Largar o emprego, fazer as malas e passar os próximos meses viajando de navio, conhecendo novos países, com comida pronta, entretenimento e uma paisagem diferente quase todos os dias.
Para muita gente, isso parece mais uma fantasia de férias do que uma possibilidade real de vida.
Mas Emma decidiu fazer exatamente isso.
Na casa dos 30 anos, ela abandonou uma carreira bem remunerada na área de tecnologia para começar a viver praticamente em tempo integral a bordo de navios de cruzeiro ao lado do companheiro.
Nos primeiros dias, parecia que ela havia encontrado uma maneira de transformar férias em rotina.
Só que bastaram cerca de dois meses para aparecer uma realidade que quase nunca aparece nas fotos perfeitas das redes sociais.
A decisão começou por causa da distância
Antes da mudança, Emma trabalhava com vendas corporativas na área de tecnologia e tinha uma renda anual de seis dígitos em dólares.
Enquanto isso, seu companheiro, Cael, passava longos períodos viajando em navios.
Ele atua profissionalmente com poker e, por causa de sua rotina, chegava a ficar semanas ou até meses fora.
Com o passar do tempo, a distância começou a pesar.
Segundo Emma, houve períodos em que os dois passaram mais da metade do ano separados.
Enquanto ela mantinha a rotina corporativa, ele conhecia novos lugares e passava boa parte do tempo viajando.
Foi então que ela começou a questionar se fazia sentido continuar ganhando muito dinheiro, mas sem conseguir aproveitar determinadas experiências ao lado da pessoa com quem queria estar.
A decisão foi radical.
Emma deixou o emprego e embarcou com o companheiro em uma nova fase da vida.
O plano era passar meses praticamente sem sair dos navios
A primeira etapa dessa nova vida previa aproximadamente quatro meses seguidos viajando.
E existe um detalhe que torna a história ainda mais curiosa.
O casal não necessariamente precisa pagar o valor tradicional cobrado de qualquer passageiro para embarcar em todos os cruzeiros.
Segundo Emma, eles recebem ofertas que reduzem bastante o custo das viagens por causa da atividade de seu companheiro a bordo.
Com isso, em algumas situações, os principais gastos ficam concentrados em taxas e despesas relacionadas aos portos.
O modelo ajuda a explicar como alguém relativamente jovem consegue permanecer durante meses viajando de navio.
Por fora, o cenário parece perfeito.
Navios enormes, restaurantes, festas, piscinas, academias e novos destinos aparecendo constantemente.
Mas transformar uma viagem de férias em residência permanente muda completamente a experiência.
Depois de algumas semanas, a sensação de férias começou a desaparecer
Esse foi provavelmente o maior choque.
Em férias, música, festas, restaurantes cheios e pessoas circulando o tempo inteiro fazem parte da diversão.
Agora imagine viver dentro desse ambiente todos os dias.
Emma continuou trabalhando parcialmente com análise de dados e também estudando para um MBA.
Isso significava encontrar concentração dentro de um lugar projetado justamente para que milhares de pessoas se divirtam.
E foi aí que os problemas começaram.
Ela passou a perceber o excesso de estímulos.
Música.
Conversas.
Eventos.
Passageiros circulando.
Anúncios e atividades.
Encontrar um espaço realmente tranquilo para trabalhar ou estudar, além da própria cabine, tornou-se complicado.
A cabine, por outro lado, oferece pouco espaço para alguém que precisa passar horas trabalhando.
Cerca de um mês depois veio uma vontade inesperada
Entre quatro e seis semanas vivendo dessa forma, Emma começou a sentir algo que provavelmente poucas pessoas imaginariam.
Ela queria voltar para casa.
Aquela experiência que parecia uma espécie de férias intermináveis começou a mostrar suas limitações.
Isso não significava que ela tivesse se arrependido completamente da decisão.
O problema era outro.
Uma viagem de sete dias permite ignorar muitas coisas da vida normal.
Você pode comer mais.
Dormir fora de horário.
Participar de festas.
Passar horas passeando.
Quando aquela experiência passa a ser sua casa, entretanto, ainda é necessário trabalhar, estudar, cuidar da saúde e manter uma rotina.
Existe ainda um problema que quase ninguém imagina
Solidão.
Pode parecer estranho falar em solidão dentro de um navio cheio de milhares de pessoas.
Mas existe uma diferença enorme entre estar cercado de gente e fazer parte de uma comunidade.
Emma explicou que conhece pessoas durante as viagens e pode até criar uma conexão rapidamente.
O problema aparece poucos dias depois.
O cruzeiro termina.
Os passageiros vão embora.
Outra multidão entra.
E praticamente tudo começa novamente.
Para quem está apenas viajando durante alguns dias, isso não representa qualquer problema.
Para quem mora naquele ambiente, a situação é diferente.
As mesmas pessoas que você conheceu no restaurante, na piscina ou durante uma atividade podem desaparecer definitivamente ao final daquela viagem.
