Todos os dias, salões de beleza varrem grandes quantidades de cabelo do chão. Durante muito tempo, o destino desses fios foi simples: o lixo. Só que uma ideia colocada em prática na Europa está mostrando que até o cabelo cortado pode ganhar uma segunda vida.
Em países como França, Bélgica e Luxemburgo, fios recolhidos em salões estão sendo reaproveitados em projetos ligados às florestas. E o uso é bem diferente do que muita gente imaginaria.
A empresa francesa Capillum transforma cabelos descartados em mantas de fibras biodegradáveis que podem ser colocadas ao redor de árvores jovens. Além de aproveitar um resíduo que normalmente seria jogado fora, o material ajuda a proteger as mudas.
Como cabelo cortado acaba virando proteção para árvores?
O processo começa justamente onde milhões de cortes de cabelo são feitos todos os anos. Em vez de os fios irem diretamente para o lixo, salões participantes separam esse material para coleta.
E não é necessário ter um tipo específico de cabelo. A iniciativa aproveita fios de diferentes comprimentos, texturas e cores, inclusive cabelos tingidos.
O cabelo é interessante justamente por uma característica que normalmente passa despercebida: ele é formado principalmente por queratina, uma proteína fibrosa bastante resistente e que leva tempo para se decompor.
Em vez de tratar essa resistência como um problema, a proposta foi transformar a característica em vantagem.
O vídeo mostra como a ideia funciona
Por que árvores jovens precisam dessa proteção?
Para uma floresta se renovar, pequenas árvores precisam sobreviver tempo suficiente para crescer. Parece óbvio, mas essa fase pode ser bastante delicada.
Em áreas com grande presença de cervos, por exemplo, as mudas podem acabar virando alimento. Esses animais podem roer cascas e atingir troncos ainda muito finos.
Uma árvore adulta consegue suportar situações que seriam suficientes para comprometer completamente uma muda.
Tradicionalmente, uma das soluções utilizadas é instalar proteções e cercas de plástico ao redor das plantas. Elas cumprem sua função, mas trazem outro problema: geram resíduos e podem precisar de manutenção ou retirada posteriormente.
E onde entra o cabelo nessa história?
As mantas produzidas com cabelo humano oferecem uma alternativa curiosa. O cheiro dos fios pode afastar cervos das mudas, fazendo com que procurem outras áreas para se alimentar.
Assim, a proteção acontece sem a necessidade de machucar os animais.
Depois de proteger a árvore, o material ainda se decompõe
Essa talvez seja uma das partes mais interessantes da ideia. Diferentemente de uma barreira plástica, os fios não precisam permanecer para sempre na floresta.
Com o passar do tempo, o cabelo começa a se decompor. Durante esse processo, componentes da queratina retornam gradualmente ao solo.
É justamente por isso que o uso de cabelo em compostagem e jardinagem não é uma ideia completamente nova. O que chama atenção agora é a escala e a forma como esse material está sendo transformado antes de chegar às plantas.
Cabelo humano já está sendo testado para outros usos
As árvores não são o único destino encontrado para os fios. A própria Capillum já explorou a combinação de cabelo e lã em materiais destinados à absorção de poluentes presentes na água.
Isso acontece porque essas fibras apresentam características interessantes na retenção de substâncias oleosas.
Outras iniciativas pelo mundo também estudam maneiras de aproveitar cabelo humano em diferentes aplicações, entre elas:
- materiais para ajudar na absorção de óleo;
- mantas utilizadas na agricultura;
- compostagem;
- possíveis materiais de isolamento;
- estudos envolvendo novas fibras e produtos têxteis.
Um resíduo comum que quase ninguém percebia
O mais curioso dessa história é que ela começa com algo extremamente comum. Um corte de cabelo parece não ter qualquer ligação com uma floresta, mas os fios acumulados diariamente em milhares de estabelecimentos representam uma quantidade considerável de material.
Quando esse resíduo é separado e reaproveitado, deixa de ocupar espaço no lixo e passa a ter outra utilidade.
É uma solução relativamente simples para uma pergunta que aparece cada vez mais: o que ainda estamos jogando fora que poderia ser utilizado novamente?
No caso dos cabelos, uma possível resposta já está aparecendo ao redor de pequenas árvores em florestas europeias.

