8 benefícios inesperados que o uso diário de probióticos pode trazer, e por que a cepa escolhida faz tanta diferença no resultado

Quando se fala em probióticos, a primeira associação costuma ser com o intestino. Iogurtes, kefir e suplementos contendo microrganismos vivos ficaram conhecidos principalmente pela relação com digestão e equilíbrio da microbiota.

Mas as pesquisas foram muito além desse ponto. Diferentes cepas vêm sendo estudadas por possíveis efeitos sobre síndrome do intestino irritável, sistema imunológico, controle do peso, saúde dos ossos, alergias, intolerância à lactose e até como complemento de alguns tratamentos médicos.

Existe, porém, um detalhe que muda completamente a conversa: os efeitos dependem da espécie, da cepa utilizada, da quantidade, do tempo de uso e da condição que está sendo estudada. Não existe um único probiótico capaz de entregar todos os resultados encontrados nas pesquisas.

O ponto mais importante antes de olhar os 8 benefícios

Probióticos são microrganismos vivos utilizados em quantidades adequadas com o objetivo de produzir determinado benefício. Por isso, resultados encontrados com uma cepa específica não devem ser automaticamente atribuídos a qualquer suplemento que traga a palavra “probiótico” no rótulo.

1. Algumas cepas podem ajudar a aliviar sintomas da síndrome do intestino irritável

A síndrome do intestino irritável, conhecida pela sigla SII ou IBS em inglês, pode provocar inchaço, gases, dor abdominal e alterações na frequência ou consistência das evacuações.

A microbiota intestinal aparece entre os fatores estudados nessa condição, e pesquisadores vêm avaliando se determinados probióticos conseguem ajudar a modificar esse ambiente de maneira favorável.

Uma revisão publicada em 2022 analisou o possível papel terapêutico dos probióticos na síndrome do intestino irritável. Os autores discutem melhora de sintomas em alguns estudos, embora os resultados variem bastante conforme os microrganismos utilizados e o perfil dos participantes.

Estudo citado

Kumar LS et al. Probiotics in irritable bowel syndrome: a review of their therapeutic role. Cureus, 2022. Acessar estudo

Probiótico e prebiótico não são a mesma coisa

Probióticos são microrganismos vivos. Prebióticos são substâncias utilizadas seletivamente por microrganismos do organismo. Os dois termos aparecem juntos com frequência, mas não podem ser tratados como sinônimos.

2. O sistema imunológico também parece conversar com o que acontece no intestino

Uma das áreas mais amplas de investigação envolve a relação entre microbiota intestinal e sistema imunológico.

Alguns probióticos podem influenciar a barreira intestinal, produção de muco, adesão de determinadas bactérias às células e atividade de componentes envolvidos na resposta imune.

Uma revisão ampla publicada em 2024 reuniu estudos sobre diferentes possíveis benefícios dos probióticos, incluindo efeitos sobre respostas imunológicas, barreira intestinal e interação com microrganismos potencialmente prejudiciais.

Isso não significa simplesmente “aumentar a imunidade”. O que está sendo estudado é a possibilidade de determinadas cepas modularem respostas específicas do sistema imunológico.

Estudo citado

Gul S, Durante-Mangoni E. Unraveling the puzzle: health benefits of probiotics, a comprehensive review. Journal of Clinical Medicine, 2024. Acessar estudo

3. Peso, cintura e metabolismo também entraram no radar dos pesquisadores

Outro campo que ganhou atenção é a possível influência de determinados probióticos sobre peso corporal e composição corporal.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 analisou estudos sobre probióticos na prevenção e tratamento do excesso de peso e da obesidade. Algumas combinações envolvendo espécies de Bifidobacterium e Lactobacillus apresentaram resultados favoráveis em medidas como peso, gordura corporal ou circunferência da cintura em determinados estudos.

Também existem pesquisas avaliando colesterol, glicemia e pressão arterial, mas os resultados não são uniformes.

Revisão sistemática citada

Torres B et al. Use of probiotics in preventing and treating excess weight and obesity. A systematic review. Obesity Science & Practice, 2024. Acessar estudo

Isso não transforma probióticos em suplementos para emagrecer

Os próprios autores destacam a necessidade de mais pesquisas. Alimentação, atividade física, sono e outros fatores continuam centrais no controle do peso.

4. A relação com cicatrização e pele é uma das possibilidades mais inesperadas

Feridas profundas ou crônicas podem apresentar mudanças importantes na comunidade de microrganismos presente no local, além de respostas inflamatórias capazes de dificultar o processo de cicatrização.

Alguns estudos experimentais e revisões investigam se probióticos podem influenciar a barreira da pele, resposta imune e crescimento de determinados microrganismos.

A revisão publicada no Journal of Clinical Medicine também discute pesquisas envolvendo queimaduras, feridas e infecções cutâneas.

Fonte científica

Gul S, Durante-Mangoni E. Unraveling the puzzle: health benefits of probiotics, a comprehensive review. Journal of Clinical Medicine, 2024. Acessar revisão

Esse resultado não deve ser interpretado como indicação para tratar uma ferida tomando probióticos. Queimaduras, feridas profundas ou sinais de infecção precisam de tratamento adequado.

5. Até a saúde dos ossos passou a ser relacionada à microbiota intestinal

A renovação dos ossos acontece continuamente, e pesquisadores vêm tentando entender de que maneira o intestino pode participar desse processo.

