O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, fez um alerta nesta segunda-feira (24) sobre o crescimento do endividamento das famílias brasileiras e defendeu maior cuidado na contratação de crédito, especialmente em operações com juros elevados.
Durante participação no Febraban Tech, em São Paulo, Galípolo afirmou que o Brasil avançou na inclusão financeira e ampliou o acesso da população a serviços bancários, mas agora enfrenta o desafio de impedir que essa expansão resulte em comprometimento excessivo da renda.
O cenário chama atenção principalmente no cartão de crédito. Dos cerca de 96 milhões de brasileiros que utilizam cartão, 52,8 milhões possuem algum tipo de dívida no crédito rotativo ou em compras parceladas com juros.
Galípolo diz que aumento do crédito também traz aumento das dívidas
O presidente do Banco Central afirmou que não é possível comemorar o crescimento do crédito sem considerar que ele naturalmente também provoca aumento do endividamento.
Para Galípolo, o problema aparece quando empréstimos, cartões e outras formas de financiamento são utilizados para despesas que não contribuem para melhorar a situação econômica da família ou gerar algum patrimônio.
A preocupação é maior com o chamado “consumo efêmero”, expressão usada para despesas que terminam rapidamente, mas deixam parcelas e juros que continuam pesando no orçamento durante meses.
Cartão concentra parte importante do endividamento
A expansão do cartão de crédito acompanhou o processo de inclusão financeira no país. Segundo os dados apresentados, foram incorporados aproximadamente 37 milhões de novos usuários.
Hoje, entre os 96 milhões de brasileiros que utilizam cartão, mais da metade possui algum débito relacionado ao crédito rotativo ou a compras parceladas com cobrança de juros.
Outro dado destacado é o comprometimento da renda. Segundo as informações apresentadas no evento, 54% da renda dessas famílias está comprometida com gastos no cartão, em operações nas quais os juros podem atingir 15,1% ao mês.
| Indicador | Número |
|---|---|
| Usuários de cartão de crédito | 96 milhões |
| Pessoas com dívida no rotativo ou parcelado com juros | 52,8 milhões |
| Novos usuários incorporados | 37 milhões |
| Juros citados nas operações | até 15,1% ao mês |
Dívidas aumentam mesmo com mercado de trabalho favorável
O avanço do endividamento chama atenção porque acontece em um momento em que o desemprego está em nível historicamente baixo e a renda das famílias permanece em patamar elevado.
Para o Banco Central, isso reforça a necessidade de observar não apenas quanto crédito está disponível, mas também para qual finalidade ele está sendo usado e quanto da renda futura do consumidor ficará comprometida.
Empréstimos sem garantia e cartões utilizados para financiar gastos cotidianos estão entre os pontos de maior preocupação citados por Galípolo.
Pix colocou milhões de brasileiros dentro do sistema financeiro
Galípolo também destacou o papel do Pix na ampliação do acesso aos serviços financeiros, principalmente entre brasileiros de renda mais baixa.
Três anos depois do lançamento da ferramenta, 74% dos adultos inscritos no Cadastro Único já possuíam uma chave Pix, enquanto 72% utilizavam efetivamente o sistema.
Apesar da preocupação com o endividamento, o presidente do BC afirmou que o Pix se consolidou como uma das ferramentas financeiras com maior confiança entre os brasileiros, alcançando índice de aprovação de 80%.
Banco Central quer aumentar fiscalização sobre bancos e financeiras
Diante do crescimento do crédito, Galípolo afirmou que o Banco Central pretende reforçar a supervisão de bancos e instituições financeiras.
Uma das preocupações é evitar que empresas assumam riscos excessivos para ampliar suas operações e depois não tenham recursos suficientes para absorver eventuais prejuízos.
A intenção é exigir que as instituições mantenham capacidade financeira compatível com os riscos assumidos, diminuindo a possibilidade de que problemas individuais acabem afetando o sistema financeiro como um todo.
Fraudes e ataques digitais também estão no radar
O Banco Central também pretende reforçar medidas relacionadas à segurança do sistema financeiro.
Entre as prioridades citadas estão o combate a fraudes, a proteção contra ataques digitais e o funcionamento do Fundo Garantidor de Créditos.
Segundo Galípolo, as mudanças deverão ocorrer de maneira gradual, acompanhando a transformação do sistema financeiro e o crescimento do número de brasileiros que passaram a utilizar serviços digitais, cartões e diferentes modalidades de crédito.
O alerta do Banco Central indica que a próxima etapa da inclusão financeira brasileira deverá concentrar esforços não apenas em ampliar o acesso ao dinheiro, mas também em evitar que esse acesso resulte em níveis de dívida cada vez mais difíceis de administrar pelas famílias.



