4 frutas com melatonina que podem ajudar na hora de dormir, segundo nutricionistas

Quando o sono sai do ritmo, seja por viagens, mudança de horário de trabalho, excesso de telas à noite ou simplesmente por uma rotina desorganizada, muita gente pensa imediatamente em suplementos de melatonina.

Mas a melatonina não existe apenas em cápsulas e gotas. Pequenas quantidades do composto também aparecem naturalmente em alguns alimentos, inclusive em determinadas frutas.

Isso despertou interesse de pesquisadores porque a melatonina participa da sinalização do ciclo de sono e vigília. Durante o dia, seus níveis permanecem mais baixos. Com a chegada da noite e a redução da luz, a produção normalmente aumenta, ajudando o organismo a reconhecer que o período de descanso está se aproximando.

Algumas frutas também fornecem nutrientes relacionados às vias usadas pelo organismo para produzir melatonina, além de antioxidantes, vitaminas, minerais e outros compostos que podem contribuir indiretamente para uma rotina de sono mais saudável.

O ponto mais importante antes da lista

Essas frutas podem complementar uma rotina favorável ao sono, mas não devem ser tratadas como tratamento para insônia nem como substitutas de avaliação médica quando a dificuldade para dormir é frequente ou persistente.

O que a melatonina realmente faz?

A melatonina é um hormônio intimamente ligado ao nosso relógio biológico.

Sua produção é regulada pelo ciclo claro-escuro. A luminosidade durante o dia ajuda o organismo a permanecer em estado de vigília, enquanto a redução da luz à noite favorece o aumento da sinalização associada ao descanso.

É por isso que hábitos aparentemente distantes da alimentação, como ficar exposto a muita luz à noite ou passar horas olhando para telas muito brilhantes, também podem interferir na rotina do sono.

Da mesma forma, a luz natural recebida pela manhã ajuda a fornecer ao relógio biológico uma referência de horário.

Como o ciclo funciona de forma simplificada

Manhã

Luz ajuda a ajustar o relógio biológico.

Dia

Melatonina permanece normalmente em níveis baixos.

Noite

A escuridão favorece o aumento natural da melatonina.

Sono

O organismo recebe sinais de que é hora de descansar.

Melatonina dos alimentos funciona igual à do suplemento?

Não é uma comparação direta.

Os alimentos apresentam quantidades muito pequenas de melatonina quando comparados às doses utilizadas em muitos suplementos.

Ainda assim, pesquisas indicam que a melatonina obtida na alimentação pode ser absorvida e que o consumo de determinados alimentos contendo o composto pode alterar seus níveis circulantes ou de metabólitos encontrados na urina.

Isso não significa que uma porção de fruta funcione como um comprimido para induzir o sono.

Além disso, frutas são matrizes complexas. Elas fornecem simultaneamente fibras, vitaminas, minerais, polifenóis, carotenoides e outros compostos. Portanto, quando um estudo encontra alguma associação com o sono, nem sempre é possível atribuir todo o efeito exclusivamente à melatonina.

Mais melatonina não significa automaticamente mais sono

O sono depende de vários fatores. Horário, exposição à luz, cafeína, estresse, álcool, atividade física e condições de saúde podem pesar muito mais do que a quantidade de melatonina encontrada em uma única fruta.

1. Cerejas

Entre as frutas estudadas nesse contexto, as cerejas estão entre as mais conhecidas.

Elas contêm melatonina naturalmente e também oferecem polifenóis e outros antioxidantes.

Há ainda diferenças importantes entre as variedades. As chamadas tart cherries, cerejas ácidas frequentemente utilizadas em sucos e concentrados, costumam receber maior atenção nos estudos relacionados ao sono.

Segundo dados reunidos na literatura citada pela EatingWell, cerejas ácidas podem apresentar em média aproximadamente 13 nanogramas de melatonina por grama, embora a concentração possa variar conforme variedade, estágio de maturação, cultivo e processamento.

Cerejas maduras em uma tigela
As cerejas estão entre as frutas mais estudadas quando o assunto é melatonina presente nos alimentos. Foto: Nelli Neufeld/Pexels.

O que os estudos encontraram?