Entre os mecanismos estudados estão inflamação, integridade da barreira intestinal e metabolismo ou absorção de nutrientes importantes para a estrutura óssea, como cálcio, magnésio e vitaminas.

Um artigo publicado em 2023 discutiu o desenvolvimento de biomateriais probióticos vivos para possíveis aplicações relacionadas à osteoporose, mostrando como essa interação entre microbiota e osso se tornou uma área ativa de pesquisa.

Estudo citado

Chen Z et al. Living probiotic biomaterials for osteoporosis therapy. Biomedical Technology, 2023. Acessar estudo

A pesquisa nessa área ainda está em desenvolvimento. Não existe base para tratar probióticos isoladamente como uma forma estabelecida de prevenção ou tratamento da osteoporose.

6. Dermatite, rinite e outras alergias também aparecem em estudos com probióticos

Alergias envolvem respostas complexas do sistema imunológico, e por isso pesquisadores passaram a estudar se a microbiota poderia influenciar parte desse processo.

Uma revisão publicada em 2021 avaliou probióticos como possível estratégia para prevenção e tratamento de condições alérgicas. Outra revisão, de 2020, analisou especificamente a capacidade de probióticos modularem o sistema imunológico em doenças alérgicas.

Algumas cepas de Lactobacillus e Bifidobacterium apresentaram resultados promissores em determinados contextos, mas os efeitos variam conforme a alergia e o microrganismo utilizado.

Estudos citados

Lopez-Santamarina A et al. Probiotics as a possible strategy for the prevention and treatment of allergies. Foods, 2021. Acessar estudo

Eslami M et al. Probiotics function and modulation of the immune system in allergic diseases. Allergologia et Immunopathologia, 2020. Acessar estudo

Os probióticos aparecem aqui como uma possível estratégia complementar. Eles não substituem medicamentos prescritos nem tornam seguro o contato com um alérgeno conhecido.

7. Algumas pessoas com intolerância à lactose podem perceber menos desconforto

A lactose precisa ser quebrada em açúcares menores antes de ser absorvida. Em pessoas com menor atividade da enzima lactase, parte dessa lactose chega ao intestino e pode provocar gases, cólicas e diarreia.

Alguns microrganismos utilizados em probióticos e alimentos fermentados possuem enzimas capazes de ajudar na quebra da lactose.

Uma meta-análise publicada no Journal of Dairy Science em 2023 avaliou estudos sobre administração de probióticos em adultos com intolerância à lactose. Os resultados indicaram benefício em alguns grupos, mas também mostraram que a resposta depende bastante do produto e da pessoa.

Meta-análise citada

Ahn SI et al. Effects of probiotics administration on lactose intolerance in adulthood: A meta-analysis. Journal of Dairy Science, 2023. Acessar estudo

Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas toleram melhor determinados produtos fermentados enquanto outras continuam apresentando sintomas semelhantes.

8. Probióticos também estão sendo estudados durante o tratamento da H. pylori

A Helicobacter pylori é uma bactéria capaz de colonizar o estômago e está associada a problemas como gastrite e úlceras.

Seu tratamento envolve combinações específicas de medicamentos, geralmente incluindo antibióticos. É nesse cenário que algumas cepas probióticas passaram a ser investigadas como complemento.

Uma revisão de 2022 discutiu pesquisas em que probióticos foram adicionados ao tratamento convencional. Alguns estudos encontraram redução de efeitos adversos gastrointestinais e melhora das taxas de erradicação da bactéria.

Estudo citado

Mestre A et al. Role of probiotics in the management of Helicobacter pylori. Cureus, 2022. Acessar estudo

Os possíveis mecanismos incluem competição com a bactéria por locais de adesão e fortalecimento da barreira gastrointestinal.

Probiótico não substitui o tratamento da H. pylori

Os estudos avaliam os probióticos como complemento. A erradicação da bactéria continua dependendo do esquema terapêutico indicado para cada caso.

O que todos esses estudos têm em comum é justamente aquilo que quase nunca aparece na propaganda

A palavra “probiótico” reúne microrganismos muito diferentes.

Uma cepa estudada para sintomas intestinais pode não ter qualquer evidência para alergias. Outra pesquisada durante tratamento com antibióticos não automaticamente ajudará no controle do peso.

Por isso, olhar apenas para frases como “10 bilhões de bactérias” ou “15 cepas” no rótulo pode dizer menos do que parece.

O que vale observar em um probiótico

Qual é a cepa presente no produto.

Para qual finalidade ela foi estudada.

Qual quantidade foi utilizada nos estudos.

Por quanto tempo aquele microrganismo foi administrado.

Tomar probióticos todos os dias pode ter efeitos interessantes, mas não existe um produto universal

Os oito possíveis benefícios mostram como o estudo da microbiota avançou para áreas que vão muito além da digestão.

Ao mesmo tempo, eles mostram por que é perigoso transformar resultados científicos específicos em uma promessa genérica.

Os estudos citados analisaram diferentes microrganismos, doses, populações e objetivos. Por isso, uma pessoa pode perceber algum benefício com determinada cepa enquanto outra utiliza um produto diferente e não nota qualquer mudança.

Talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente se probióticos fazem bem. O que realmente importa é saber qual cepa foi estudada, para qual finalidade e qual foi o resultado encontrado naquela situação específica.

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Camila Fernanda Ribeiro da Luz

Camila Fernanda Ribeiro da Luz escreve sobre curiosidades, entretenimento, tendências e assuntos do cotidiano que despertam interesse e movimentam as conversas do dia a dia.