Todo mundo muda, menos quem mora no navio
Essa talvez seja uma das partes mais curiosas dessa experiência.
Para o passageiro comum, o navio é temporário.
Para Emma, começou a funcionar como uma espécie de casa.
É como morar em um condomínio onde praticamente todos os seus vizinhos são substituídos a cada semana.
Há ainda uma diferença de idade.
Muitas pessoas que adotam longas temporadas em cruzeiros são aposentadas ou estão em uma fase diferente da vida.
Para um casal na faixa dos 30 anos, encontrar outras pessoas com rotina semelhante pode ser mais difícil.
Aos poucos eles encontraram uma espécie de comunidade
Com o passar do tempo, algumas coisas começaram a mudar.
Emma e Cael passaram a criar vínculos com funcionários dos navios.
Isso faz sentido.
Enquanto passageiros entram e saem constantemente, os tripulantes permanecem a bordo por períodos muito maiores.
São justamente eles que possuem algo mais próximo de uma rotina cotidiana naquele ambiente.
O casal também começou a reencontrar passageiros frequentes.
Em determinada viagem, por exemplo, eles voltaram a encontrar amigos que haviam conhecido anteriormente em outro cruzeiro entre Miami e a Espanha.
Pouco a pouco, algumas caras deixaram de ser completamente desconhecidas.
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Até a família entrou nessa nova rotina
Outro ponto que ajudou foi receber pessoas próximas a bordo.
Em uma das viagens, familiares acompanharam o casal durante um cruzeiro de dez dias.
Depois de tanto tempo longe de casa, passar vários dias com pessoas conhecidas trouxe de volta uma sensação que estava fazendo falta.
Isso mostrou uma coisa importante.
O problema não era necessariamente o navio.
Era viver em movimento constante sem os vínculos sociais que normalmente fazem parte de uma vida em terra.
Afinal, morar em um navio é realmente mais barato?
Essa pergunta aparece frequentemente quando histórias desse tipo viralizam.
Mas não existe uma resposta única.
No caso de Emma e Cael, existe uma circunstância bastante específica que torna a experiência possível.
Eles conseguem acessar determinadas viagens por condições diferentes das tarifas normalmente pagas pelo passageiro comum.
Para alguém que tivesse que comprar continuamente cabines durante o ano inteiro, a matemática poderia mudar completamente.
Também existem despesas fora da passagem.
Internet, passeios, taxas portuárias, serviços adicionais, alimentação especial e deslocamentos podem alterar bastante o custo final.
Portanto, simplesmente comparar uma mensalidade de aluguel com o preço promocional de um cruzeiro pode produzir uma conclusão enganosa.
A história também desmonta uma ilusão das redes sociais
É muito fácil assistir a poucos segundos de um vídeo gravado no meio do Caribe e imaginar que alguém encontrou a vida perfeita.
A imagem mostra o oceano.
O restaurante.
A piscina.
Uma ilha paradisíaca.
O que normalmente não aparece são cinco horas diante de um computador tentando trabalhar enquanto centenas de pessoas estão se divertindo alguns metros adiante.
Também não aparecem a falta de espaço, a saudade da família ou a dificuldade de criar amizades duradouras.
E Emma passou a falar justamente sobre isso.
Ela percebeu que algumas pessoas não gostam quando alguém mostra o lado menos glamouroso de uma experiência que elas consideram um sonho.
Mesmo assim, ela não desistiu
Apesar das dificuldades, Emma continuou a experiência.
Ela e o companheiro começaram a adaptar a rotina aos problemas encontrados durante os primeiros meses.
A expectativa deixou de ser viver permanentemente em férias.
O navio simplesmente virou o lugar onde eles estavam morando.
Essa pequena mudança de percepção faz bastante diferença.
Existe hora para passear.
Existe hora para trabalhar.
Existe hora para estudar.
E existem dias em que provavelmente não acontece nada extraordinário.
Exatamente como em qualquer outra casa.
O sonho de férias eternas funciona de um jeito diferente na vida real
A experiência de Emma revela uma diferença curiosa entre visitar um lugar e morar nele.
Um resort pode parecer perfeito durante cinco dias.
Uma praia pode parecer paradisíaca durante uma semana.
E um navio pode parecer uma cidade flutuante onde nunca faltam coisas para fazer.
Mas quando aquele lugar passa a fazer parte da rotina, o cérebro deixa de enxergá-lo como novidade.
A festa vira barulho.
A cabine vira escritório.
O passageiro ao lado vira mais um desconhecido que provavelmente irá embora dentro de alguns dias.
Isso não significa que viver viajando seja ruim.
Para Emma, inclusive, a experiência continua oferecendo momentos que dificilmente seriam possíveis dentro de uma rotina corporativa tradicional.
Mas ela descobriu algo que as fotografias de viagem raramente mostram.
Até mesmo viver permanentemente em um lugar criado para férias continua sendo, no fim das contas, vida real.