Uma revisão sistemática publicada em 2025 analisou estudos sobre cereja ácida e alterações relacionadas ao sono.

Os resultados disponíveis sugerem que produtos à base de tart cherry podem melhorar alguns desfechos, como duração ou qualidade do sono, em determinados grupos.

Mas a literatura ainda é relativamente pequena e apresenta diferenças importantes entre os estudos, incluindo quantidade ingerida, duração da intervenção, tipo de produto utilizado e perfil dos participantes.

Portanto, não é correto afirmar que simplesmente comer algumas cerejas antes de dormir garantirá uma noite melhor.

Como consumir

Cerejas frescas podem ser consumidas sozinhas ou acompanhadas de iogurte natural. Nos estudos de sono, porém, é comum aparecer suco ou concentrado de cereja ácida, o que não deve ser confundido automaticamente com qualquer suco adoçado de supermercado.

2. Manga

A manga talvez seja uma das frutas menos lembradas quando se fala em melatonina.

Mesmo assim, análises do conteúdo de melatonina dos alimentos indicam que ela também contém o composto.

Uma manga inteira pode fornecer aproximadamente 235 nanogramas de melatonina, valor equivalente a cerca de 0,7 nanograma por grama nos dados citados pelo artigo original.

Além disso, a manga fornece vitamina B6, nutriente que participa de reações metabólicas relacionadas às vias utilizadas pelo organismo para transformar triptofano em compostos que posteriormente participam da produção de melatonina.

Manga madura cortada
A manga também contém pequenas quantidades naturais de melatonina e fornece vitamina B6. Foto: Ivonne Arceo/Pexels.

Mas a manga não tem muito açúcar?

A manga naturalmente contém açúcares, como acontece com outras frutas.

Isso não significa que ela seja equivalente a um doce com açúcar adicionado.

A fruta inteira também fornece água, fibras e micronutrientes. Para quem precisa controlar a glicemia de forma individualizada, quantidade e contexto da refeição continuam importantes.

Um estudo randomizado publicado em 2025 investigou o consumo diário de manga em adultos com pré-diabetes e encontrou resultados favoráveis em alguns marcadores metabólicos quando comparado a outro alimento rico em carboidratos.

Esse estudo, porém, não foi um estudo sobre sono. Portanto, não deve ser usado como prova de que a manga melhora o descanso noturno.

Uma opção simples à noite

Uma pequena porção de manga pode ser combinada com iogurte natural ou chia para criar um lanche mais completo e saciante.

3. Banana

A banana traz uma curiosidade adicional: o estágio de maturação parece influenciar sua quantidade de melatonina e triptofano.

Pesquisas analisando a fruta sugerem que esses compostos podem aumentar conforme a banana amadurece.

Isso significa que aquela banana mais madura, com manchas escuras na casca, não é necessariamente pior do ponto de vista desse aspecto.

A fruta também fornece vitamina B6 e potássio.

Bananas maduras
O teor de alguns compostos presentes na banana pode mudar durante o amadurecimento. Foto: Pixabay/Pexels, CC0.

Banana realmente melhora o sono?

Essa possibilidade vem sendo pesquisada, mas a evidência ainda não permite transformar a fruta em uma espécie de “sonífero natural”.

Um estudo publicado em 2024 avaliou o consumo de banana e leite antes de dormir e analisou parâmetros relacionados ao sono e marcadores bioquímicos.

Os resultados levantam hipóteses interessantes, mas há uma limitação evidente para interpretar a banana isoladamente: a intervenção combinava dois alimentos.

Além disso, diferentes mecanismos podem estar envolvidos, não somente a melatonina presente na fruta.

Melatonina

Existe naturalmente na fruta em pequenas quantidades.

Triptofano

Aminoácido que participa das vias relacionadas à produção de serotonina e melatonina.

Vitamina B6

Participa de reações metabólicas envolvidas nessas vias.

Para transformar a banana em um lanche noturno mais completo, ela pode ser acompanhada de iogurte natural, algumas oleaginosas ou pasta de amendoim sem excesso de açúcar adicionado.

4. Kiwi

O kiwi merece atenção por um motivo diferente.

