa preocupação com autossuficiência também aparece no complexo de Zuckerberg no Havaí, que possui produção agrícola e infraestrutura própria de água.
Por que um bunker pode custar R$ 120 milhões?
O concreto embaixo da terra é apenas uma parte do preço.
Nos projetos mais caros, o valor envolve engenharia especializada, sistemas de segurança, acabamento de luxo, geração de energia, filtragem de ar, reserva de água, comunicação, equipamentos médicos e áreas de lazer.
Também existe uma diferença enorme entre comprar uma estrutura pré-fabricada relativamente pequena e construir uma residência subterrânea totalmente personalizada.
A faixa de preço pode mudar drasticamente
Um abrigo simples pode custar uma pequena fração do valor de uma residência subterrânea de luxo.
No caso dos projetos premium apresentados pela SAFE em 2025, os valores divulgados iam de aproximadamente US$ 2 milhões para acomodações menores a até US$ 20 milhões nas configurações mais exclusivas.
O valor de R$ 120 milhões precisa ser colocado em contexto
Quando valores em dólares são convertidos para reais, o resultado muda conforme a cotação usada.
Reportagens brasileiras publicadas em 2025 converteram US$ 20 milhões para valores próximos de R$ 108 milhões. Outras utilizaram aproximadamente R$ 120 milhões.
Portanto, o número do título representa uma conversão aproximada utilizada naquele período, e não um preço fixo estabelecido em moeda brasileira.
Nem todo bilionário possui um bunker conhecido
O assunto também produz muitos rumores.
É comum encontrar listas nas redes sociais afirmando que praticamente todos os grandes empresários de tecnologia possuem abrigos secretos.
Na maioria dos casos, porém, instalações privadas são justamente projetadas para não serem divulgadas.
Por isso, é importante diferenciar estruturas documentadas, como o abrigo existente no projeto de Zuckerberg, de especulações sobre outros bilionários.
Também existe outro detalhe curioso: o bairro de Indian Creek, em Miami, é chamado informalmente de “Billionaire Bunker”, ou “Bunker dos Bilionários”, por concentrar moradores extremamente ricos e possuir forte esquema de segurança. Apesar do apelido, trata-se de uma ilha residencial de luxo e não de um bunker subterrâneo.
Um bunker garante sobrevivência em qualquer desastre?
Não.
A capacidade de proteção depende completamente do tipo de estrutura, profundidade, localização, sistemas instalados e principalmente da ameaça enfrentada.
Um abrigo preparado para tempestades não é automaticamente adequado para um incidente nuclear. Da mesma forma, possuir paredes reforçadas não resolve problemas relacionados à falta de água, alimentos, medicamentos ou ventilação.
Especialistas em preparação para emergências também alertam que bunkers privados não devem ser vistos como garantia absoluta diante de eventos extremos.
Em uma emergência nuclear, entrar em um prédio ainda pode salvar vidas
Existe uma diferença entre o marketing de bunkers e as recomendações oficiais de emergência.
Em caso de uma detonação nuclear, autoridades americanas recomendam procurar rapidamente abrigo dentro de uma construção resistente, afastando-se de janelas e paredes externas, em vez de tentar viajar longas distâncias para chegar a um bunker específico.
Porões e partes centrais de edifícios podem reduzir a exposição à radiação proveniente de partículas radioativas depositadas no ambiente.
Ou seja, possuir um refúgio multimilionário não é a única estratégia possível de proteção.
O bunker também virou símbolo de status
Quando piscinas, spas, inteligência artificial, suítes e restaurantes entram em cena, fica claro que parte desse mercado ultrapassou a preparação básica para emergências.
Para uma parcela dos ultrarricos, o bunker passa a funcionar também como extensão da residência e demonstração de capacidade financeira.
É uma espécie de seguro de proporções gigantescas: uma propriedade que talvez nunca seja necessária para a finalidade extrema para a qual foi construída.
Mas, para quem pode gastar dezenas de milhões de dólares em casas, aviões, barcos e segurança privada, construir também um espaço subterrâneo deixou de parecer uma ideia tão distante.
O que 2025 mostrou sobre esse mercado
O que chamou atenção em 2025 não foi simplesmente a existência dos bunkers. Eles existem há décadas.
A mudança está no público, no nível de sofisticação e na forma como esses espaços passaram a ser comercializados.
O abrigo subterrâneo deixou de ser apresentado apenas como uma caixa de concreto para sobreviver ao pior cenário possível.
Nos projetos mais caros, ele se transformou em uma residência de luxo escondida sob a terra, equipada para manter praticamente tudo o que existe do lado de fora.
Piscina, restaurante, academia, atendimento médico, energia própria, água, alimentos, comunicação e segurança podem fazer parte do mesmo pacote.
E quando o preço chega à faixa dos US$ 20 milhões, o resultado deixa uma coisa bastante clara: até a ideia de se esconder do fim do mundo ganhou uma versão destinada exclusivamente a quem pode pagar muito caro por ela.




