O reconhecimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em mulheres adultas tem exposto um abismo no sistema de saúde. Durante décadas, o comportamento feminino foi ignorado por médicos e educadores.
Dados históricos mostram que, para cada quatro meninos diagnosticados, apenas uma menina recebia o laudo. Mas estudos recentes indicam que até 80% das mulheres autistas chegam à vida adulta sem diagnóstico.
O relato de Leah Welborn, diagnosticada aos 49 anos, ilustra como o ambiente escolar e familiar dos anos 80 falhou. Ela era vista apenas como uma criança intensa, sensível e estranha.
O viés de gênero nos critérios do DSM-5
A ciência médica baseou seus critérios iniciais quase exclusivamente em comportamentos masculinos. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) exige que os sintomas apareçam cedo, mas eles se manifestam diferente em meninas.
Enquanto meninos costumam focar em trens ou máquinas, meninas autistas frequentemente desenvolvem interesses em animais ou literatura. Por serem temas considerados “comuns”, esses sinais de monotropismo acabam passando despercebidos por especialistas.
Essa diferença de camuflagem social faz com que muitas mulheres sofram em silêncio. Elas tentam se encaixar em padrões neurotípicos, o que gera um desgaste mental devastador ao longo dos anos.
Perfil irregular e a hiperlexia
Um sinal clássico ignorado é o chamado perfil irregular. É quando a criança é brilhante em uma área, como leitura precoce (hiperlexia), mas apresenta dificuldades severas em outras, como a matemática.
No caso de Welborn, ela lia textos de nível universitário na segunda série, mas não conseguia aprender contas básicas. Esse desequilíbrio é uma marca forte do autismo, mas raramente era associado ao transtorno no passado.
Especialistas da Universidade de Harvard e outros centros de pesquisa reforçam que o autismo não é uma “doença de meninos”. É uma configuração neurológica que afeta ambos os sexos, mas com máscaras sociais distintas.
Impactos físicos e puberdade precoce
A ciência moderna também começou a ligar o autismo a questões físicas. Estudos indicam que meninas autistas podem entrar na puberdade significativamente mais cedo que suas colegas neurotípicas.
Além disso, condições como a dispraxia (dificuldade de coordenação motora) e a hiperidrose (suor excessivo) são comorbidades frequentes. Muitas vezes, esses sintomas são tratados de forma isolada, sem que ninguém conecte os pontos ao TEA.
O isolamento social também é um fator crítico. Crianças autistas costumam preferir a companhia de adultos ou de uma única pessoa de confiança, fugindo do barulho e da imprevisibilidade dos colegas de mesma idade.
A urgência do diagnóstico tardio
A falta de suporte na infância leva a taxas alarmantes de ansiedade e depressão. Pesquisas mostram que autistas têm até quatro vezes mais chances de desenvolver depressão do que a população geral.
Receber o diagnóstico na fase adulta, como aconteceu com Welborn, traz um alívio necessário. Não é sobre encontrar um rótulo, mas sobre entender a própria história e abandonar o auto-ódio acumulado por anos.
A sociedade precisa entender que essas mulheres sempre estiveram aqui. O que faltava não era a existência do transtorno nelas, mas sim a capacidade dos médicos de enxergar além dos estereótipos de gênero.