Embora também apareça entre os alimentos relacionados à melatonina, seus possíveis efeitos sobre o sono provavelmente não dependem exclusivamente desse hormônio.

A fruta também contém vitamina C, folato, antioxidantes e compostos relacionados à serotonina.

Kiwis maduros, incluindo um fruto cortado ao meio
O kiwi foi estudado em protocolos que avaliaram duração, percepção da qualidade e eficiência do sono. Foto: Anderson Martins/Pexels.

Por que dois kiwis antes de dormir ficaram famosos?

Alguns estudos pequenos investigaram o consumo de aproximadamente dois kiwis cerca de uma hora antes de dormir.

Participantes de determinadas pesquisas relataram melhorias na percepção do sono e no funcionamento durante o dia.

Quando os pesquisadores observaram medidas mais objetivas, entretanto, os resultados foram menos consistentes.

Uma revisão sobre protocolos alimentares e sono publicada em 2025 concluiu que existem sinais interessantes, mas reforçou que os estudos ainda têm limitações e que mais pesquisas são necessárias.

Essa diferença importa

Sentir que dormiu melhor é uma medida válida, mas não é a mesma coisa que um equipamento registrar aumento real do tempo total ou mudanças na arquitetura do sono. Por isso, estudos subjetivos e objetivos precisam ser interpretados separadamente.

Qual das quatro tem mais melatonina?

Essa comparação parece simples, mas não é tão direta quanto colocar quatro números lado a lado.

A concentração de melatonina em alimentos pode variar com variedade, maturação, condições de cultivo, armazenamento e método utilizado pelo laboratório para medir o composto.

Além disso, uma fruta pode conter menos melatonina e ainda assim fornecer outros nutrientes potencialmente relacionados ao sono.

FrutaO que chama atençãoEvidência relacionada ao sono
CerejaMelatonina e polifenóis, com destaque para cereja ácidaEntre as mais pesquisadas, inclusive em revisões sistemáticas
MangaMelatonina e vitamina B6Menos evidência direta sobre sono
BananaMelatonina, triptofano e B6, com variação pela maturaçãoEstudos existem, mas ainda são limitados
KiwiMelatonina, compostos relacionados à serotonina e antioxidantesResultados promissores, porém mistos em medidas objetivas

É melhor comer a fruta quanto tempo antes de dormir?

Não existe um horário universal comprovado para todas essas frutas.

Alguns protocolos com kiwi utilizaram consumo aproximadamente uma hora antes de deitar. Estudos com cereja variaram bastante na quantidade, formato e horário.

Isso significa que não há base suficiente para estabelecer uma regra do tipo “coma determinada fruta exatamente 30 minutos antes de dormir”.

Na prática, se a pessoa gosta de fazer um pequeno lanche noturno e a fruta não provoca desconforto digestivo, ela pode ser incluída dentro de uma rotina alimentar normal.

Grandes refeições perto do horário de dormir, por outro lado, podem ser desconfortáveis para algumas pessoas.

E se eu simplesmente tomar melatonina?

Suplementos contêm concentrações muito diferentes das encontradas naturalmente em frutas.

Isso significa que comparar um alimento diretamente com uma cápsula apenas porque ambos possuem melatonina pode levar a conclusões erradas.

Além disso, dificuldade frequente para dormir pode ter inúmeras causas, incluindo estresse, ansiedade, uso de medicamentos, apneia do sono, horários irregulares e outras condições que não serão resolvidas simplesmente aumentando a ingestão de melatonina.

Quando a dificuldade para iniciar ou manter o sono é recorrente, a causa merece investigação.

A alimentação ajuda, mas quatro hábitos podem pesar muito mais

As próprias nutricionistas consultadas no material original reforçam que alimentos ricos em melatonina são apenas uma peça do quebra-cabeça.

1. Diminua luz e estímulos à noite

Reduzir luz intensa e criar uma rotina previsível antes de dormir ajuda o cérebro a reconhecer que o período de vigília está terminando.

2. Observe o horário da cafeína

A sensibilidade varia bastante. Um ensaio clínico mostrou que dose e horário da cafeína interferem no sono subsequente, reforçando que consumir café perto da noite pode ser um problema para algumas pessoas.

