Você já reparou que, em quase toda cidade brasileira, parece que brota uma farmácia nova a cada amanhecer? Segundo analistas do setor varejista, o Brasil se tornou um verdadeiro canteiro de drogarias, onde esses estabelecimentos ocupam as melhores esquinas e resistem bravamente enquanto outros comércios fecham as portas.
De acordo com dados de mercado, o país já soma cerca de 90 mil farmácias ativas. Esse crescimento, que supera os 60% desde os anos 2000, é impulsionado principalmente pelas grandes redes que transformaram o setor em um modelo de negócio focado em volume e conveniência.
Estudos indicam que essa proliferação não é por acaso, mas sim uma estratégia de ocupação de território. É comum ver três ou quatro unidades disputando o mesmo cruzamento, o que especialistas chamam de guerra por visibilidade para capturar o cliente no momento da urgência.
O modelo de negócio que vai além dos medicamentos
Conforme explicam consultores de varejo, a farmácia moderna deixou de ser apenas um local para buscar itens de saúde. Hoje, ela funciona como uma loja de conveniência de alto giro, onde o faturamento é turbinado por itens de higiene, beleza e suplementos.
Relatos do setor mostram que o layout das lojas é desenhado para que você entre buscando um analgésico e saia com um protetor solar ou uma vitamina. É o chamado ticket médio, que sobe à medida que o ambiente se torna mais convidativo e menos parecido com um ambiente hospitalar.
Há quem defenda que essa diversificação é o que mantém as portas abertas. Com uma movimentação que ultrapassa os 150 bilhões de reais por ano, o setor farmacêutico brasileiro cresce em ritmo acelerado, transformando o balcão em um dos pontos comerciais mais valiosos da economia atual.
A cultura da automedicação e os riscos apontados por órgãos de saúde
Segundo a Anvisa e outros órgãos de vigilância, o Brasil enfrenta um desafio sério com a cultura de resolver sintomas por conta própria. Pesquisas sugerem que nove em cada dez brasileiros costumam utilizar produtos sem orientação profissional, o que é classificado como um problema de saúde pública.
Especialistas alertam que esse hábito pode levar a intoxicações e ao aumento da resistência bacteriana. No país das farmácias, o balcão muitas vezes acaba substituindo o consultório médico devido à facilidade de acesso e à demora para conseguir consultas especializadas.
Relatos indicam que, em alguns casos, a orientação no balcão pode ser influenciada por metas comerciais. É o que estudiosos do tema chamam de empurroterapia, onde a indicação de produtos nem sempre prioriza o bem-estar real, mas sim o volume de vendas da unidade.
O mistério do CPF no caixa e o valor dos seus dados
Você certamente já ouviu a pergunta sobre o CPF para ganhar um desconto, certo? Segundo especialistas em proteção de dados, essa prática é uma forma de monitorar o comportamento de consumo e criar perfis detalhados sobre a saúde da população.
Órgãos de defesa do consumidor, como o Procon, explicam que o desconto oferecido pode ser, na verdade, o preço real do produto. A entrega do documento funciona como uma chave para alimentar bancos de dados que registram anos de histórico de compras e tratamentos.
Estudos mostram que essas informações são valiosas para o mercado publicitário e para a indústria. Quando os dados de saúde são monetizados, o consumidor raramente percebe que a propaganda que vê nas redes sociais pode estar ligada àquela compra feita na farmácia do bairro.
Fraudes e o uso do programa Farmácia Popular
De acordo com investigações recentes da Polícia Federal, a capilaridade das farmácias também atraiu olhares indesejados. Grupos organizados são suspeitos de utilizar o programa Farmácia Popular para registrar vendas falsas e desviar recursos públicos que deveriam auxiliar a população carente.
Auditorias do governo indicam que CPFs de pessoas que nunca estiveram na loja, ou até de falecidos, foram usados em esquemas de fraude. Isso mostra que o mesmo sistema que facilita o acesso a tratamentos essenciais pode ser vulnerável se não houver uma fiscalização rigorosa.
No fim das contas, o fenômeno das farmácias em cada esquina revela um Brasil que consome muita saúde, mas talvez não da forma mais equilibrada. É indicado que o consumidor mantenha um olhar crítico sobre esse excesso de oferta e priorize sempre a orientação de profissionais qualificados antes de qualquer decisão.