3. Cuidado com exercícios muito intensos tarde da noite

Atividade física é positiva para a saúde e para o sono em geral, mas treinos intensos muito próximos de deitar podem deixar determinadas pessoas mais alertas.

4. Pegue luz natural pela manhã

A exposição à luz matinal fornece um importante sinal ambiental para sincronizar o relógio biológico.

Um lanche pode ser montado sem complicação

Quem sente fome antes de dormir não precisa transformar essas frutas em uma receita mirabolante.

Cereja + iogurte

Uma forma simples de combinar fruta e proteína.

Manga + chia

Pode ser preparada em pequena porção para quem prefere algo doce.

Banana + oleaginosas

A gordura e a proteína das oleaginosas tornam o lanche mais completo.

Kiwi puro

Uma alternativa leve para quem prefere uma fruta fresca antes de dormir.

O que não dá para concluir com essas pesquisas

Os estudos disponíveis não permitem dizer que uma dessas frutas seja capaz de tratar insônia ou fazer qualquer pessoa dormir rapidamente.

Também não é possível afirmar que simplesmente escolher a fruta com maior concentração de melatonina produzirá o maior benefício.

Alguns estudos utilizaram sucos ou concentrados, outros utilizaram frutas inteiras. As populações avaliadas também variaram.

Há pesquisas pequenas, protocolos diferentes e resultados subjetivos que nem sempre se repetem quando o sono é medido objetivamente.

A promessa precisa ficar no tamanho da evidência

Cereja, manga, banana e kiwi são alimentos nutritivos e interessantes. Existem motivos científicos para estudar sua relação com o sono, mas ainda não existe base para vender nenhuma delas como solução rápida ou garantida para insônia.

No fim, vale colocar essas frutas na rotina?

Para quem já gosta delas, sim. Há poucas razões para pensar nelas apenas como “frutas para dormir”.

Elas também fornecem fibras, vitaminas, minerais e compostos antioxidantes que fazem sentido dentro de uma alimentação variada.

A possível presença de melatonina e outros componentes relacionados ao sono é um benefício adicional interessante, não uma justificativa para transformar o alimento em medicamento.

O efeito mais consistente tende a surgir quando alimentação, horários, luz, cafeína e rotina de sono caminham na mesma direção.

Fontes e estudos citados

  • Nisar T, Fuller A, Gyawali P, Bird S. Effectiveness of Melatonin-Containing Foods on Promoting Sleep: A Scoping Review. Food Science & Nutrition, 2026. Consultar estudo.
  • Barforoush F et al. The Effect of Tart Cherry on Sleep Quality and Sleep Disorders: A Systematic Review. Food Science & Nutrition, 2025. Consultar estudo.
  • Xia H et al. Melatonin Accumulation in Sweet Cherry and Its Influence on Fruit Quality and Antioxidant Properties. Molecules, 2020. Consultar estudo.
  • Zanirate GA et al. The Content of Dietary Melatonin in 119 Food Items and Its Relationship With Chronic Diseases. Journal of Human Nutrition and Dietetics, 2026. Consultar estudo.
  • Wu M et al. The Potential of Banana as a Natural Dietary Source of Tryptophan and Melatonin. Acta Horticulturae, 2024. Consultar estudo.
  • Keser MG et al. Bedtime Banana and Milk Intake on Sleep and Biochemical Parameters. Asia Pacific Journal of Clinical Nutrition, 2024. Consultar estudo.
  • Conti F. Dietary Protocols to Promote and Improve Restful Sleep: A Narrative Review. Nutrition Reviews, 2025. Consultar estudo.
  • Gardiner CL et al. Dose and Timing Effects of Caffeine on Subsequent Sleep: A Randomized Clinical Crossover Trial. SLEEP, 2024. Consultar estudo.
  • De Menezes-Júnior LAA et al. The Role of Sunlight in Sleep Regulation. BMC Public Health, 2025. Consultar estudo.
Avatar photo

Camila Fernanda Ribeiro da Luz

Camila Fernanda Ribeiro da Luz escreve sobre curiosidades, entretenimento, tendências e assuntos do cotidiano que despertam interesse e movimentam as conversas do dia a dia.